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Lula resgata origem no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, cobra independência sindical e pede que nova direção pressione os governos

Durante a posse de Wellington na presidência da entidade, presidente afirmou que sindicato deve manter autonomia para cobrar governos, mesmo quando aliados estiverem no poder. Em discurso de forte conteúdo político, Lula disse que não deixava de participar da posse de uma direção sindical desde 1969.

Por Gabrielle Tricanico e Leandro Amaral | Grande ABC Paulista

Em um discurso marcado por referências à própria trajetória política e pela defesa da autonomia do movimento sindical, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a posse de Wellington na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para reafirmar o papel histórico da entidade na representação dos trabalhadores e enviar um recado à nova direção: a lealdade do sindicato deve estar com a categoria, e não com o governo.

Antes de abordar a atuação da nova diretoria, Lula revelou que reorganizou sua agenda internacional para comparecer ao evento. Segundo ele, havia retornado a Brasília para preparar a recepção oficial ao presidente da Coreia do Sul e ainda participaria, na mesma noite, de uma conversa com o presidente da China, Xi Jinping. Mesmo diante dos compromissos diplomáticos, decidiu voltar ao ABC Paulista.

“Se eu não viesse nessa posse, seria a primeira vez, desde 1969, que eu deixaria de participar da posse de uma direção do sindicato”, afirmou.

Ao dirigir-se diretamente a Wellington, Lula fez questão de separar a relação pessoal da responsabilidade institucional que passa a ser exercida pelo novo presidente da entidade.

“Embora eu seja seu amigo, enquanto presidente do Sindicato dos Metalúrgicos você não tem que me tratar como amigo quando eu estiver fazendo a coisa errada.”

Na sequência, o presidente reforçou que a função do sindicato não é defender governos, mas representar os interesses dos trabalhadores.

“O correto é você cobrar todo dia. Porque, se a gente não for cobrado, a gente pensa que está fazendo as coisas certas, e muitas vezes não está.”

Lula ainda afirmou que críticas ao governo fazem parte da essência da atividade sindical e que Wellington deve construir a pauta da entidade ouvindo a categoria e levando suas reivindicações aos governos municipal, estadual e federal.

“Mesmo quando você estiver bravo comigo, mesmo quando você estiver xingando o governo, eu compreendo o papel. A categoria é a ela que você tem que ser leal.”

A cerimônia reuniu o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho; o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos; o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e candidato a deputado federal, Moisés Selerges; a candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB); o candidato ao Governo do Estado de São Paulo, Fernando Haddad (PT); além de lideranças sindicais e representantes do campo progressista.

Análise da jornalista Gabrielle Tricanico

O discurso de Lula teve um significado que vai além da relação entre o presidente da República e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Ao afirmar publicamente que Wellington deve cobrar o governo sempre que os interesses da categoria assim exigirem, Lula procurou reafirmar um princípio que ajudou a consolidar o novo sindicalismo brasileiro: a independência das entidades em relação ao poder político.

A mensagem também possui leitura eleitoral. Em um ato que reuniu ministros, parlamentares e candidatos do campo progressista, o presidente buscou demonstrar que a proximidade entre governo e movimento sindical não elimina o papel fiscalizador das entidades representativas. Trata-se de um discurso que preserva a identidade histórica do sindicato ao mesmo tempo em que fortalece a narrativa do governo de valorização da negociação coletiva e da participação social.

Outro aspecto relevante foi a referência de Lula à própria história. Ao lembrar que acompanha as posses da direção do sindicato desde 1969, o presidente reforçou sua ligação com a entidade onde iniciou sua trajetória como liderança sindical e que continua sendo um dos principais símbolos políticos do ABC Paulista. Em ano eleitoral, essa memória ganha novo significado ao reposicionar o sindicato como espaço de mobilização do campo progressista e de formulação de pautas ligadas ao emprego, à reindustrialização e aos direitos trabalhistas.

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