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Brasil elege congresso mais à direita em 2026; nova correlação de forças muda o jogo em Brasília

Direita amplia presença na Câmara e no Senado; na análise de Gabrielle Tricanico, resultado fortalece o campo conservador, aumenta o poder do Legislativo e transforma o centro político em peça decisiva para as grandes votações a partir de 2027

Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | BRASIL

O resultado das eleições de 2026 não redesenhou apenas os nomes que ocuparão as cadeiras do Congresso Nacional. Mudou a correlação de forças que comandará Brasília a partir de 2027.

A fotografia política que emerge das urnas mostra um Congresso significativamente mais favorável à direita e ao campo conservador. Uma composição que poderá interferir diretamente na relação entre Executivo e Legislativo, nas reformas constitucionais, na pauta econômica e nas grandes discussões institucionais do país.

Um levantamento que circula após a eleição classifica a composição da Câmara dos Deputados em 283 parlamentares de direita, 123 de centro e 107 de esquerda. No Senado, seriam 49 senadores de direita, 16 de centro e 16 de esquerda.

É importante, porém, fazer uma ressalva jornalística: essa divisão ideológica não é uma classificação oficial do Tribunal Superior Eleitoral. O enquadramento de partidos e parlamentares como direita, centro ou esquerda depende da metodologia utilizada e pode variar de um levantamento para outro.

Ainda assim, os resultados partidários das urnas confirmam a tendência central: a direita ganhou musculatura política e terá enorme peso no Congresso que assume em 2027.

Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada partidária. A Federação PT-PCdoB-PV aparece com 88 cadeiras. União Brasil e PP, considerados conjuntamente dentro da União Progressista, conquistaram 87. O PSD terá 43 deputados; Republicanos, 41; MDB, 36; e Podemos, 27.

São Paulo continuará sendo determinante nessa equação. O maior colégio eleitoral brasileiro ocupará 70 das 513 cadeiras da Câmara, dando à bancada paulista um peso expressivo nas articulações nacionais.

No Senado, a transformação também é relevante. Como dois terços das cadeiras estavam em disputa em 2026, a eleição tinha potencial para modificar profundamente a correlação de forças da Casa.

O PL conquistou 19 das 54 vagas disputadas para senador. Somados os parlamentares com mandato em andamento, o partido deverá iniciar 2027 com 28 senadores, tornando-se a maior bancada partidária do Senado.

Outro dado ajuda a dimensionar a transformação: entre os 54 senadores escolhidos nas urnas, 40 serão novos no Senado e apenas 14 foram reeleitos.

Não estamos falando, portanto, somente de uma mudança ideológica. Estamos diante de uma renovação importante de nomes e de forças políticas.

ANÁLISE | GABRIELLE TRICANICO

O que eu vejo nas urnas é uma mensagem muito mais profunda do que simplesmente afirmar que “a direita venceu o Congresso”.

O eleitor brasileiro construiu um Congresso que poderá funcionar como um poderoso contrapeso ao Palácio do Planalto.

E isso será decisivo independentemente de quem vencer a Presidência da República.

Na Câmara, o tamanho alcançado pelo PL impressiona. São 121 deputados. Mas Brasília não funciona apenas pela força individual de um partido. Funciona pela capacidade de formar maioria.

É justamente aí que partidos como Republicanos, PP, União Brasil, PSD, MDB e Podemos passam a ocupar posições estratégicas.

O grande jogo político de 2027 não será apenas entre direita e esquerda. Será também pela conquista do centro.

A direita cresceu, mas isso não significa autorização automática para aprovar qualquer proposta.

Existe uma diferença enorme entre possuir a maior força política do Congresso e reunir os votos necessários para determinadas mudanças.

Para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição, por exemplo, são necessários 308 votos na Câmara dos Deputados e 49 votos no Senado, em dois turnos em cada Casa.

Aqui aparece uma das principais diferenças entre matemática eleitoral e matemática parlamentar.

Se considerarmos a classificação que aponta 283 deputados de direita, esse bloco ainda estaria 25 votos abaixo dos 308 necessários para aprovar sozinho uma PEC.

Ou seja: o centro continuará sendo decisivo.

