A crise na campanha de Lula expõe três falhas de comunicação: escuta limitada, mensagens distantes do cotidiano e confiança excessiva na aprovação dos próprios apoiadores.
Por Fabi Teixeira
Lula cobra mudanças na comunicação de sua campanha. Segundo a Reuters, o presidente demonstrou insatisfação com os resultados, enquanto aliados apontaram problemas na linguagem, na escolha dos assuntos e na presença digital. A pressão se concentra em Sidônio Palmeira. Mas o diagnóstico precisa alcançar também quem definiu prioridades, aprovou abordagens e decidiu quais críticas mereciam atenção.
Comunicação estratégica serve para identificar distância, interpretar resistências e levar à liderança aquilo que ela precisa ouvir. Quando essa função perde espaço, a campanha pode continuar produzindo conteúdo enquanto deixa de compreender o público.
É nessa perspectiva que vejo três falhas na comunicação petista.
A primeira está na escuta. Antes do primeiro turno, integrantes do próprio PT já relatavam um núcleo pouco aberto a opiniões externas, uma campanha reativa e dificuldade de estabelecer uma pauta própria. Os sinais de desconexão, portanto, antecediam o resultado das urnas.
Ouvir essas críticas deveria produzir consequências: rever prioridades, testar argumentos, responder a dúvidas e corrigir abordagens. Quando a informação chega, mas não altera nenhuma decisão, a escuta tem pouco valor estratégico.
A segunda falha está na tradução da mensagem. Aliados criticam o espaço dedicado a terras raras e minerais críticos. A relevância desses temas exige uma explicação acessível sobre o que podem representar em empregos, renda e oportunidades.
Sem essa ligação, o governo fala de sua agenda e deixa ao eleitor a tarefa de descobrir por que ela importa.
O mesmo problema aparece quando uma lista de realizações responde a uma reclamação sobre o custo de vida. Quem diz que o dinheiro não chega está relatando uma experiência. Um indicador pode contextualizá-la, mas não elimina a dificuldade. Celebrar resultados sem reconhecer esse incômodo pode transmitir indiferença justamente quando a intenção era demonstrar competência.
A mensagem falha quando responde ao que a campanha quer provar e deixa sem resposta o que o eleitor precisa compreender.
A terceira falha está na avaliação da própria comunicação. Entre apoiadores, o discurso encontra referências conhecidas e disposição para defendê-lo. Essa repercussão ajuda a mobilizar, mas pode criar uma percepção enganosa de alcance e convencimento.
Aplauso da base não é diagnóstico de conexão com a sociedade.
Quem ainda tem dúvidas precisa de razões para prestar atenção, acreditar e considerar uma proposta. Furar a bolha exige verificar se a mensagem faz sentido também para essas pessoas. Publicar mais ou endurecer o tom não resolve uma abordagem que depende de concordância prévia.
Figuras da direita compreenderam como transformar posicionamentos em conteúdos que seus públicos ajudam a distribuir. Nos confrontos de Lucas Pavanato, por exemplo, o apoiador encontra uma cena que pode interpretar como demonstração de firmeza. Ao compartilhar, expressa também sua própria posição.
No campo progressista, Erika Hilton oferece outro exemplo. A mobilização pelo fim da escala 6×1 aproxima o debate parlamentar do cansaço, do descanso e do tempo para viver. A pauta encontra uma experiência reconhecível.
Os caminhos são diferentes, mas ajudam a observar um mecanismo: a mensagem ganha força quando o público identifica nela algo que consegue relacionar à própria vida ou visão de mundo. Isso não explica sozinho resultados eleitorais. Explica por que comunicar exige mais do que divulgar.
A campanha de Lula agora pretende ampliar a participação de jovens, intensificar as redes e adotar uma linguagem mais direta. O efeito dessas mudanças dependerá da abertura para rever o conteúdo, além do formato. Rostos novos terão contribuição limitada se não puderem questionar decisões antigas.
Escuta ativa exige investigar críticas, reconhecer dúvidas e permitir que as respostas alterem a pauta. A equipe precisa ter liberdade para dizer que uma abordagem não funciona, que uma ausência custa oportunidades ou que determinada fala aumenta a distância.
Essa responsabilidade chega ao candidato. A comunicação precisa ter espaço para contrariar a liderança antes de ser responsabilizada por não convencer o eleitor.
Nenhuma estratégia de comunicação explica sozinha uma eleição. Mas a forma de comunicar interfere diretamente na compreensão, na confiança e na disposição de ouvir. Ignorá-la na construção da estratégia e responsabilizá-la depois reduz o diagnóstico e preserva o erro.
A mudança decisiva começa quando a campanha passa a perguntar o que ainda não entendeu sobre a insatisfação do eleitor — e aceita que a resposta pode exigir mais do que uma nova propaganda.
Quem só aceita aplausos perde acesso aos sinais de afastamento. E, quando finalmente decide ouvir, pode descobrir que o eleitor já encontrou outra voz para representá-lo.
