Economista, artista urbano e personagem conhecido da Grande São Paulo, Carlos Alberto Adão morreu após sofrer um infarto. Durante décadas, sua assinatura em verde e preto atravessou muros, estradas e cidades e se tornou parte do imaginário popular paulista.
Por Gabrielle Tricanico | GRANDE SÃO PAULO | TABOÃO DA SERRA
Taboão da Serra perdeu neste sábado (8) uma de suas figuras mais conhecidas e irreverentes. Carlos Alberto Adão morreu aos 71 anos, após sofrer um infarto. Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Saúde do município e repercutidas pela imprensa, ele chegou a receber atendimento em uma unidade de pronto atendimento, mas não resistiu.
A morte encerra uma trajetória que ultrapassou os limites de Taboão da Serra. Durante décadas, quem circulou por São Paulo e por diferentes cidades brasileiras provavelmente se deparou com duas palavras pintadas em muros, paredes, estruturas próximas a rodovias e outros pontos urbanos: “Carlos Adão”.
Mais do que uma assinatura, o próprio nome virou a marca do artista. A combinação de letras verdes sobre fundo preto tornou-se facilmente reconhecível e ajudou a transformar Adão em uma espécie de personagem da paisagem urbana da Região Metropolitana de São Paulo. Registros de suas intervenções chegaram também a outras regiões do país.
Do economista à lenda dos muros
Nascido em São Paulo em 1954 e criado no Butantã, Carlos Adão tinha formação superior em Economia e construiu uma trajetória profissional que passou pelo setor bancário, pelo mercado imobiliário e pelo empreendedorismo. Mas foi nas ruas que seu nome ganhou dimensão popular.
As intervenções urbanas acabaram despertando curiosidade justamente pela repetição. O nome aparecia tantas vezes e em tantos lugares que, para gerações de moradores da Grande São Paulo, “quem é Carlos Adão?” virou quase uma pergunta coletiva.
O fenômeno ganhou tamanha dimensão que sua história virou tema do documentário “Os 3 Atos de Carlos Adão”, dirigido por Diego Navarro e Francisco Franco. A produção buscou compreender o personagem por trás das milhares de intervenções e sua relação com arte, política, fama e anonimato.
Adão, porém, rejeitava definições simplificadoras sobre sua atuação. Ele não gostava de ser reduzido aos rótulos de pichador ou grafiteiro e defendia o próprio nome como uma marca e uma manifestação artística.
Carlos Adão também passou pela política
A trajetória do economista ainda cruzou o universo eleitoral. Ele disputou eleições para cargos legislativos, sem conseguir se eleger. Em 2022, por exemplo, concorreu a deputado federal por São Paulo pelo Avante. Dados eleitorais daquele pleito registravam sua profissão como economista e o nome de urna “Carlos Adão”.
A mistura de arte urbana, autopromoção, política e comunicação tornou difícil enquadrá-lo em uma única definição. Para alguns, artista; para outros, personagem folclórico das ruas. O fato é que poucas pessoas conseguiram transformar o próprio nome em uma imagem tão reconhecível na paisagem metropolitana.
Taboão da Serra perde um de seus personagens mais conhecidos
A ligação com Taboão da Serra permaneceu como uma das principais referências de Carlos Adão. Sua morte repercutiu na cidade, onde era uma personalidade conhecida, e também entre moradores de diferentes regiões que cresceram observando sua assinatura espalhada pelos muros.
Carlos Adão deixa, assim, uma marca incomum na memória urbana paulista. Os muros poderão ser pintados novamente, as cidades continuarão mudando, mas o nome que ele repetiu milhares de vezes durante décadas já entrou para a história popular das ruas de São Paulo.
