Transmissão reuniu representantes de diferentes segmentos religiosos em meio à repercussão de informação falsa que associou Flávio Bolsonaro a uma suposta tentativa de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O candidato não participou da live.
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | BRASIL
A campanha do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) reuniu, neste sábado (26), representantes de diferentes segmentos religiosos em uma transmissão realizada em meio à repercussão da controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
Entre os participantes estavam dois personagens de forte projeção pública: Padre Kelmon e Sérgio Pina, pai de santo conhecido por sua relação religiosa com a cantora Anitta.
Flávio Bolsonaro não participou da transmissão. Além de Kelmon e Pina, a live contou com o pastor Ramon Lima e o reverendo anglicano Aldo Quintão, reunindo representantes de diferentes tradições religiosas em um momento no qual religião e desinformação passaram a ocupar espaço no debate da reta final da campanha presidencial.
De Padre Kelmon ao pai de santo de Anitta
Padre Kelmon ganhou projeção nacional nas Eleições de 2022, quando disputou a Presidência da República e participou dos principais debates entre os candidatos ao Palácio do Planalto.
Sérgio Pina, por sua vez, é um religioso de matriz africana conhecido publicamente por sua relação religiosa com Anitta.
A presença dos dois na mesma transmissão, acompanhados por representantes de outros segmentos religiosos, ganhou destaque justamente pelo contraste entre suas tradições religiosas e pelo momento político em que a live foi realizada.
A transmissão ocorreu após a disseminação de informações que associavam Flávio Bolsonaro a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
O que provocou a polêmica
Nos últimos dias, ganhou força nas redes sociais a informação de que Flávio Bolsonaro estaria relacionado a uma iniciativa legislativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A associação de Flávio ao projeto citado na controvérsia não corresponde ao histórico legislativo da proposta.
O texto que passou a ser mencionado no debate é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli. A proposta foi apresentada quase duas décadas antes da eleição presidencial de 2026 e acabou arquivada em 2008.
Flávio Bolsonaro não foi o autor do projeto.
A controvérsia ganhou repercussão adicional depois que a GloboNews associou o candidato ao tema durante o programa Em Pauta. Posteriormente, o canal corrigiu a informação e esclareceu que a proposta era de 2007, havia sido apresentada por outro parlamentar e estava arquivada desde 2008.
Flávio também negou publicamente que pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
TSE determina retirada de publicações
A repercussão ultrapassou as redes sociais e chegou ao Tribunal Superior Eleitoral.
O ministro André Mendonça determinou que plataformas digitais retirassem publicações que apresentassem como verdadeira a afirmação de que Flávio Bolsonaro ou integrantes de sua família pretendem retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Na decisão, Mendonça classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que Flávio ou seus familiares teriam proposto, articulado, apoiado ou pretendido promover a retirada do título.
A determinação alcançou 1.170 links indicados no processo e estabeleceu multa diária de R$ 50 mil por plataforma em caso de descumprimento.
A decisão ressalvou conteúdos jornalísticos sobre o episódio, publicações destinadas à checagem ou ao desmentido da informação, além de críticas, sátiras, opiniões políticas e discussões gerais sobre política e religião que não apresentem a alegação falsa como fato.
Polêmica alcança milhões de interações
A dimensão da repercussão digital ajuda a explicar por que o episódio passou a ocupar espaço relevante na reta final da campanha presidencial.
Levantamento divulgado neste domingo (27) aponta que o conteúdo envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida gerou aproximadamente 977,6 mil publicações e 8,5 milhões de interações nas redes sociais desde a noite de quinta-feira (24).
Outro monitoramento, realizado pela Palver e divulgado pela imprensa, identificou que 37% das mensagens analisadas sobre o assunto tratavam a informação falsa como verdadeira, acompanhadas principalmente de manifestações de indignação entre católicos.
O levantamento analisou conteúdos em diferentes plataformas e aplicativos de mensagens.
Os números demonstram o alcance digital da controvérsia, mas não permitem estabelecer, isoladamente, eventual impacto sobre a intenção de voto.
O que diz a lei sobre Nossa Senhora Aparecida
Nossa Senhora Aparecida possui reconhecimento legal como Padroeira do Brasil.
A Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, declara o dia 12 de outubro feriado nacional e determina que a data seja dedicada ao culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, denominada no próprio texto da legislação como Padroeira do Brasil.
A legislação permanece em vigor.
Religião entra na reta final das Eleições 2026
A live da campanha ocorreu, portanto, em um ambiente no qual uma informação falsa saiu das redes sociais, ganhou repercussão nacional, provocou correção pública de um veículo de comunicação, reação do candidato e decisão da Justiça Eleitoral.
Ao reunir Padre Kelmon, Sérgio Pina, pastor Ramon Lima e reverendo Aldo Quintão, a transmissão colocou representantes de diferentes tradições religiosas no mesmo espaço após uma controvérsia diretamente relacionada a um dos principais símbolos do catolicismo brasileiro.
A poucos dias do primeiro turno das Eleições 2026, o episódio também evidencia o peso das redes sociais na construção da agenda eleitoral e a velocidade com que informações falsas podem alcançar dimensão nacional.

