Há muitos anos acompanho eleições por meio de pesquisas qualitativas e quantitativas em diferentes regiões do Brasil, e eleição após eleição, uma constatação volta a aparecer :homens e mulheres decidem cada vez mais diferente como votar.
Não quero dizer com isso que exista um “voto feminino” único, seria um erro imaginar que mais da metade do eleitorado brasileiro pudesse ser colocada dentro de uma única categoria, isso é pretensioso e falso.
A mulher jovem da periferia de uma capital, a empresária de classe alta, a agricultora do interior, a aposentada, a mãe solo, a evangélica ou a universitária vivem realidades diferentes e podem ter visões políticas completamente distintas.
Apesar dessas diferenças de classe, ofício, religião e geração, minhas experiências em pesquisas têm mostrado alguns comportamentos recorrentes que merecem atenção.
A questão talvez esteja menos em quem a mulher votam e mais em como ela constrói seu voto, e essa diferença pode ser decisiva para compreender uma eleição.
Um dos aspectos que mais aparecem nas pesquisas é a relação das mulheres com os serviços públicos.
Saúde e educação, por exemplo, deixam rapidamente de ser conceitos abstratos quando entramos em um grupo qualitativo feminino.
A saúde é a consulta que não foi marcada, o remédio que faltou, o exame que demorou meses ou a qualidade do atendimento recebido por um pai idoso ou por um bebê.
Educação é a professora que falta, a qualidade da merenda, a creche que não tem vaga ou a distância que o filho percorre para estudar.
Isso acontece porque, apesar das profundas transformações ocorridas nas famílias brasileiras, recai sobre as mulheres uma parcela maior pra não dizer única, das responsabilidades relacionadas ao cuidado dos filhos, dos idosos e da própria organização familiar.
Consequentemente, determinadas políticas públicas chegam até elas de maneira muito concreta, elas não apenas “avaliam a saúde”. Muitas vezes experimentam a saúde pública em nome de toda a família.
Outro comportamento que observo com frequência é uma maior resistência de muitas mulheres a fechar antecipadamente sua escolha eleitoral.
Isso não deve ser confundido com desinteresse por política, ao contrário, em muitos casos, aquilo que uma pesquisa quantitativa classifica simplesmente como “indecisão” pode esconder um processo mais complexo de escolha.
A eleitora compara candidatos, observa comportamentos, confronta aquilo que escuta com sua própria realidade e pode alterar sua decisão durante a campanha.
Por isso, candidatos que acreditam que uma eleição está definida meses antes do voto deveriam prestar especial atenção ao eleitorado feminino.
O voto declarado antecipadamente nem sempre possui a mesma rigidez, “o poderia votar” reina entre mulheres, o “votaria com certeza” é muito mais difícil de aparecer em quantis.
Existe outra questão, a identidade política pode pesar de maneira diferente, naturalmente existem mulheres profundamente identificadas com esquerda, direita, partidos ou lideranças políticas, mas nossas pesquisas também mostram eleitoras menos dispostas a aceitar automaticamente tudo aquilo que vem do campo político com o qual simpatizam.
Isso abre espaço para uma decisão eleitoral mais pragmática e, em determinadas situações, menos previsível.
A corrupção também possui uma dimensão concreta, e esse é um ponto interessante quando discutimos corrupção a fundo.
É evidente que corrupção incomoda homens e mulheres. Mas existe uma dimensão particular quando o desvio de dinheiro público é associado a serviços essenciais.
Roubar dinheiro público, é uma afirmação abstrata, mas roubar dinheiro da merenda das crianças, é outra coisa.
Desviar recursos destinados à compra de medicamentos, equipamentos hospitalares, creches ou escolas transforma uma questão ética em uma questão humana e revolta mulheres mais que homens.
Nos grupos qualitativos, essa mudança de enquadramento frequentemente modifica completamente a intensidade da reação, porque o dinheiro deixa de ser simplesmente “dinheiro do governo”, e passa a ser piora de prestação de serviços.
Talvez um dos maiores erros da política contemporânea seja acreditar que agressividade é sinônimo de força.
E isso aparece de maneira particularmente importante entre as mulheres, a polarização política transformou o ataque em instrumento permanente de comunicação.
Gritos, humilhações, insultos, ironias e demonstrações públicas de intolerância passaram a ser celebrados por parcelas do eleitorado como demonstrações de coragem.
Mas para muitas mulheres existe um limite, nas pesquisas, é comum perceber mulheres que concordam com a posição política de determinado candidato e, simultaneamente, rejeitam a maneira como ele se comporta.
Elas podem compartilhar determinados valores e considerar o candidato agressivo demais, ou defender posições firmes sobre segurança, economia ou costumes conservadores, sem desejar um representante que transforme toda divergência em guerra.
A política frequentemente confunde firmeza com brutalidade, parte importante do eleitorado feminino parece perceber muito bem essa diferença.
Promessa demais também afasta a maioria das mulheres, a desconfiança de mulheres diante de promessas grandiosas, que vão solucionar os problemas num passe de mágica.
Marketing do Vai acabar com as filas, construir hospitais, aumentar salários, gerar milhares de empregos, reduzir impostos, melhorar escolas e resolver a segurança, tudo isso posto simultaneamente para a eleitora soa negativo na maioria das vezes, variando da dúvida a picaretagem.
