Deputados estaduais eleitos representam campos ideológicos distintos e mostram duas faces da renovação geracional em São Paulo; Campopiano conquistou quase 2 milhões de votos pelo PL, enquanto Grandini foi eleito pelo PT com 122 mil
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO PAULO
A nova composição da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo terá um contraste que ajuda a explicar o momento político vivido pelo maior colégio eleitoral do país. De um lado, Eduarda Campopiano (PL), 23 anos, representante de uma direita conservadora que cresceu fortemente pelas redes sociais. Do outro, Leonardo Grandini (PT), 24 anos, advogado e integrante da nova geração da esquerda paulista.
Eles serão os dois caçulas da Alesp a partir de 2027, mas chegam ao Parlamento por caminhos, partidos e dimensões eleitorais muito diferentes.
Eduarda chega como fenômeno eleitoral
A diferença mais impressionante está nas urnas. Eduarda Campopiano recebeu 1.956.238 votos, equivalentes a 8,39% dos votos válidos para deputado estadual, e terminou a eleição como a candidata mais votada para a Alesp em todo o estado de São Paulo.
Grandini recebeu 122.158 votos e terminou na 34ª posição entre os 94 deputados estaduais eleitos. A votação de Eduarda, portanto, foi aproximadamente 16 vezes maior que a do petista.
A comparação, porém, vai além dos números individuais.
Eduarda chega impulsionada pela enorme expansão eleitoral do PL, que elegeu 27 deputados estaduais e formará a maior bancada da próxima legislatura. Grandini integra o PT, que conquistou 16 cadeiras e terá a segunda maior bancada da Casa.
Dois jovens, duas São Paulo
Politicamente, os dois representam quase extremos do novo tabuleiro paulista.
Eduarda construiu projeção com forte presença digital, discurso conservador e posições críticas ao feminismo e às pautas progressistas. Vereadora antes da eleição para a Alesp, fez das redes sociais uma das principais ferramentas de comunicação e chega ao Legislativo estadual com uma votação que a coloca imediatamente entre os novos nomes de maior peso eleitoral da política paulista.
Grandini chega pelo caminho oposto. Filiado ao PT, tem 24 anos, é advogado, nasceu na capital paulista e foi eleito pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV.
Essa diferença transforma a presença dos dois caçulas em algo politicamente maior do que uma simples curiosidade sobre idade.
A renovação da Alesp não tem uma única cor ideológica.
A mesma geração que consome política pelo celular, transforma vídeos em instrumentos de campanha e acompanha debates pelas redes sociais está produzindo representantes tanto na direita quanto na esquerda.
Campopiano chega com peso eleitoral muito maior
É necessário, entretanto, separar renovação etária de força eleitoral.
Os dois serão os mais jovens, mas não chegam politicamente do mesmo tamanho.
Campopiano entra na Alesp carregando uma votação de quase dois milhões de eleitores e com o simbolismo de ter liderado todo o ranking estadual. Sua votação foi aproximadamente 16 vezes superior à de Grandini, considerando os votos nominais recebidos pelos dois.
Ela também chega amparada pela maior bancada da Assembleia: o PL conquistou 27 das 94 cadeiras.
Grandini entra em um campo igualmente relevante para o funcionamento político da Casa, mas por outra razão. O PT terá 16 deputados e continuará como uma das principais forças partidárias da Assembleia.
A diferença entre os dois resultados revela ainda uma característica importante da eleição paulista de 2026: juventude não significa necessariamente voto de nicho.
Campopiano conseguiu transformar uma candidatura jovem em votação de massa. Grandini, por sua vez, conquistou uma cadeira com votação significativamente menor, mas suficiente dentro da composição eleitoral de sua federação.
São duas portas diferentes de entrada para o mesmo Parlamento.
Polarização também passa por uma mudança de geração
A chegada dos dois ocorre justamente em uma Assembleia que continuará sendo palco direto das grandes disputas políticas de São Paulo.
De um lado estará uma base de direita e centro-direita fortalecida pela eleição. Do outro, uma oposição com presença importante de PT, PSOL e outras legendas do campo progressista.
Nesse cenário, Campopiano e Grandini poderão simbolizar uma mudança que vai além da idade: a polarização política paulista começa a ganhar novos personagens.
Não são mais apenas os políticos tradicionais que ocupam os extremos do debate. Uma geração com pouco mais de 20 anos chega ao Legislativo já inserida em disputas nacionais, redes sociais e embates ideológicos.
ANÁLISE | Gabrielle Tricanico
Para mim, o dado mais interessante desta eleição não é apenas termos uma deputada de 23 anos e um deputado de 24 chegando à maior Assembleia Legislativa do país. É perceber que a polarização também mudou de geração.
Durante muito tempo, quando se falava em renovação política, havia uma tentativa de associá-la automaticamente a uma determinada posição ideológica. A eleição paulista de 2026 desmonta essa leitura.
Eduarda Campopiano e Leonardo Grandini são jovens, mas representam projetos políticos profundamente diferentes.
E há uma diferença fundamental: Eduarda não foi simplesmente eleita. Ela foi transformada pelas urnas em um fenômeno eleitoral.
Quase 2 milhões de votos dão a uma parlamentar de apenas 23 anos uma dimensão política que ultrapassa seu primeiro mandato estadual. É uma votação que naturalmente aumenta a expectativa sobre seus próximos movimentos e sobre o espaço que poderá ocupar dentro do PL e da própria Assembleia.
Grandini, com pouco mais de 122 mil votos, também consegue uma vitória relevante. Aos 24 anos, entra no Parlamento paulista e passa a integrar uma das principais bancadas da Casa. Mas começa sua trajetória em outro patamar eleitoral.
É justamente aí que está uma das principais leituras desta eleição.
Ser caçula não significa ter o mesmo tamanho político.
Campopiano chega respaldada por uma votação de massa. Grandini chega como parte da renovação do campo progressista. Um representa a ascensão de uma direita jovem, digital e com enorme capacidade de mobilização eleitoral; o outro representa a tentativa da esquerda de renovar seus próprios quadros e dialogar com uma geração que também quer ocupar institucionalmente a política.
A Alesp que começa em 2027 terá, portanto, uma fotografia interessante do futuro: os dois deputados mais jovens estão em campos opostos.
Mais do que uma curiosidade eleitoral, Eduarda Campopiano e Leonardo Grandini mostram que a disputa entre direita e esquerda em São Paulo já está formando a próxima geração de protagonistas.
