Prefeito testa três candidaturas à Alesp, vê Ivan Silva chegar à primeira suplência, fortalece Renata Abreu na maior cidade do ABC e participa da vitória de Tarcísio na região; derrotas de Orlando Morando, Alex Manente, Moisés Selerges e Fernando Marangoni abrem uma nova fase no tabuleiro político de São Bernardo
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO BERNARDO DO CAMPO
As urnas de 2026 produziram um paradoxo em São Bernardo do Campo e no Grande ABC. A região perdeu força institucional em Brasília, mas uma liderança local saiu politicamente maior da eleição: Marcelo Lima (Podemos).
Essa conclusão não pode ser construída olhando apenas para a lista de eleitos. Uma eleição também mede transferência de votos, capacidade de articulação, tamanho de grupo, desempenho dos adversários e, principalmente, quem termina o processo em condições de comandar a reorganização do tabuleiro.
E é justamente nesse ponto que Marcelo se destaca.
Presidente estadual do Podemos e prefeito da maior cidade do Grande ABC, Marcelo entrou nesta eleição colocando à prova uma estrutura política relativamente nova. Apoiou Ivan Silva (Podemos), Fran Silva (Podemos) e Julinho Fuzari (Republicanos) para deputado estadual, trabalhou pela votação de Renata Abreu (Podemos) para a Câmara Federal, manteve pontes com outras candidaturas e esteve entre as lideranças regionais empenhadas na reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Nem todos os resultados desejados vieram.
Mas o saldo político é muito maior do que a simples conta de eleitos e derrotados.
TRÊS CANDIDATOS, MAIS DE 142 MIL VOTOS
Marcelo Lima decidiu não concentrar sua força em uma única candidatura à Assembleia Legislativa. Seu grupo entrou na disputa com três nomes.
Ivan Silva recebeu 48.389 votos, Julinho Fuzari chegou a 47.626 e Fran Silva conquistou 46.367 votos. Somados, os três alcançaram 142.382 votos no Estado.
Ivan terminou ainda como primeiro suplente do Podemos, mantendo aberta a possibilidade de chegar à Assembleia Legislativa durante a próxima legislatura.
Nenhum dos três conquistou imediatamente uma cadeira titular. Isso é fato.
Mas também é fato que Marcelo colocou três candidaturas na rua e as três terminaram praticamente no mesmo patamar eleitoral. Entre Ivan, o mais votado, e Fran, o terceiro, houve uma diferença de apenas 2.022 votos.
Essa distribuição revela uma característica importante do grupo: Marcelo conseguiu dividir sua base sem desmontar nenhuma das três candidaturas.
Em uma eleição proporcional, entretanto, voto individual não resolve tudo. O desempenho das chapas e a matemática partidária são determinantes para transformar votação em mandato.
Por isso, dizer simplesmente que Marcelo perdeu três candidatos é uma leitura pequena diante do que as urnas mostraram.
Ele não elegeu os três. Mas mostrou que possui base para sustentar três projetos eleitorais simultaneamente.
JULINHO CRESCE; IVAN CHEGA À PRIMEIRA SUPLÊNCIA E FRAN TESTA SUA FORÇA
Cada um desses resultados precisa ser observado separadamente.
Julinho Fuzari (Republicanos) ampliou seu patrimônio eleitoral e voltou a demonstrar força em São Bernardo. Sua votação estadual chegou a 47.626 votos.
Ivan Silva (Podemos) terminou com 48.389 votos e ficou na primeira suplência da legenda, resultado que o mantém diretamente inserido nas movimentações políticas dos próximos anos.
Fran Silva (Podemos), por sua vez, chegou a 46.367 votos e também demonstrou capacidade eleitoral em uma disputa extremamente pulverizada.
Os três agora deixam de ser apenas apostas.
Passam a carregar números próprios.
E isso será importante para a próxima etapa do governo Marcelo Lima.
RENATA ABREU É A PROVA MAIS CLARA DA ENTREGA POLÍTICA DE MARCELO
Talvez o melhor termômetro da capacidade de transferência do prefeito esteja na votação de Renata Abreu (Podemos).
A presidente nacional da legenda, que anteriormente registrava apenas algumas centenas de votos em São Bernardo, aproximou-se da casa dos 20 mil votos no município nesta eleição.
