Caso ocorrido em 2005 colocou a Delegacia Central de Suzano no centro de um dos episódios mais graves envolvendo corrupção policial e o PCC no Alto Tietê; registros jornalísticos da época apontam pagamento de R$ 300 mil pela libertação da vítima
Por Gabrielle Tricanico | SEGURANÇA PÚBLICA | SUZANO
Um dos capítulos mais sombrios da segurança pública no Alto Tietê teve como cenário a própria Delegacia Central de Suzano. O caso, ocorrido em 2005, terminou anos depois com a condenação dos então investigadores da Polícia Civil Augusto Peña e José Roberto de Araújo a 22 anos de prisão pelo sequestro de Rodrigo Olivatto de Morais, apontado nos registros do processo como enteado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC).
O episódio chama atenção principalmente pelo local onde a vítima foi mantida: uma unidade policial que deveria representar a presença e a proteção do Estado em Suzano.
Segundo informações divulgadas sobre a decisão judicial, Rodrigo foi levado para a Delegacia Central, onde teria sido ameaçado e agredido. A acusação sustentou que os policiais exigiram dinheiro para não prendê-lo sob uma falsa imputação de tráfico de drogas. O valor inicialmente exigido teria chegado a R$ 1 milhão, enquanto o resgate efetivamente pago foi apontado em R$ 300 mil. Após o pagamento, o jovem foi libertado.
Caso expôs infiltração do crime dentro da estrutura policial
A gravidade ultrapassou o sequestro. As investigações indicaram a existência de práticas de extorsão contra pessoas relacionadas ao crime organizado, utilizando justamente informações e estruturas às quais policiais tinham acesso em razão da função pública.
Reportagem baseada nas apurações do Ministério Público relata que aproximadamente 200 CDs contendo gravações, além de computadores e celulares de Augusto Peña, foram entregues ou apreendidos durante a investigação. Entre os registros estariam diálogos relacionados a extorsões e ligações realizadas pela própria vítima durante o sequestro.
A investigação acabou levando à expulsão de Peña e Araújo da Polícia Civil. Ambos receberam condenação de 22 anos por crimes relacionados ao episódio e a outro caso envolvendo fuga de preso.
Suzano também virou palco de confronto com o PCC
A história ganhou uma dimensão ainda maior no Alto Tietê porque as acusações contra os policiais se conectaram a uma sequência posterior de violência.
De acordo com registros publicados à época, os investigadores também foram acusados de receber R$ 40 mil para facilitar a fuga de um integrante da organização criminosa. O plano foi descoberto e o preso acabou transferido.
Na sequência, integrantes do PCC atacaram a Delegacia Central de Suzano. A polícia, previamente alertada, reagiu à ação. Depois, dois carcereiros e outra pessoa foram assassinados em uma feira livre da cidade, em um episódio descrito pelas investigações como represália.
O caso ocorreu justamente no período que antecedeu a escalada de confrontos entre o PCC e as forças de segurança pública de São Paulo, que alcançaria seu ponto mais crítico em maio de 2006.
Condenação e prisão anos depois
A Justiça de Suzano condenou Peña e Araújo a 22 anos de prisão. Outros dois acusados no processo foram absolvidos.
Augusto Peña, entretanto, permaneceu procurado depois da condenação. Ele somente seria localizado em abril de 2019, quando policiais militares o abordaram em Ibaté, no interior paulista, e identificaram o mandado de prisão existente contra ele.
Mais de duas décadas depois do crime, o episódio permanece como um registro especialmente grave da história policial de Suzano: um sequestro praticado por agentes públicos no qual a própria delegacia teria sido transformada em local de cativeiro e extorsão.
