Mercado imobiliário da metrópole italiana revela distância entre imóveis de luxo e o orçamento de estudantes, trabalhadores e famílias; mesmo com queda recente, aluguel de quarto continua sendo o mais caro do país.
Por Gabrielle Tricanico | INTERNACIONAL | MILÃO
Uma cobertura anunciada por 13 milhões de euros, enquanto alugar um único quarto custa, em média, 704 euros por mês. Os dois valores revelam dimensões distintas do mercado imobiliário de Milão e colocam em discussão uma questão central para a metrópole italiana: quem consegue pagar para morar na cidade?
No Quadrilátero da Moda, região conhecida pelo comércio de luxo, um imóvel de 289 metros quadrados está anunciado por € 13 milhões. A cobertura tem terraço com vista para o Duomo e preço pedido equivalente a aproximadamente € 44.983 por metro quadrado. Trata-se de uma oferta no segmento de alto padrão: o valor anunciado não representa a média de Milão nem comprova que uma venda tenha sido concluída por essa quantia.
Na outra ponta, estudantes e profissionais que procuram acomodação compartilhada enfrentam um custo elevado para ocupar apenas um quarto. Segundo relatório de Immobiliare.it Insights divulgado em agosto de 2026, Milão permanece como a cidade mais cara da Itália para alugar uma acomodação individual, com média de € 704 mensais. O levantamento também registra uma queda de aproximadamente 3,8% em relação ao ano anterior — um alívio que ainda mantém a cidade no topo do ranking.
O custo de um quarto e o impacto no orçamento
Considerando a média de € 704, são € 8.448 por ano somente com o aluguel, antes de eventuais despesas adicionais previstas no contrato, alimentação e transporte.
Em uma simulação, uma pessoa com renda líquida de € 1.500 mensais destinaria aproximadamente 47% do orçamento a esse quarto. Com rendimento de € 2.000, o comprometimento seria de cerca de 35%. Os exemplos não representam o salário médio da cidade, mas ajudam a dimensionar o peso da moradia sobre diferentes rendas.
Além disso, compartilhar um apartamento não significa necessariamente ter todas as despesas incluídas. Há anúncios em Milão que pedem € 700 por um quarto e acrescentam € 100 de condomínio, mostrando como o custo efetivo pode superar o valor destacado na oferta.
A desigualdade também aparece entre os bairros
A distância entre regiões da cidade amplia o debate. Uma reportagem do Quotidiano Nazionale publicada em 2026, com referência ao professor Ezio Micelli, apresenta valores de imóveis que vão de € 3.197 a € 11.226 por metro quadrado em Milão. Esses números retratam diferenças territoriais e não devem ser confundidos com o preço excepcional de uma cobertura de luxo.
Aplicada apenas como exercício de comparação, essa faixa colocaria um imóvel de 60 metros quadrados entre aproximadamente € 192 mil e € 674 mil, sem impostos, custos de financiamento, taxas ou reformas. A diferença mostra como a localização altera profundamente a possibilidade de compra.
Morar mais longe pode reduzir o aluguel, mas acrescenta outros custos
A busca por alternativas nos municípios próximos também tem limites. Um estudo de Immobiliare.it Insights divulgado em maio de 2024 identificou que, dentro dos critérios adotados pela pesquisa, somente dez municípios do entorno permitiam a uma pessoa sozinha alugar um apartamento de dois cômodos com um orçamento mensal de € 652. O levantamento considerou localidades a até uma hora de Milão por transporte público. Por ser de 2024, o resultado serve como contexto histórico, e não como retrato dos preços atuais.
Do ponto de vista urbano, mudar para mais longe pode reduzir a despesa habitacional, mas acrescentar gastos e tempo de deslocamento. A economia precisa ser avaliada junto com a conexão de transporte, os horários de trabalho e o acesso a serviços.
O contraste entre a cobertura milionária e o quarto compartilhado ajuda a explicar o desafio de Milão. O mercado de luxo atende a uma parcela específica dos compradores; já a discussão sobre moradia acessível envolve a capacidade de estudantes, trabalhadores e famílias permanecerem perto de suas atividades. Para avaliar essa pressão com rigor, é necessário observar conjuntamente preços, renda, oferta habitacional e transporte, sem transformar um anúncio excepcional em retrato de toda a cidade.