Renata tornou-se uma das principais interlocutoras políticas da atual administração e passou a ser apresentada pelo grupo como a “madrinha de São Bernardo”, especialmente pela articulação de recursos e investimentos para a cidade.
E, quando chegou a hora da eleição, Marcelo entregou.
Esse ponto é fundamental.
Na política, existem apoios protocolares, aqueles que aparecem em fotografias, agendas e discursos. E existe a capacidade efetiva de colocar uma estrutura para funcionar.
A votação de Renata em São Bernardo demonstra que o apoio de Marcelo não ficou apenas na fotografia.
O prefeito colocou sua base em campo e produziu resultado eleitoral.
ALEX MANENTE: UMA DERROTA QUE MUDA O TABULEIRO
A derrota de Alex Manente (Cidadania) talvez seja uma das peças mais importantes para compreender o que acontecerá daqui para frente.
Alex recebeu 102.716 votos, mas não conseguiu renovar seu mandato na Câmara dos Deputados.
Na federação, quem conquistou a representação federal foi Paulo Serra (PSDB), ex-prefeito de Santo André, eleito com 132.866 votos.
O resultado deixa São Bernardo sem Alex em Brasília e mexe diretamente com uma estrutura política que atravessou diferentes administrações da cidade.
E há uma particularidade: Alex esteve politicamente próximo de Marcelo Lima.
Portanto, sua derrota não significa simplesmente a eliminação de um adversário do atual prefeito. Pelo contrário. Ela obriga Marcelo a reorganizar também uma parcela de sua própria composição política.
É aí que entra outro nome importante: Lia Duarte.
A vereadora é suplente e mantém ligação política com o grupo de Alex Manente e também com Julinho Fuzari. Sua posição passa a ser observada com ainda mais atenção a partir de agora.
A eleição terminou no domingo.
A rearrumação política de São Bernardo começou na segunda-feira.
MARCELO TERÁ DE REPOSICIONAR AS PEÇAS
É justamente aqui que considero que começa a parte mais interessante desta eleição.
Marcelo termina 2026 fortalecido, mas também diante da necessidade de reorganizar um conjunto grande de lideranças que agora retorna para o cenário municipal.
Ivan é primeiro suplente.
Julinho cresceu eleitoralmente.
Fran mostrou votação.
Alex ficou sem mandato.
Orlando Morando também não conseguiu chegar à Câmara Federal.
Fernando Marangoni não foi reeleito.
Moisés Selerges, candidato ligado ao presidente Lula, também ficou de fora.
Lia Duarte permanece como uma peça importante dentro dessa composição.
Ou seja: São Bernardo terá muito mais liderança política disponível no território e muito menos espaço institucional em Brasília.
Marcelo terá agora de administrar essa equação.
E, na minha avaliação, os próximos dias devem marcar o início de uma nova fase de seu governo e de sua construção política.
ORLANDO MORANDO: A SURPRESA NEGATIVA DA ELEIÇÃO
Se existe um resultado que contrariou fortemente as expectativas dos bastidores, foi o de Orlando Morando (MDB).
Ex-prefeito por dois mandatos e uma das figuras mais conhecidas da política de São Bernardo, Orlando entrou na campanha cercado por projeções muito superiores ao que apareceu nas urnas.
Nos bastidores, falava-se em votação acima de 200 mil, chegando a projeções próximas de 240 mil votos.
Orlando terminou com aproximadamente 102 mil votos e não foi eleito deputado federal.
A diferença entre expectativa e realidade foi enorme.
Isso não elimina Orlando da política. Mais de 100 mil votos constituem um patrimônio eleitoral relevante.
Mas o resultado muda sua posição no tabuleiro.
Um ex-prefeito que governou São Bernardo durante oito anos e chegou à eleição projetando uma votação muito superior termina 2026 sem mandato.
É uma mudança importante na correlação de forças da cidade.
CARLA MORANDO SOBREVIVE À RETA FINAL E GARANTE NOVO MANDATO
O resultado foi diferente para Carla Morando (PSD).
A deputada estadual conseguiu renovar o mandato com 94.596 votos, preservando sua cadeira na Assembleia Legislativa.
Carla chegou à reta final da campanha enfrentando a repercussão de denúncias e áudios divulgados às vésperas da eleição.
Minha leitura, observando o resultado das urnas, é que o episódio não produziu impacto suficiente para romper sua base eleitoral.