Entre muitas mulheres, encontramos de maneira presente em qualis, uma cobrança bastante concreta: como será feito? Quanto tempo vai levar? Isso realmente é responsabilidade daquele cargo? De onde virá o dinheiro?
Essa dimensão prática da escolha feminina é um de seus diferenciais, se baseia na sua experiência cotidiana, funcionando como uma espécie de teste de realidade.
Quem administra um orçamento doméstico apertado sabe que escolhas precisam ser feitas. Quem passou meses tentando conseguir uma consulta pelo sistema público dificilmente acredita que um problema estrutural desaparecerá apenas porque apareceu uma promessa eleitoral nas redes sociais ou na TV sem explicação aprofundada.
A promessa exagerada pode gerar esperança, mas também pode produzir desconfiança, e isso é marca das eleitoras brasileiras, a desconfiança.
Talvez nenhum tema revele melhor a necessidade de compreender as nuances do eleitorado feminino do que a segurança pública.
Seria equivocado imaginar que mulheres desejam uma política “branda” de segurança, o medo é extremamente presente na vida feminina.
A mulher pensa no assalto, mas também no caminho até o ponto de ônibus, no filho que volta tarde para casa, na filha adolescente e o risco da violência sexual, na violência doméstica, nas drogas próximas da escola e na vulnerabilidade dos idosos.
Sua experiência da insegurança pode, portanto, ser mais ampla.
Justamente por isso, propostas excessivamente simplistas nem sempre respondem à complexidade do problema percebido, o discurso exclusivamente vingativo pode produzir aplausos, mas não necessariamente transmite solução.
Há espaço para firmeza no discurso, demanda por polícia, investigação, punição e presença do Estado. Mas também existe uma pergunta mais profunda: isso vai fazer minha família ficar mais segura?
Depois de observar milhares de pessoas discutindo política em pesquisas qualitativas ao longo dos anos, percebi que confiança é o início de qualquer relação do voto feminino com o candidato.
Não confiança como sinônimo de simpatia, mas sim confiança no sentido mais amplo. Duvidas que levam à reflexão do voto surgem entre mulheres como: Essa pessoa parece preparada? Parece equilibrada? Entende os problemas da minha família? Cumpre aquilo que promete?Consegue exercer autoridade sem perder a razão e a humanidade?
São perguntas que muitas vezes aparecem sem serem verbalizadas dessa maneira, mas que movem o voto feminino, e talvez expliquem por que determinados candidatos conseguem grande entusiasmo entre homens e encontram uma barreira muito maior entre mulheres.
O candidato pode ser admirado pela coragem, pela agressividade ou pela capacidade de enfrentamento. Mas essas mesmas características, quando ultrapassam determinado limite, podem ser interpretadas como impulsividade, intolerância ou ausência de equilíbrio, e aí a ponderação feminina entra.
Não existe “a mulher brasileira”, tudo o que descrevi aqui são tendências observadas em pesquisas, e não regras universais, não existe uma mulher brasileira eleitoralmente homogênea.
A mulher muda demais seu perfil dependendo de classe social, Idade, escolaridade, religião, região do país, se é mãe ou não, ao modo da sua inserção no mercado de trabalho. Além de sua experiência pessoal com violência, serviços públicos e dificuldades pessoais.
Uma mulher de 22 anos não necessariamente enxerga a política como uma mulher de 65, uma mulher de classe A pode estabelecer prioridades diferentes de uma mulher da classe D, uma evangélica conservadora pode discordar profundamente de uma jovem progressista sobre costumes e, ainda assim, a grande maioria usa critérios semelhantes para avaliar se determinado candidato demonstra equilíbrio, confiança ou capacidade de cuidar dos problemas concretos.
As mulheres não precisam votar nos mesmos candidatos para apresentar determinadas semelhanças na maneira de avaliá-los.
Essa distinção é fundamental e é o grande erro das campanhas. Campanhas políticas ainda cometem um erro primário quando pensam no eleitorado feminino. Tratam mulheres como uma “pauta”.
Chega o período eleitoral e aparecem propostas “para as mulheres”, eventos “para mulheres”, peças publicitárias cor-de-rosa e discursos preparados especificamente para o chamado público feminino.
Uma visão incompleta e digamos ultrapassada, a mulher não é uma pauta eleitoral, elas querem discutir emprego, inflação, saúde, educação, segurança, transporte, impostos, habitação, corrupção e qualidade dos serviços, são a metade da população.
As mulheres não representam apenas mais da metade do eleitorado. Em muitas famílias e na comunidade, exercem papel central na circulação de informações e na formação de percepções sobre aquilo que acontece ao redor delas.
Conversam sobre a escola dos filhos, o atendimento de saúde, o preço dos alimentos, a segurança do bairro e os problemas da cidade.
Política entra nessas conversas mesmo quando ninguém chama aquilo de política, por isso, compreender o voto feminino não significa simplesmente criar uma estratégia para conquistar um segmento eleitoral.
Significa compreender uma parte fundamental de como a sociedade brasileira percebe o Estado e julga seus governantes.
E assim a mulher se moderniza, e mostra que para elas as mudanças sofridas em seu gênero nos últimos tempos lhe deram a característica de um voto muito mais maduro que o masculino.
RENATO DORGAN, 52 anos, é cientista político, especialista em Pesquisas Qualitativas e Quantitativas, CEO do Instituto Travessia de Pesquisas.
