Dados divulgados pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, com base no Relatório Global de 2024 da ONU, mostram que mulheres e meninas representaram 61% das vítimas de tráfico detectadas no mundo em 2022; entre as meninas identificadas, 60% foram traficadas para exploração sexual.
Por Gabrielle Tricanico | DIREITOS HUMANOS | SÃO PAULO
O Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, lembrado em 23 de setembro, coloca em evidência uma modalidade de crime que pode começar muito antes do deslocamento de uma vítima: no aliciamento, em falsas propostas de emprego, promessas de melhores condições de vida, relacionamentos abusivos ou situações em que criminosos se aproveitam da vulnerabilidade econômica e social.
Em publicação alusiva à data, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) destacou que exploração sexual e tráfico de pessoas são violações de direitos fundamentais e defendeu três frentes essenciais de enfrentamento: informar, acolher e denunciar.
Os números usados pelo órgão paulista dimensionam a gravidade do problema. De acordo com o Relatório Global de 2024 sobre Tráfico de Pessoas, produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mulheres e meninas correspondiam a 61% das vítimas de tráfico detectadas mundialmente em 2022. Entre as meninas vítimas identificadas, 60% eram traficadas para exploração sexual.
O cenário se tornou ainda mais preocupante quando comparado ao período anterior à pandemia. O relatório apontou que o número de vítimas detectadas globalmente em 2022 ficou 25% acima do registrado em 2019. Entre crianças, o crescimento das vítimas detectadas chegou a 31%, enquanto entre meninas o avanço foi de 38%.
O crime não se resume à exploração sexual
O tráfico de pessoas é mais amplo do que muitas vezes aparece no debate público. No Brasil, o crime pode envolver aliciamento, recrutamento, transporte, transferência, compra, alojamento ou acolhimento de uma pessoa, mediante violência, grave ameaça, coação, fraude ou abuso, para diferentes formas de exploração.
Isso inclui exploração sexual, trabalho em condições análogas à escravidão, servidão, remoção de órgãos e adoção ilegal. A definição internacional adotada a partir do Protocolo de Palermo também considera mecanismos como fraude, engano, coação e abuso de uma situação de vulnerabilidade.
Um dos pontos importantes para a prevenção é compreender que a vítima não precisa necessariamente ser sequestrada. Uma oportunidade profissional aparentemente vantajosa, uma viagem custeada por terceiros ou uma promessa de mudança de vida podem funcionar como mecanismos de aliciamento.
O desafio para São Paulo
Para um estado com a dimensão econômica e populacional de São Paulo, a discussão também passa pela capacidade de reconhecer situações suspeitas antes que a exploração se consolide.
Grandes centros urbanos, deslocamentos nacionais e internacionais e relações de trabalho informais tornam fundamental a integração entre segurança pública, Ministério Público, assistência social, saúde, educação e organizações responsáveis pelo acolhimento das vítimas.
O enfrentamento não termina com a identificação do crime. A proteção envolve impedir a revitimização, garantir atendimento e criar condições para que a pessoa explorada consiga reconstruir sua vida.
É nesse contexto que o MPSP afirma trabalhar na proteção de mulheres e crianças com uma atuação orientada pela centralidade da vítima.
Análise | Gabrielle Tricanico
Os números revelam algo que precisa ser observado para além de uma campanha realizada uma vez por ano. Quando seis em cada dez vítimas detectadas mundialmente são mulheres ou meninas, o tráfico de pessoas também precisa ser analisado a partir das vulnerabilidades que atingem esse público.
Outro dado merece atenção especial: entre as meninas vítimas identificadas, 60% foram traficadas para exploração sexual. Isso significa que a prevenção precisa chegar antes do crime — às famílias, escolas, comunidades e ambientes digitais onde podem ocorrer aproximações e processos de aliciamento.
Também existe um desafio jornalístico. Tráfico de pessoas não pode ser tratado apenas quando uma grande operação policial revela uma organização criminosa. É necessário acompanhar as portas de entrada desse sistema: propostas falsas, recrutamento pela internet, exploração econômica, violência contra mulheres e crianças e situações de vulnerabilidade que podem ser utilizadas pelos criminosos.
Em São Paulo, onde pessoas circulam diariamente entre municípios, regiões metropolitanas e outros estados e países, o caráter regional dessa cobertura se torna ainda mais relevante. Combater o tráfico também significa fazer a informação chegar às cidades e às comunidades onde potenciais vítimas vivem.
O dado estatístico mostra a dimensão do problema. O jornalismo regional pode ajudar a transformá-lo em prevenção, mostrando como reconhecer o aliciamento, onde procurar ajuda e de que maneira denunciar.
Como denunciar
Suspeitas de tráfico de pessoas, exploração sexual e outras violações de direitos humanos podem ser comunicadas pelo Disque 100. Em situações de emergência ou crime em andamento, a orientação é procurar imediatamente as forças de segurança.
A prevenção também passa pela atenção a ofertas de emprego ou viagens com promessas excessivamente vantajosas, falta de informações claras sobre contratantes, destino ou condições de trabalho, além de situações em que terceiros tentam reter documentos ou controlar a liberdade de circulação da vítima.
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