Levantamento presidencial no Rio de Janeiro coloca Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula no primeiro e no segundo turno; Augusto Cury chega a 13%, enquanto recortes revelam diferenças importantes no comportamento do eleitor fluminense
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | RIO DE JANEIRO
A corrida presidencial de 2026 ganha contornos particularmente competitivos no Rio de Janeiro. Pesquisa Realtime Big Data divulgada nesta quarta-feira, 2 de setembro, mostra Flávio Bolsonaro (PL) com 36% das intenções de voto na pesquisa estimulada, contra 34% de Lula (PT). Augusto Cury (Avante) aparece em terceiro, com 13%, abrindo distância dos demais candidatos.
A diferença de dois pontos entre Flávio e Lula está dentro da margem de erro do levantamento, de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Portanto, o cenário é de empate técnico, e não de liderança estatisticamente consolidada.
A pesquisa ouviu 2 mil eleitores do Estado do Rio de Janeiro entre 28 de agosto e 1º de setembro. O levantamento tem nível de confiança de 95%.
Mas é quando os números são abertos por gênero, idade e renda que a fotografia eleitoral ganha maior profundidade — e revela onde cada candidatura encontra espaço para avançar e onde enfrenta suas principais dificuldades.
Flávio avança entre homens e eleitores de maior renda
O desempenho de Flávio Bolsonaro é especialmente forte entre os homens. Nesse segmento, ele chega a 43%, enquanto Lula registra 30%.
Entre as mulheres, o cenário muda. Lula alcança 38%, contra 30% de Flávio Bolsonaro.
Augusto Cury também apresenta uma diferença importante. O candidato registra 8% entre os homens, mas chega a 17% entre as mulheres, mais que dobrando sua participação nesse recorte.
Isso ajuda a explicar por que Cury se transforma em uma peça relevante da disputa fluminense. Seus 13% no resultado geral não aparecem distribuídos de maneira uniforme: existem grupos específicos nos quais sua candidatura ganha maior densidade eleitoral.
A renda produz uma divisão ainda mais evidente.
Entre os eleitores que recebem até dois salários mínimos, Lula alcança 41%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 29%. Cury aparece com 10%.
Na faixa intermediária, de dois a cinco salários mínimos, a situação se inverte: Flávio sobe para 39%, Lula cai para 32% e Cury chega a 13%.
Entre os eleitores com renda superior a cinco salários mínimos, a vantagem de Flávio aumenta: são 43% para o candidato do PL, contra 24% de Lula. Cury alcança 16%.
Os números mostram uma divisão social importante na disputa presidencial dentro do Rio. Lula apresenta sua maior força entre os eleitores de renda mais baixa, enquanto Flávio Bolsonaro cresce conforme aumenta a faixa salarial.
Lula reage entre os mais velhos; Flávio tem força entre jovens e meia-idade
A idade também redesenha completamente a disputa.
Entre os eleitores de 16 a 34 anos, Flávio Bolsonaro aparece com 38%, contra 30% de Lula. Nesse grupo, Renan Santos chega a 8% e Pablo Marçal a 7%, resultados superiores aos desempenhos dos dois candidatos no conjunto do eleitorado.
Na faixa dos 35 aos 59 anos, Flávio alcança 39%, Lula tem 34% e Augusto Cury sobe para 14%.
Entre aqueles com 60 anos ou mais, ocorre a inversão. Lula assume a dianteira com 39%, Flávio cai para 31% e Cury cresce novamente, chegando a 16%.
O resultado mostra comportamentos geracionais diferentes. Flávio encontra sua maior força nos grupos mais jovens e de meia-idade pesquisados, enquanto Lula recupera vantagem entre os idosos.
Cury apresenta outro movimento: cresce conforme aumenta a idade do eleitor, passando de 7% entre aqueles de 16 a 34 anos para 16% entre os maiores de 60.
Cury se consolida como terceira força
No cenário estimulado, depois de Flávio, Lula e Cury, aparece Renan Santos (Missão), com 5%.
Pablo Marçal (PRTB) registra 3%, Ronaldo Caiado (PSD), 2%, e Romeu Zema (Novo), 1%. Outros somam 1%, brancos e nulos representam 3% e 2% não souberam ou não responderam.
O resultado coloca Augusto Cury em uma posição eleitoral distinta dos demais candidatos que estão fora da polarização.
Seus 13% representam mais que o dobro dos 5% registrados por Renan Santos e mais de quatro vezes os 3% de Pablo Marçal.
Na pesquisa espontânea, entretanto, a força dos dois principais candidatos fica ainda mais evidente.
Sem a apresentação dos nomes aos entrevistados, Lula aparece com 29% e Flávio Bolsonaro com 25%. Cury é lembrado por 5%, Renan por 2%, enquanto Caiado e Marçal aparecem com 1% cada.
Outros têm 2%, brancos e nulos somam 8% e expressivos 27% ainda não sabem ou não responderam.
