Parlamentar baiano aparece em diálogos extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master; Ciro Soares teria atuado como intermediário de recados. Otto não é apontado como investigado e nega encontros presenciais com o banqueiro
Por Gabrielle Tricanico | POLÍTICA E JUSTIÇA | BAHIA
O caso Banco Master ganhou repercussão direta no cenário político da Bahia após a divulgação de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro. Nos registros, o ex-controlador da instituição financeira se refere ao senador Otto Alencar (PSD-BA) como “conselheiro” e “comandante”.
A revelação chama atenção na Bahia pela posição ocupada por Otto no cenário político estadual e nacional. Senador pelo estado, o parlamentar tem uma trajetória de décadas na política baiana, já ocupou os cargos de vice-governador e governador e se consolidou como uma das principais lideranças do PSD no estado.
Mensagens citam senador baiano
De acordo com o conteúdo atribuído ao relatório da Polícia Federal, o advogado Ciro Soares aparece como interlocutor entre Vorcaro e Otto. Nas conversas, Ciro transmitia mensagens atribuídas ao senador, enviava fotografias ao lado dele e buscava estabelecer contatos entre o parlamentar e o banqueiro.
Em uma conversa de maio de 2024, Ciro informou a Vorcaro que Otto queria falar com ele. Após uma tentativa de ligação, o banqueiro respondeu tratando o senador como “conselheiro” e “comandante”.
As mensagens chamam atenção também pelo período em que ocorreram. Otto Alencar exercia mandato no Senado e participava de importantes discussões legislativas relacionadas à economia e ao funcionamento das instituições brasileiras.
Salvador aparece nas conversas
A Bahia também surge diretamente nos registros. Em mensagens posteriores, Ciro teria mencionado a possibilidade de uma conversa entre Otto e Vorcaro em Salvador ou em Brasília.
Outros diálogos registrados entre 2024 e 2025 mostram novas referências ao senador. Em dezembro de 2024, por exemplo, Ciro afirmou que Otto teria realizado um “movimento grande” relacionado a Vorcaro e estaria aguardando contato. O banqueiro respondeu que atravessava um momento complicado.
Já em outra conversa, Ciro afirmou estar com Otto e disse que o senador perguntava por Vorcaro. Na resposta, o empresário mencionou que estava construindo uma “virada de mesa” e que precisaria de apoio.
O conteúdo conhecido até agora, entretanto, não esclarece qual seria esse apoio nem demonstra que Otto tenha concordado em prestá-lo.
Otto não é apontado como investigado
A presença do nome do senador nas conversas exige uma distinção importante: referências feitas por terceiros em mensagens privadas não significam, por si só, participação em irregularidades.
Até o momento, Otto Alencar não é apontado como investigado no caso. O senador nega ter realizado encontros presenciais com Daniel Vorcaro.
Otto declarou ter conversado por telefone com o banqueiro em poucas ocasiões, por intermédio do celular de Ciro Soares. Segundo sua versão, Vorcaro buscava apoio relacionado a uma proposta envolvendo a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. O senador afirma que não apoiou a iniciativa.
Ciro Soares também nega ter organizado encontros presenciais entre Otto e Vorcaro.
Caso ganha dimensão política na Bahia
A repercussão regional ocorre justamente porque Otto Alencar ocupa uma posição de destaque na política baiana. Além de representar a Bahia no Senado, sua trajetória inclui passagens pelo governo estadual e forte participação na articulação política do PSD.
As mensagens acrescentam, portanto, um novo elemento à investigação sobre as relações mantidas por Daniel Vorcaro enquanto comandava o Banco Master. Para a Bahia, a questão central passa a ser compreender qual foi a extensão efetiva dessa interlocução e separar os recados atribuídos ao senador das ações que possam ser documentalmente comprovadas.
Até aqui, o material divulgado demonstra referências, tentativas de aproximação e contatos atribuídos aos envolvidos, mas não comprova, isoladamente, a prática de irregularidade por Otto Alencar.