No Senado, a fotografia é diferente. O levantamento aponta exatamente 49 senadores classificados como de direita, número equivalente ao mínimo constitucional necessário para aprovação de uma PEC.

Mas é preciso ter muito cuidado com essa conta.

Ter 49 senadores classificados como de direita não significa ter 49 votos automáticos.

Os partidos possuem interesses próprios, os senadores representam seus estados, existem disputas internas, negociações com o governo e divergências mesmo dentro de um mesmo campo ideológico.

A política real é muito mais complexa do que a divisão de um gráfico.

IMPEACHMENT DE MINISTROS DO STF É OUTRA CONTA

Esse ponto também merece atenção porque o tema certamente estará entre os mais discutidos na nova composição do Senado.

Para uma eventual condenação em processo de impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal, são necessários dois terços dos senadores: 54 votos entre os 81 integrantes da Casa.

Portanto, mesmo considerando um bloco de 49 senadores identificados como de direita, ainda faltariam cinco votos para atingir esse patamar.

Isso significa que uma pauta dessa dimensão necessariamente exigiria votos para além do núcleo mais claramente identificado com a direita.

Mais uma vez, o centro passa a ter enorme valor político.

O CENTRO PODE SER O VERDADEIRO FIEL DA BALANÇA

Essa talvez seja uma das maiores contradições do resultado eleitoral.

A direita saiu das urnas maior, mas justamente por isso a disputa pelos partidos de centro poderá ficar ainda mais intensa.

Dependendo da pauta, esses parlamentares poderão votar com a direita. Em outras matérias, poderão negociar com o governo ou construir posições próprias.

É por isso que não considero correto olhar para o Congresso de 2027 como três blocos completamente fechados.

A fotografia ideológica ajuda a entender a eleição. Mas não necessariamente antecipa como cada votação acontecerá.

Será preciso observar quem comandará a Câmara e o Senado, quem ocupará as presidências das principais comissões, como serão distribuídas as relatorias e, principalmente, como o próximo governo construirá sua base parlamentar.

Porque presidente da República pode vencer uma eleição. Mas presidente nenhum governa sozinho.

SÃO PAULO TERÁ PESO CENTRAL NESSA NOVA CONFIGURAÇÃO

Para nós, que acompanhamos São Paulo cidade a cidade, existe outro componente fundamental nessa análise.

O estado continuará enviando 70 deputados federais para Brasília, a maior bancada estadual da Câmara.

E as urnas paulistas também revelaram a força da direita.

Lucas Pavanato (PL) terminou como o deputado federal mais votado do estado, ultrapassando a marca de 3 milhões de votos, enquanto nomes da esquerda, como Erika Hilton (PSOL), também alcançaram votações expressivas.

Essa composição mostra um estado politicamente dividido, mas com uma bancada que terá enorme capacidade de interferência no Congresso.

Grande ABC, Alto Tietê, Vale do Paraíba, Litoral Norte, Região Metropolitana e interior também entram nessa equação.

Não basta observar apenas quem foi eleito.

Será necessário acompanhar de onde vieram os votos, quais lideranças regionais saíram fortalecidas, quais grupos perderam espaço e como os novos deputados construirão suas bases para 2028 e 2030.

É justamente no território que começaremos a enxergar os próximos movimentos.

O PODER EM BRASÍLIA MUDOU DE TAMANHO

Minha leitura final é que as eleições de 2026 produziram algo que vai além de uma vitória numérica da direita.

As urnas aumentaram o tamanho político do Congresso Nacional.

O Legislativo que assume em 2027 chega fortalecido, mais conservador e potencialmente mais independente na relação com o Executivo.

Mas os números também mostram que, nas pautas que exigem maiorias qualificadas, ninguém terá vida completamente fácil.

A direita terá força.

A esquerda continuará com capacidade de oposição.

E o centro poderá ter os votos que faltam para decidir algumas das questões mais importantes do país.

Essa será, na minha avaliação, a verdadeira disputa de poder em Brasília a partir de 2027: não apenas quem tem a maior bancada, mas quem consegue transformar tamanho político em maioria efetiva dentro do Congresso Nacional.

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