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São Bernardo vira peça-chave em investigação que recupera gravuras milionárias de Matisse roubadas em SP

Oito obras avaliadas em mais de R$ 1 milhão foram encontradas em apartamento na Vila Campestre; homem de 44 anos foi preso por suspeita de receptação e posse ilegal de arma. Polícia aponta conexão com Laéssio Rodrigues de Oliveira, considerado um dos mais conhecidos ladrões de obras raras do país. Cinco gravuras de Portinari continuam desaparecidas.

Gabrielle Tricanico | Grande ABC | São Bernardo do Campo

São Bernardo do Campo entrou no centro de uma investigação envolvendo um dos mais relevantes roubos recentes de obras de arte em São Paulo. A Polícia Civil recuperou oito gravuras do artista francês Henri Matisse, roubadas em dezembro de 2025 do acervo da Biblioteca Mário de Andrade, no Centro da capital paulista.

As peças, avaliadas em mais de R$ 1 milhão, foram localizadas em um apartamento na Rua Mário Rossi, na Vila Campestre, em São Bernardo do Campo. De acordo com as informações da investigação, as obras estavam preservadas e guardadas dentro de um envelope.

A localização do material no Grande ABC representa um avanço importante na tentativa de reconstruir o caminho percorrido pelas 13 peças levadas da biblioteca e, principalmente, identificar quem teria participado do roubo, armazenamento e eventual tentativa de comercialização das obras.

Homem é preso em São Bernardo

No imóvel, os investigadores prenderam João Paulo Linhares de Araújo, de 44 anos, sob suspeita de receptação. Uma arma de fogo também foi encontrada no local, além de munições e dinheiro. Ele também é investigado por posse ilegal de arma.

A defesa de João Paulo sustenta que ele colaborou com os policiais e que não sabia o conteúdo do material que havia sido deixado sob sua guarda. A responsabilidade criminal do investigado ainda será analisada pela Justiça, e a prisão não representa condenação definitiva.

Uma das questões centrais da investigação agora é justamente descobrir como as gravuras chegaram ao apartamento de São Bernardo.

Segundo a Polícia Civil, João Paulo seria amigo de Laéssio Rodrigues de Oliveira, de 53 anos, apontado pelos investigadores como suposto mandante do roubo. A linha investigativa indica que Laéssio teria pedido ao homem preso em São Bernardo que guardasse o envelope no qual estavam as obras.

Quem é o homem apontado como mandante

Laéssio Rodrigues de Oliveira é um nome conhecido das autoridades que investigam crimes envolvendo patrimônio histórico e cultural.

Ele é apontado pela polícia como um dos mais conhecidos ladrões de livros raros e obras de arte do país e está preso desde abril. Na investigação sobre o ataque à Biblioteca Mário de Andrade, ele é tratado como suspeito de ter participado da articulação do crime.

O histórico atribuído a Laéssio torna a investigação ainda mais relevante porque o caso pode ultrapassar a identificação dos homens que teriam executado diretamente o assalto.

A polícia busca compreender toda a cadeia posterior ao crime: quem recebeu as peças, onde elas ficaram escondidas, se existiam intermediários e se havia compradores interessados no patrimônio roubado.

A recuperação das gravuras na residência de uma pessoa apontada como próxima ao suspeito pode ajudar os investigadores a reconstruir esse percurso.

Roubo ocorreu diante de funcionários e visitantes

O crime aconteceu em 7 de dezembro de 2025, no último dia da exposição que reunia as obras na Biblioteca Mário de Andrade.

Segundo a investigação, criminosos armados entraram no prédio e renderam funcionários e visitantes. Uma segurança foi obrigada a entregar equipamentos de comunicação e o celular enquanto as obras eram retiradas.

Um casal de idosos que visitava a exposição também foi rendido durante a ação.

Os criminosos colocaram as peças em uma sacola e deixaram o prédio pela porta principal.

Ao todo, foram levadas 13 obras: oito gravuras de Henri Matisse e cinco peças relacionadas a “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, com ilustrações de Candido Portinari.

