Por Gabrielle Tricanico
O crescimento das internações por dependência de cocaína no Brasil voltou a acender um sinal de alerta para autoridades de saúde e especialistas. Levantamento da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), com base em dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS), mostra que as hospitalizações relacionadas ao transtorno aumentaram 19,8% nos últimos cinco anos, refletindo o agravamento de uma das principais crises de saúde pública do país.
Entre abril de 2021 e março de 2026, o Sistema Único de Saúde registrou 45.433 internações, envolvendo 36.861 pacientes diferentes. Os atendimentos consumiram mais de R$ 41,2 milhões em recursos públicos, com custo médio de aproximadamente R$ 906 por internação. O tempo médio de permanência hospitalar chegou a 28,8 dias, demonstrando a complexidade clínica dos casos mais graves.
Os dados revelam ainda que a dependência química apresenta alto índice de reincidência. O número de internações supera o de pacientes atendidos, indicando que muitos precisaram retornar aos hospitais em decorrência de recaídas, uma característica comum da doença quando não há acompanhamento contínuo e rede de tratamento estruturada.
O levantamento também mostra que os homens representam 74,2% das internações, enquanto as mulheres correspondem a 25,8%. A faixa etária mais atingida concentra-se entre 18 e 44 anos, período considerado de maior impacto social e econômico por envolver a população economicamente ativa.
Na saúde suplementar, o cenário também preocupa. A pesquisa identificou 58.088 internações relacionadas à dependência de cocaína entre abril de 2021 e dezembro de 2024, com faturamento estimado em R$ 149,7 milhões, evidenciando que o problema ultrapassa a rede pública e afeta todo o sistema de saúde brasileiro.
Análise
O crescimento das internações não significa, necessariamente, aumento proporcional no número de usuários. Especialistas apontam que o dado pode refletir casos cada vez mais graves, maior frequência de consumo, associação da cocaína com outras drogas e álcool, além das dificuldades de acesso ao tratamento precoce.
Outro aspecto relevante é que as hospitalizações representam apenas a parcela mais severa da dependência química. Milhares de brasileiros são acompanhados em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ambulatórios especializados ou sequer chegam aos serviços de saúde, o que indica que a dimensão real do problema pode ser significativamente maior.
O levantamento reforça a necessidade de ampliar políticas públicas de prevenção, fortalecer programas de saúde mental, expandir a oferta de tratamento especializado e investir na reinserção social dos pacientes. Sem essas medidas, o impacto tende a crescer não apenas sobre o SUS, mas também sobre a segurança pública, a economia e as famílias brasileiras.
