Polícia Civil aponta vendas pelas redes sociais, pagamentos via Pix, fornecedores de São Paulo e do Paraguai e estrutura para ocultação de patrimônio; número de presos chegou a 12 após os primeiros 11 detidos
Por Gabrielle Tricanico | SEGURANÇA | BAHIA
Uma investigação da Polícia Civil da Bahia revelou uma estrutura de tráfico de drogas que, segundo os investigadores, funcionava com características de um negócio organizado: divulgação e negociação pelas redes sociais, pagamentos eletrônicos, distribuição para diferentes cidades e mecanismos para dificultar o rastreamento do dinheiro. O público consumidor apontado pela apuração era formado por pessoas de alto poder aquisitivo.
A Operação Iceberg, deflagrada na quinta-feira (24), teve ações em Salvador, Jaguaripe, Santo Antônio de Jesus, Vitória da Conquista e Ilhéus, além do cumprimento de ordem judicial contra um investigado que já estava no sistema prisional de Sergipe.
Inicialmente, foram divulgadas 11 prisões — nove decorrentes de mandados preventivos e duas em flagrante. Informações posteriores apontaram que o número de presos chegou a 12.
R$ 9,6 milhões e mais de 16 mil transações
Um dos pontos centrais da investigação está no caminho do dinheiro. De acordo com as informações divulgadas sobre o inquérito, o principal investigado teria movimentado mais de R$ 9,6 milhões em cinco anos, distribuídos por mais de 16,6 mil transações bancárias.
O volume financeiro levou a apuração para além da comercialização dos entorpecentes. A polícia investiga mecanismos que teriam sido utilizados para ocultar patrimônio e movimentar recursos, entre eles contas bancárias de terceiros e empresas apontadas como fachadas.
A Justiça também autorizou o bloqueio de até R$ 200 milhões em bens e recursos dos investigados, conforme informações divulgadas sobre a operação. A medida busca impedir a movimentação ou dissipação de patrimônio que possa estar relacionado às atividades investigadas.
Redes sociais e Pix no centro do esquema
A investigação aponta que as redes sociais teriam sido transformadas em uma espécie de vitrine para a comercialização das drogas. Os contatos eram realizados no ambiente digital e os pagamentos ocorriam principalmente por Pix, enquanto as entregas buscavam manter aparência discreta.
Um dos principais alvos identificados na investigação é Erick Castro Gusmão Seixas, apontado pela Polícia Civil como responsável pela comercialização de diferentes variedades de maconha por meio das redes sociais.
Segundo as informações da investigação, ele teria recebido drogas de fornecedores de São Paulo e do Paraguai, coordenando posteriormente a distribuição para cidades baianas, entre elas Salvador, Vitória da Conquista e Santo Antônio de Jesus.
A eventual participação de cada investigado e as circunstâncias atribuídas individualmente a eles ainda dependem da conclusão das investigações e da análise judicial.
Carros de luxo e patrimônio em nome da avó
Outro ponto investigado é a forma como parte do patrimônio teria sido registrada. A apuração policial sustenta que veículos de alto padrão teriam sido colocados em nome da avó de um dos investigados, além da utilização de contas bancárias pertencentes a terceiros e de uma empresa individual apontada como possível fachada.
Entre os veículos relacionados aos investigados aparecem modelos como Audi A4, Audi Q3, BYD Song Plus, Honda CR-V Touring, Volkswagen Amarok, Jeep Compass e Chevrolet Tracker, além de uma motocicleta.
O conjunto dos veículos foi estimado em mais de R$ 1,1 milhão, considerando valores de referência divulgados após a operação.
A investigação sobre o patrimônio é considerada estratégica porque pode ajudar a Polícia Civil a reconstruir o fluxo financeiro do grupo e verificar se recursos provenientes do tráfico teriam sido utilizados na aquisição de bens ou transferidos para terceiros.
Drogas escondidas em potes de creme
Os investigadores também identificaram métodos que teriam sido empregados para tentar dificultar a fiscalização durante o transporte dos entorpecentes.
Há indícios de que drogas eram acondicionadas em embalagens a vácuo e escondidas dentro de potes de creme para cabelo, enviados como encomendas. A estratégia teria como objetivo dificultar a identificação do conteúdo e reduzir a percepção do odor dos entorpecentes durante o transporte.
Segundo a apuração policial, diferentes integrantes teriam funções específicas dentro da estrutura, envolvendo fornecimento, armazenamento, distribuição regional, logística e movimentação financeira.
A investigação também encontrou indícios relacionados à comercialização ilegal de armas de fogo.
Operação nasceu de outra investigação
A Operação Iceberg avançou a partir de informações obtidas durante outra frente investigativa, a Operação Gênesis, que apurava a atuação de uma organização criminosa relacionada a crimes violentos.
Com o aprofundamento das diligências e a análise de informações encontradas durante as investigações, a Polícia Civil passou a reconstruir uma possível rede envolvendo fornecedores, distribuidores, vendedores e pessoas responsáveis pela circulação do dinheiro.
A dimensão financeira tornou-se um dos principais eixos do caso. O rastreamento das milhares de operações bancárias pode ajudar a esclarecer não apenas quem teria participado diretamente da venda das drogas, mas também quem eventualmente teria colaborado para movimentar, receber ou ocultar recursos.
Investigação continua
A Operação Iceberg expõe uma modalidade de tráfico que se distancia da venda ostensiva em pontos tradicionais e utiliza ferramentas do cotidiano digital para alcançar consumidores: redes sociais para contato, transferências instantâneas para pagamentos e estruturas logísticas para distribuição.
A Polícia Civil agora busca aprofundar o rastreamento financeiro e identificar eventuais outros participantes, fornecedores e beneficiários da estrutura investigada.
As prisões preventivas e em flagrante não representam condenação. Todos os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório, e as responsabilidades individuais deverão ser estabelecidas no decorrer das investigações e do processo judicial.
