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Mais de 3 mil demissões na Casas Bahia ampliam pressão sobre São Caetano, cidade histórica do grupo

Reestruturação envolve o fechamento de 298 lojas no país e milhares de desligamentos; São Caetano mantém operações ligadas ao grupo e concentra a fábrica Bartira, enquanto Prefeitura é questionada sobre possíveis reflexos nos empregos, no comércio e na arrecadação municipal.

Gabrielle Tricanico | ECONOMIA | GRANDE ABC | SÃO CAETANO DO SUL

A crise enfrentada pelo Grupo Casas Bahia ganha contornos especialmente importantes para São Caetano do Sul, cidade historicamente ligada à trajetória da varejista e que ainda concentra operações relevantes da companhia.

Segundo informações da Telebras News, a reestruturação nacional envolve o fechamento de 298 lojas, o equivalente a quase 30% das unidades em funcionamento, e pode resultar em mais de 3 mil demissões em todo o país. Cerca de 600 trabalhadores teriam sido desligados já na quinta-feira (13), com uma nova rodada de cortes nesta sexta-feira (14).

Para São Caetano, entretanto, o ponto central não está apenas no tamanho nacional da crise. A questão é descobrir qual parcela dessa reestruturação atingirá diretamente as operações e os trabalhadores ligados à cidade — e quais poderão ser os efeitos sobre a economia municipal.

A Guardiã da Notícia procurou a Prefeitura de São Caetano para saber se o município já foi comunicado sobre cortes locais, se existe estimativa do número de trabalhadores atingidos e se a administração calcula possíveis reflexos sobre a arrecadação, o comércio e os serviços.

São Caetano mantém ligação estratégica com o grupo

A relação entre a Casas Bahia e São Caetano vai muito além da presença de lojas da rede.

O município fez parte da consolidação empresarial da companhia e continua ligado a estruturas importantes do grupo. Entre elas está a Bartira, indústria de móveis pertencente ao Grupo Casas Bahia e cuja operação industrial está concentrada em São Caetano.

Dados institucionais divulgados pelo próprio grupo apontam que a fábrica possui cerca de 1,5 mil colaboradores, ocupa uma área de aproximadamente 140 mil metros quadrados, sendo 110 mil metros quadrados de área construída, e possui capacidade de produção de aproximadamente 750 produtos por hora.

A relevância estratégica da Bartira também aparece dentro das vendas do próprio conglomerado: a fabricante responde por aproximadamente 35% das vendas de móveis do Grupo Casas Bahia, segundo informações institucionais da companhia.

Até o momento, porém, não há confirmação de que a Bartira esteja entre as operações atingidas pela atual rodada de cortes.

Essa informação é fundamental porque os mais de 3 mil desligamentos mencionados na reestruturação são nacionais. Portanto, não é possível atribuir esse volume de demissões a São Caetano.

Empregos são a primeira preocupação

O número de funcionários eventualmente atingidos em São Caetano será o principal indicador para medir o impacto regional da crise.

Se houver uma redução significativa das estruturas mantidas na cidade, os efeitos podem ultrapassar os trabalhadores diretamente desligados.

Grandes unidades empresariais geram uma economia própria ao redor delas. Trabalhadores consomem em restaurantes, padarias, mercados, farmácias e lojas, utilizam estacionamentos, postos de combustíveis, transporte coletivo e aplicativos e contratam diferentes serviços.

Uma redução expressiva desse contingente pode provocar diminuição da circulação de renda, principalmente nos bairros e corredores comerciais próximos às operações da empresa.

É o chamado efeito indireto da perda de empregos: a demissão acontece dentro de uma companhia, mas parte da renda que deixa de circular pode atingir dezenas de outros negócios.

Arrecadação municipal também entra na discussão

Outro ponto que precisa ser esclarecido pela Prefeitura é a participação atual das empresas ligadas ao Grupo Casas Bahia na arrecadação de São Caetano.