Esse último número merece atenção. A elevada parcela de indecisos na pergunta espontânea indica que uma fatia importante do eleitorado fluminense ainda não possui uma escolha presidencial suficientemente consolidada para citar espontaneamente um candidato.
Segundo turno: Flávio chega a 45% contra 41% de Lula
Em uma eventual disputa direta pela Presidência, Flávio Bolsonaro aparece com 45% contra 41% de Lula.
Brancos e nulos somam 7%, enquanto outros 7% não sabem ou não responderam.
A diferença é de quatro pontos percentuais. Considerando a margem de erro informada pelo levantamento, o resultado exige cautela na interpretação, mas confirma um ambiente altamente competitivo no Estado.
O Rio surge, portanto, como um território estratégico para a candidatura de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, como um estado no qual Lula enfrenta resistência significativa.
Rejeição acende sinal de alerta para os dois líderes
A polarização também cobra um preço.
Lula registra a maior rejeição múltipla da pesquisa: 50% dos entrevistados afirmam que não votariam nele.
Flávio Bolsonaro aparece praticamente no mesmo patamar, com 49%.
Depois aparecem Pablo Marçal, com 35%; Ronaldo Caiado, 32%; Romeu Zema e Renan Santos, ambos com 30%.
Augusto Cury registra 26% de rejeição, percentual consideravelmente inferior ao dos dois candidatos que lideram a disputa.
O contraste é politicamente relevante.
Flávio e Lula concentram as maiores intenções de voto, mas também carregam os maiores índices de resistência. Cury, por outro lado, combina uma votação de 13% com rejeição significativamente inferior à dos dois líderes.
Isso não significa que votos de outros candidatos possam ser automaticamente transferidos para Cury. Mostra, porém, que o escritor ocupa um espaço particular na disputa e pode ter margem para buscar eleitores que rejeitam os dois polos principais.
Desaprovação de Lula ajuda a explicar cenário no Rio
Outro indicador importante para compreender a disputa regional está na avaliação do governo federal.
No Rio de Janeiro, 55% desaprovam o trabalho do presidente Lula, enquanto 42% aprovam. Outros 3% não sabem ou não responderam.
Quando os entrevistados são questionados sobre a avaliação do governo, 43% classificam o trabalho como ruim ou péssimo, 29% como ótimo ou bom e 24% como regular.
O ambiente ajuda a contextualizar a dificuldade eleitoral do presidente no estado.
Mesmo assim, Lula preserva uma base expressiva e claramente identificável: lidera entre os eleitores de menor renda, entre as mulheres e entre aqueles com 60 anos ou mais.
Flávio Bolsonaro apresenta praticamente o desenho inverso, com vantagem entre homens, jovens e eleitores das faixas superiores de renda.
Análise Guardiã: existem vários “Rios” dentro da mesma eleição
A principal conclusão da pesquisa não está apenas nos 36% de Flávio contra 34% de Lula.
O dado mais profundo está na composição desses votos.
Existe praticamente uma eleição diferente dentro de cada segmento da sociedade fluminense.
Entre os homens, Flávio abre 13 pontos sobre Lula. Entre as mulheres, Lula passa à frente por oito pontos. Entre os mais pobres, Lula alcança 41% contra 29% de Flávio. Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, a relação praticamente se inverte: Flávio chega a 43% e Lula recua para 24%.
A idade provoca outra transformação. Flávio lidera entre jovens e eleitores de meia-idade, enquanto Lula assume a primeira posição entre aqueles com 60 anos ou mais.
Fora da polarização, Augusto Cury é quem consegue construir a posição mais relevante neste levantamento.
Cury chega a 13% no geral, mas alcança 17% entre as mulheres, 16% entre os maiores de 60 anos e 16% entre os eleitores que recebem mais de cinco salários mínimos.
Renan Santos, embora marque 5% no resultado geral, melhora entre os jovens. Pablo Marçal também encontra nesse segmento seu melhor desempenho, mas permanece distante dos três primeiros colocados quando considerado todo o eleitorado.
É importante destacar que este levantamento apresenta uma fotografia atual. Sem uma série histórica comparável apresentada no mesmo documento, não é possível afirmar apenas a partir desses dados quantos pontos cada candidato ganhou ou perdeu em relação a uma rodada anterior.
O que os números permitem identificar com clareza é quem cresce ou perde força quando o eleitorado é dividido por renda, gênero e idade.
Nesse cruzamento está uma das principais chaves da eleição no Rio: Lula ganha força entre mulheres, idosos e eleitores de menor renda; Flávio Bolsonaro cresce entre homens, jovens, eleitores de meia-idade e faixas superiores de renda; Augusto Cury ocupa isoladamente o terceiro lugar e encontra seus melhores resultados entre mulheres, idosos e eleitores de renda mais alta.
A disputa fluminense entra, assim, em uma fase decisiva com polarização intensa, rejeição elevada dos dois líderes e uma terceira força tentando transformar desempenho segmentado em crescimento eleitoral.
