Mulheres conquistam número recorde de cadeiras nas duas Casas; Câmara terá mais de 21% de representação feminina e Senado chegará a 18 mulheres na próxima legislatura, considerando as parlamentares que já têm mandato
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | BRASIL
As eleições de 2026 produziram uma mudança histórica na composição do Congresso Nacional. Foram eleitas 109 deputadas federais e 12 senadoras, levando a representação feminina a novos patamares tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal.
O crescimento é expressivo, mas os próprios números revelam uma segunda realidade: mesmo com o recorde, pouco mais de uma em cada cinco cadeiras das duas Casas será ocupada por mulheres. Ou seja, o Brasil amplia a presença feminina no centro das decisões nacionais, mas continua distante de uma representação equilibrada entre homens e mulheres.
Câmara: de 90 para 109 deputadas
Na Câmara dos Deputados, 109 mulheres foram eleitas para as 513 cadeiras. Na eleição de 2022, haviam sido 90. São, portanto, 19 deputadas a mais, crescimento de 21,1%.
A partir de 1º de fevereiro de 2027, as mulheres representarão aproximadamente 21,2% da Câmara, enquanto os homens ocuparão as outras 404 cadeiras, cerca de 79% da Casa.
Das 109 mulheres da nova bancada, 59 foram reeleitas, o equivalente a aproximadamente 54% do grupo.
A dimensão histórica do resultado aparece justamente no contraste: a Câmara nunca teve tantas mulheres, mas quase quatro de cada cinco cadeiras continuarão ocupadas por homens.
São Paulo elege 16 deputadas e lidera em números absolutos
O resultado também merece um olhar regional. São Paulo elegeu 16 deputadas federais, o maior número absoluto entre os estados e equivalente a aproximadamente 14,7% de todas as 109 mulheres eleitas para a Câmara.
Minas Gerais aparece na sequência, com 11 deputadas, e o Rio de Janeiro, com 10. Bahia, Pernambuco e Santa Catarina elegeram seis mulheres cada.
No outro extremo, Distrito Federal, Piauí e Roraima não elegeram nenhuma mulher para a Câmara dos Deputados em 2026.
Para São Paulo, maior colégio eleitoral do país e responsável por 70 das 513 cadeiras da Câmara, o resultado significa que 16 das 70 vagas paulistas serão ocupadas por mulheres, aproximadamente 22,9% da bancada do estado.
O percentual paulista fica ligeiramente acima da participação feminina projetada para toda a Câmara, de 21,2%.
Senado: 12 mulheres eleitas entre 54 vagas
No Senado, o resultado também entrou para a história.
Os brasileiros elegeram 12 mulheres entre as 54 vagas que estavam em disputa em 2026. É o maior número de mulheres eleitas para o Senado em uma mesma eleição desde a redemocratização.
A comparação histórica ajuda a dimensionar o avanço. Até agora, o recorde havia ocorrido em 2002, com oito mulheres eleitas. Em 2018, última eleição em que também houve renovação de dois terços do Senado, foram eleitas sete.
Agora são 12.
Como os mandatos no Senado duram oito anos e apenas parte da Casa é renovada a cada eleição, essas 12 novas senadoras se somarão às mulheres que permanecem no exercício de seus mandatos.
A projeção é de que a bancada feminina chegue a 18 integrantes em 2027, considerando a composição da Casa e as parlamentares que já possuem mandato.
Serão, portanto, 18 mulheres entre os 81 integrantes do Senado, equivalentes a aproximadamente 22,2% das cadeiras.
Quem são as 12 senadoras eleitas
As novas senadoras representam diferentes regiões, partidos e campos políticos.
Foram eleitas Mara Rocha (Republicanos-AC), Marina JHC (PSDB-AL), Rayssa Furlan (Podemos-AP), Luizianne (Rede-CE), Michelle Bolsonaro (PL-DF), Bia Kicis (PL-DF), Gracinha Caiado (União-GO), Marília Campos (PT-MG), Marília Arraes (PDT-PE), Samanda de Lula (PT-RN), Teresa Surita (MDB-RR) e Carol de Toni (PL-SC).
A distribuição partidária mostra um aspecto importante do resultado de 2026: o avanço da representação feminina atravessou diferentes campos ideológicos. Mulheres de partidos da direita, do centro e da esquerda conquistaram mandatos.
Distrito Federal terá três mulheres no Senado
O Distrito Federal produziu uma das imagens mais simbólicas das eleições de 2026.
Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL) foram eleitas para o Senado e se juntarão a Damares Alves (Republicanos), eleita em 2022 e com mandato até 2031.
Com isso, as três cadeiras do Distrito Federal no Senado serão ocupadas por mulheres.
O resultado transforma a representação do DF em um caso emblemático dentro do novo mapa político feminino brasileiro.
Menos candidatas à Câmara, mas mais mulheres eleitas
Há outro dado que torna o resultado ainda mais relevante.
Em 2026, foram registradas aproximadamente 2,8 mil candidaturas femininas para deputada federal, número inferior ao observado quatro anos antes. Mesmo assim, a quantidade de mulheres efetivamente eleitas aumentou de 90 para 109.
Ou seja: menos mulheres disputaram a Câmara, mas mais conseguiram chegar ao mandato.
O dado muda o centro da discussão.
A representação feminina não pode ser analisada apenas pela quantidade de candidatas lançadas pelos partidos. É necessário observar quantas candidaturas possuem estrutura financeira, exposição, apoio partidário, base eleitoral e competitividade suficiente para transformar candidatura em votos — e votos em cadeiras.
O desempenho de 2026 indica aumento dessa capacidade eleitoral.
Recorde histórico, mas ainda longe da igualdade
Os números permitem duas leituras que não são contraditórias.
A primeira é inequívoca: as mulheres conquistaram o maior espaço de sua história no Congresso Nacional.
A segunda é igualmente importante: esse espaço ainda está muito distante da igualdade.
Na Câmara, elas representarão aproximadamente 21,2% dos 513 deputados.
No Senado, a projeção para 2027 coloca as mulheres em aproximadamente 22,2% das 81 cadeiras.
Em outras palavras, mesmo depois de uma eleição histórica, menos de uma em cada quatro cadeiras do Congresso Nacional será ocupada por uma mulher.
Esse talvez seja o dado que melhor dimensione o resultado.
O recorde mostra o avanço. A diferença entre homens e mulheres mostra o tamanho do caminho que ainda existe.
O próximo desafio será transformar presença em poder
A eleição é apenas a primeira etapa.
A força política dessa nova bancada feminina será medida a partir de 2027 também pelos espaços ocupados dentro do próprio Congresso: presidências e relatorias de comissões, lideranças partidárias, Mesa Diretora, discussão do Orçamento e condução das grandes votações nacionais.
Ter mais mulheres eleitas aumenta a representação numérica. Mas a influência política dependerá também de quanto desse crescimento chegará aos postos em que as decisões são negociadas e tomadas.
As urnas de 2026 já deixaram uma marca: 109 deputadas federais eleitas, 12 novas senadoras e uma projeção de 18 mulheres no Senado na próxima legislatura.
É um avanço histórico para a participação feminina no Legislativo federal.
Mas os mesmos números que registram o recorde também deixam uma mensagem clara: o Congresso ficou mais feminino em 2026, mas o poder político brasileiro continua majoritariamente nas mãos dos homens.