A relação tributária entre a companhia e o município já foi objeto de preocupação anteriormente.

Em 2021, durante uma reorganização da então Via, controladora da Casas Bahia, parte da estrutura administrativa foi transferida de São Caetano para a Capital.

Naquele período, a Prefeitura informou que o CNPJ permanecia no município e, por isso, não haveria naquele momento uma perda direta da arrecadação associada à mudança física.

Informações divulgadas na época apontavam que a companhia recolhia aproximadamente R$ 30 milhões por ano em tributos ao município.

O valor é histórico e não pode ser tratado como a arrecadação atual da empresa em São Caetano. Cinco anos depois, a estrutura societária, tributária e operacional do grupo passou por mudanças.

Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar por que uma reestruturação dessa magnitude exige acompanhamento do poder público municipal.

São Caetano já enfrentou redução da estrutura administrativa

A movimentação atual também resgata uma discussão enfrentada pela cidade em 2021.

Na reorganização anunciada naquele período, a estrutura mantida em São Caetano possuía aproximadamente 30 mil metros quadrados.

As informações divulgadas à época indicavam que cerca de 1.100 funcionários permaneceriam trabalhando presencialmente na cidade, enquanto aproximadamente 800 seriam transferidos para São Paulo e outros 2.600 passariam ao regime de home office.

A preocupação naquele momento não estava apenas nos tributos, mas também na diminuição do fluxo diário de trabalhadores e, consequentemente, nos possíveis reflexos sobre estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços da cidade.

Agora, diante de uma nova e mais ampla reestruturação nacional, essa discussão retorna.

Fechamento de 298 lojas dimensiona tamanho da reestruturação

A extensão da reorganização também pode ser medida pelo número de estabelecimentos envolvidos.

Segundo as informações da Telebras News, 298 lojas tiveram suas atividades encerradas nesta sexta-feira (14).

Antes dessa nova etapa, dados institucionais do Grupo Casas Bahia apontavam uma rede superior a mil estabelecimentos considerando suas diferentes bandeiras.

O Estado de São Paulo representa um dos principais mercados da companhia e concentra parcela expressiva da operação física da varejista.

Por isso, além da quantidade de trabalhadores desligados em São Caetano, outro dado relevante será identificar quantas unidades fechadas estão no Estado e, especialmente, na Região Metropolitana de São Paulo e no Grande ABC.

Crise ocorre após anos de reestruturação financeira

A situação atual não surgiu de forma isolada.

O Grupo Casas Bahia atravessa há anos um processo de transformação financeira e operacional, com medidas destinadas a reduzir endividamento, melhorar margens, reorganizar estoques, rever a presença física e aumentar a eficiência da operação.

A companhia também vem tentando adaptar um modelo historicamente baseado em grandes redes de lojas físicas a um varejo cada vez mais integrado ao comércio eletrônico e aos canais digitais.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta um ambiente econômico desafiador.

Empresas de varejo que dependem fortemente de vendas parceladas são particularmente sensíveis ao custo do crédito. Juros elevados encarecem o financiamento para consumidores, pressionam as vendas de bens duráveis e também aumentam o custo financeiro das próprias companhias.

Móveis, eletrodomésticos e eletrônicos — segmentos historicamente importantes para a Casas Bahia — estão justamente entre os produtos nos quais financiamento e parcelamento possuem peso relevante na decisão de compra.

A combinação entre endividamento, necessidade de geração de caixa, transformação digital, concorrência e custo do crédito ajuda a explicar a dimensão do processo de reorganização enfrentado pela companhia.

Recuperação judicial precisa ser oficialmente esclarecida

As informações iniciais encaminhadas à reportagem apontam também para um pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia.

A Guardiã da Notícia, no entanto, considera necessária a confirmação formal dessa informação pela companhia ou pela Justiça antes de tratar o pedido como definitivamente apresentado.