Por que as gravuras de Matisse são tão importantes

As oito obras recuperadas fazem parte de “Jazz”, uma das produções mais célebres de Henri Matisse.

Publicado originalmente em 1947, o trabalho nasceu de uma fase marcante da trajetória do artista francês, na qual Matisse passou a trabalhar intensamente com recortes de papéis coloridos e composições que posteriormente deram origem às imagens.

“Jazz” tornou-se uma referência da arte moderna e uma das obras mais reconhecidas da fase final da carreira do artista.

O conjunto pertencente ao acervo paulistano tem ainda importância histórica e bibliográfica por sua raridade. Trata-se de material pertencente a uma edição limitada, o que amplia seu valor cultural para além da estimativa financeira.

Por isso, a recuperação representa não apenas a devolução de um patrimônio avaliado em mais de R$ 1 milhão, mas a preservação de peças relevantes da história da arte moderna.

Cinco obras de Portinari continuam desaparecidas

Apesar da recuperação das oito gravuras de Matisse, o caso ainda não está encerrado.

Cinco obras de Candido Portinari continuam desaparecidas.

As peças estão relacionadas a “Menino de Engenho”, obra de José Lins do Rego ilustrada por Portinari, um dos mais importantes artistas brasileiros do século XX.

A localização dessas gravuras passa a ser uma das principais frentes da investigação.

Os policiais trabalham para descobrir se as peças continuam armazenadas no Brasil, se passaram para outras pessoas ou se chegaram a ser negociadas.

Esse é um ponto particularmente sensível em investigações envolvendo patrimônio artístico. Quanto maior o período entre o roubo e a recuperação, maior pode ser a dificuldade para reconstruir a circulação das peças.

São Bernardo entra na rota da investigação

A descoberta das obras na Vila Campestre coloca São Bernardo do Campo em uma posição estratégica dentro da investigação.

O crime ocorreu no Centro de São Paulo, mas parte significativa do patrimônio roubado foi localizada meses depois no Grande ABC.

Agora, os investigadores precisam esclarecer se o apartamento funcionou apenas como esconderijo temporário ou se a passagem das gravuras por São Bernardo fazia parte de uma estrutura maior para ocultação e possível negociação das obras.

Também será necessário identificar há quanto tempo as gravuras estavam no imóvel e quem, além do morador, sabia da existência do material.

Obras foram encontradas intactas

As gravuras recuperadas foram identificadas como pertencentes ao acervo roubado e, segundo as informações divulgadas sobre a operação, estavam intactas e sem danos aparentes.

A preservação é considerada fundamental diante da fragilidade de obras em papel e do valor histórico do conjunto.

Após os procedimentos policiais e de identificação, o material deve permanecer sob os cuidados responsáveis pela preservação do acervo.

Não há indicação de retorno imediato das peças à exposição pública.

Investigação busca possível rede por trás do crime

A recuperação das oito obras abre uma nova etapa da investigação.

Mais do que localizar os autores materiais do roubo, a Polícia Civil tenta esclarecer se havia uma estrutura destinada à receptação, ocultação ou comercialização clandestina das peças.

Entre as perguntas ainda sem resposta estão o destino que seria dado às gravuras, a existência ou não de compradores previamente definidos, a participação de intermediários e, principalmente, a localização das cinco obras de Portinari que continuam desaparecidas.

A polícia também deverá individualizar a responsabilidade de cada pessoa investigada. As suspeitas apresentadas durante o inquérito ainda dependem da conclusão das investigações e da análise do Poder Judiciário.

Para o Grande ABC, a operação chama atenção por colocar São Bernardo do Campo diretamente na rota de uma investigação sobre patrimônio artístico de alto valor, revelando que o caminho percorrido por obras roubadas pode atravessar cidades e envolver diferentes personagens antes de uma eventual tentativa de comercialização.

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Texto e reportagem no portal por Gabrielle Tricanico

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