Ela resistiu.
E saiu novamente eleita.
Esse resultado mantém o grupo Morando com representação institucional, mas em uma configuração diferente: Carla permanece na Alesp enquanto Orlando fica sem mandato federal.
MARANGONI JÁ ERA UM RESULTADO MAIS PREVISÍVEL
A derrota de Fernando Marangoni (Podemos) também entra nessa reorganização.
Marangoni recebeu 67.111 votos e não conseguiu renovar sua cadeira de deputado federal.
Era um cenário que já encontrava maior previsibilidade nos bastidores.
Ele teve uma parcela de apoio em São Bernardo e pertence ao mesmo Podemos presidido no Estado por Marcelo Lima, mas a prioridade política construída pelo prefeito para a Câmara Federal estava claramente em Renata Abreu.
E o resultado mostra onde a estrutura mais pesada foi colocada.
Marcelo fez sua escolha.
E entregou a votação para Renata.
MOISÉS SELERGES E O SINAL DE ALERTA PARA O PT
Outro resultado importante foi o de Moisés Selerges (PT).
Ligado ao movimento sindical e apoiado diretamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Moisés recebeu 89.939 votos, mas não conquistou uma cadeira de deputado federal.
O resultado tem um simbolismo ainda maior por acontecer em São Bernardo.
Estamos falando da cidade que construiu uma parte fundamental da história política de Lula e do PT, sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e território que durante décadas foi tratado como uma das principais fortalezas eleitorais da esquerda brasileira.
O PT não desapareceu da região — e seria incorreto afirmar isso. O partido preservou representação estadual.
Mas perdeu força.
E a dificuldade de transformar uma candidatura diretamente associada a Lula em mandato federal é mais um sinal dessa transformação.
SÃO BERNARDO TEM ESTADUAIS, MAS FICA SEM DEPUTADO FEDERAL
São Bernardo preservou representação na Assembleia Legislativa com Luiz Fernando Teixeira (PT), Carla Morando (PSD) e Teonilio Barba (PT).
O Grande ABC também elegeu outros nomes para a Alesp, mantendo uma bancada regional importante no Legislativo paulista.
O problema está em Brasília.
A maior cidade do Grande ABC não elegeu deputado federal.
E o cenário regional é ainda mais preocupante.
O Grande ABC terá apenas Paulo Serra (PSDB), de Santo André, como deputado federal diretamente identificado com a região.
A derrota simultânea de nomes como Alex Manente, Orlando Morando, Fernando Marangoni e Moisés Selerges reduziu drasticamente a presença regional na Câmara.
Isso significa menos gabinetes do ABC em Brasília, menos estruturas próprias para interlocução com ministérios e menos parlamentares disputando recursos federais tendo a região como prioridade política.
Institucionalmente, o ABC perdeu.
TARCÍSIO VENCE EM SEIS DAS SETE CIDADES E MUDA O MAPA POLÍTICO
Enquanto a região encolheu na Câmara Federal, outra transformação aconteceu na eleição para o Governo de São Paulo.
Tarcísio de Freitas (Republicanos) venceu em seis das sete cidades do Grande ABC.
A única exceção foi Diadema.
É uma mudança de enorme peso simbólico.
Quatro anos antes, o mapa regional era praticamente inverso. O campo progressista ainda carregava enorme força no ABC.
Em 2026, Tarcísio conseguiu atravessar essa fronteira.
E Marcelo Lima participou diretamente desse movimento.
MARCELO AJUDOU A FURAR UMA BOLHA HISTÓRICA
Marcelo colocou seu grupo e sua base na campanha pela reeleição de Tarcísio.
E São Bernardo respondeu.
É importante não cometer o erro de atribuir o voto do eleitor a um prefeito ou a qualquer outra liderança. O voto pertence ao eleitor.
Mas política também se faz construindo ambiente, legitimando alianças e levando candidaturas para territórios onde anteriormente encontravam resistência.
Foi isso que aconteceu.
Marcelo ajudou a abrir São Bernardo para Tarcísio.
E o governador venceu justamente em uma cidade carregada de simbolismo para Lula e para o PT.
Quando Tarcísio vence seis das sete cidades do Grande ABC, não estamos diante apenas de uma vitória eleitoral.
Estamos diante de uma mudança do eixo político regional.
E Marcelo esteve no centro dessa articulação.