A recuperação judicial é um instrumento previsto na legislação brasileira para empresas que enfrentam dificuldades financeiras, permitindo a negociação coletiva das dívidas com credores sob supervisão judicial, ao mesmo tempo em que busca preservar a atividade empresarial e os empregos.

Caso o pedido seja oficialmente confirmado, será necessário conhecer o tamanho da dívida submetida ao processo, quais empresas do grupo estão incluídas, quais credores serão atingidos e quais operações ficarão abrangidas pelo plano de recuperação.

Para São Caetano, será particularmente importante verificar se empresas ou estruturas instaladas no município estão incluídas nessa reorganização.

Bartira coloca questão industrial no centro da apuração

A presença da Bartira acrescenta outro componente à discussão: o emprego industrial.

Diferentemente de uma loja que pode possuir algumas dezenas de funcionários, uma fábrica com aproximadamente 1,5 mil colaboradores tem capacidade de produzir impacto econômico muito mais concentrado caso seja atingida por uma reestruturação.

Além dos empregos diretos, uma indústria movimenta fornecedores, transportadoras, manutenção, alimentação, logística, segurança, limpeza e uma série de serviços terceirizados.

Por isso, qualquer eventual mudança envolvendo a operação da Bartira teria repercussões diferentes do fechamento isolado de uma unidade comercial.

Até o momento, é importante reforçar, não existe confirmação de fechamento da fábrica nem de demissão em massa dos trabalhadores da Bartira.

A situação da unidade é justamente um dos pontos que precisam ser esclarecidos pelo Grupo Casas Bahia.

Prefeitura precisa dimensionar impacto para São Caetano

Diante do tamanho da reestruturação, A Guardiã da Notícia encaminhou questionamentos à Prefeitura de São Caetano do Sul.

A reportagem quer saber quantos trabalhadores do Grupo Casas Bahia atuam atualmente no município e quantos deles poderão ser atingidos pelos cortes.

Também questiona se a administração municipal recebeu alguma comunicação oficial da companhia sobre redução de pessoal, transferência de estruturas ou mudanças nas operações existentes na cidade.

Outro ponto é a arrecadação.

A Prefeitura deverá informar, dentro dos limites permitidos pela legislação tributária, se é possível dimensionar a importância econômica das atividades ligadas ao grupo para as receitas municipais e se uma eventual redução das operações poderia produzir perda relevante.

A Guardiã também questionou se a administração pretende procurar a direção da companhia e se existem medidas sendo preparadas pelas áreas de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Emprego para auxiliar trabalhadores eventualmente desligados.

Cinco respostas são decisivas para São Caetano

Neste momento, a dimensão regional da crise depende principalmente de cinco respostas:

  1. Quantos trabalhadores do Grupo Casas Bahia atuam atualmente em São Caetano?
  2. Quantos funcionários da cidade estão entre os mais de 3 mil desligamentos previstos nacionalmente?
  3. A Bartira ou outras operações instaladas no município serão atingidas?
  4. Qual poderá ser o impacto da reestruturação sobre a arrecadação municipal?
  5. A Prefeitura pretende negociar com a companhia medidas para preservar empregos ou apoiar a recolocação dos trabalhadores?

Sem essas informações, não é possível estabelecer com responsabilidade jornalística um valor para eventual perda econômica de São Caetano.

Mas a presença histórica e operacional do grupo na cidade transforma a reestruturação nacional em uma pauta diretamente regional.

Se uma parcela relevante dos cortes atingir São Caetano, os efeitos poderão alcançar emprego, renda das famílias, consumo, comércio, serviços e, dependendo das operações afetadas, a própria arrecadação municipal.

A Guardiã da Notícia aguarda os posicionamentos oficiais da Prefeitura de São Caetano do Sul e do Grupo Casas Bahia. As manifestações serão incorporadas à reportagem assim que forem recebidas.

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