O PARADOXO: O ABC PERDE, MARCELO VENCE
Essa talvez seja a frase que melhor resume minha análise das eleições de 2026:
o ABC perdeu, mas Marcelo Lima venceu.
O ABC perdeu porque encolheu dramaticamente sua bancada federal.
São Bernardo perdeu porque a maior cidade da região ficou sem um deputado federal diretamente seu.
Perderam Orlando Morando, Alex Manente, Fernando Marangoni e Moisés Selerges.
O grupo de Marcelo também não conseguiu transformar as votações de Ivan, Julinho e Fran em três cadeiras estaduais.
Mas Marcelo, politicamente, venceu.
Porque terminou a eleição como o homem que terá de reorganizar praticamente todas essas peças.
ANÁLISE DE GABRIELLE TRICANICO | MARCELO ENTREGOU O QUE PROMETEU
Minha leitura das urnas é de que Marcelo Lima saiu das eleições maior do que entrou.
E não faço essa avaliação porque todos os seus candidatos venceram. Não venceram.
Faço justamente porque política é mais complexa do que isso.
Marcelo colocou três candidatos competitivos para deputado estadual e os três terminaram entre 46 mil e 49 mil votos, somando mais de 142 mil votos.
Ivan ficou na primeira suplência.
Julinho ampliou seu patrimônio político.
Fran saiu da eleição com uma votação própria expressiva.
Renata Abreu, a chamada “madrinha de São Bernardo”, saltou de uma presença eleitoral praticamente residual na cidade para perto dos 20 mil votos, mostrando que Marcelo entregou a ela aquilo que politicamente havia prometido: estrutura e voto.
Ao mesmo tempo, nomes que durante anos ocuparam o centro da política de São Bernardo saíram enfraquecidos ou sem mandato.
Orlando Morando ficou fora da Câmara. Alex Manente ficou fora da Câmara. Moisés Selerges não conseguiu transformar o apoio de Lula em mandato. Fernando Marangoni também não foi reeleito.
E Tarcísio venceu São Bernardo e seis das sete cidades do Grande ABC.
Isso não é um detalhe.
É uma fotografia de mudança de poder.
A ELEIÇÃO ACABOU; AGORA COMEÇA A NOVA FASE DE MARCELO
É por isso que os próximos dias serão tão importantes.
Marcelo precisará decidir como reposicionará Ivan Silva, Fran Silva e Julinho Fuzari.
Precisará administrar a nova situação de Alex Manente, aliado que deixa de ter mandato federal.
Terá de observar o espaço de Lia Duarte, ligada politicamente a esse núcleo.
Precisará definir como será a relação com Fernando Marangoni dentro do Podemos e, ao mesmo tempo, aprofundar a parceria com Renata Abreu, que recebeu uma demonstração concreta da capacidade eleitoral do prefeito.
E terá ainda de conviver com uma oposição que também começa a se reorganizar.
Carla Morando continuará na Assembleia.
Orlando estará sem mandato, mas continuará sendo um nome conhecido e com patrimônio eleitoral.
O PT terá de decidir como responder ao enfraquecimento federal na região.
E São Bernardo terá de encontrar caminhos para compensar a ausência de um deputado federal próprio.
O próximo movimento pertence, em grande medida, a Marcelo.
Ele tem a Prefeitura, preside o Podemos paulista, possui vereadores, lideranças estaduais, interlocução com Brasília e relação política com o governo Tarcísio.
Agora terá de transformar a vitória política de 2026 em capacidade de governar e entregar resultados.
Porque liderança eleitoral só se consolida definitivamente quando chega à vida das pessoas em forma de saúde, mobilidade, segurança, educação, emprego, obras e qualidade de vida.
Essa será a próxima cobrança.
Mas, encerrada a contagem dos votos, minha avaliação é objetiva:
o grande vencedor político de São Bernardo nesta eleição se chama Marcelo Lima.
Não porque tenha vencido todas as batalhas.
Mas porque, depois de uma eleição que retirou mandatos, derrubou expectativas e enfraqueceu grupos tradicionais, é Marcelo quem permanece no centro do tabuleiro, com mais peças para movimentar do que qualquer outro líder político da cidade.
O ABC saiu menor de Brasília.
Marcelo Lima saiu maior de São Bernardo.
E agora começa a parte mais importante: o que ele fará com todo esse capital político.
