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São Bernardo divide o voto: Lula resiste, Tarcísio rompe barreira petista e direita avança no berço político do presidente

Cidade mantém Lula na liderança para presidente, mas entrega vitória a Tarcísio para governador; Derrite lidera para o Senado e votação para deputados revela um eleitorado cada vez menos preso às estruturas políticas tradicionais

Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO BERNARDO DO CAMPO

São Bernardo do Campo acordou nesta segunda-feira, 5 de outubro, com uma fotografia eleitoral que merece ser observada muito além dos números.

O município que ajudou a construir a trajetória política do presidente Lula (PT), que carrega na própria história o movimento sindical e a ascensão do Partido dos Trabalhadores, mostrou nas urnas de 2026 que seu eleitor já não necessariamente transporta a escolha feita para presidente para os demais cargos.

São Bernardo dividiu o voto.

Lula terminou na liderança da disputa presidencial no município, com 46,77% dos votos válidos, na apuração de 99,90% das urnas. (UOL Notícias⁠)

Mas, quando o eleitor são-bernardense passou da escolha para presidente para a disputa pelo Governo de São Paulo, o resultado mudou de direção.

Tarcísio de Freitas (Republicanos) venceu Fernando Haddad (PT) em São Bernardo.

Na parcial com 95,38% das urnas apuradas, Tarcísio tinha 216.917 votos, ou 53,46% dos válidos, contra 184.202 votos, 45,39%, de Haddad. A diferença naquele estágio da apuração era superior a 32 mil votos. (UOL Notícias⁠)

O resultado ganha dimensão ainda maior quando colocado no mapa paulista. Tarcísio foi reeleito no primeiro turno e venceu em 633 dos 645 municípios paulistas; São Bernardo esteve entre as cidades da Grande São Paulo que deram vitória ao governador. (Folha de S.Paulo⁠)

O BERÇO DE LULA JÁ NÃO É UM TERRITÓRIO AUTOMÁTICO DO PT

Minha leitura desta eleição em São Bernardo começa exatamente aqui.

Não considero correto afirmar que São Bernardo deixou de ser uma cidade importante para Lula ou para o PT. Os números da eleição presidencial mostram que isso não aconteceu.

Lula continua competitivo e terminou à frente na cidade.

O que mudou é outra coisa — e, politicamente, talvez seja ainda mais importante.

O eleitor de São Bernardo demonstrou que consegue separar Lula do restante do PT.

Ele pode votar em Lula para presidente e, na mesma urna, escolher Tarcísio para governador. Pode reconhecer a história sindical da cidade e, simultaneamente, votar em candidatos conservadores para o Legislativo.

Esse voto cruzado desmonta a ideia de que São Bernardo possa ser interpretada simplesmente como uma cidade de esquerda.

São Bernardo continua sendo o berço político de Lula. Mas ser o berço de Lula não significa mais ser um território eleitoral automaticamente transferível aos candidatos apoiados pelo presidente.

E a derrota de Haddad dentro desse território simbólico precisa ser analisada pelo PT com atenção.

TARCÍSIO CONSEGUE ENTRAR ONDE A DIREITA HISTORICAMENTE ENFRENTAVA RESISTÊNCIA

A vitória de Tarcísio em São Bernardo talvez seja um dos resultados mais simbólicos da eleição paulista.

Não apenas porque venceu.

Mas porque venceu Fernando Haddad dentro da principal cidade da história política de Lula no ABC.

A expansão territorial do governador foi enorme em 2026. Haddad venceu apenas seis municípios paulistas, enquanto Tarcísio consolidou uma presença que avançou também sobre municípios metropolitanos onde o PT historicamente encontrava maior resistência à direita. (Folha de S.Paulo⁠)

Isso transforma São Bernardo em um laboratório importante para compreender o novo eleitor paulista.

O voto ideológico continua existindo. Mas existe também um eleitor que compara governos, nomes, administrações e candidaturas separadamente.

E São Bernardo mostrou isso dentro da própria urna.

DERRITE LIDERA PARA O SENADO, MAS CIDADE DIVIDE AS DUAS ESCOLHAS

O Senado reforça essa interpretação.

Guilherme Derrite (PP) terminou na liderança em São Bernardo na parcial divulgada durante a apuração, com 196.124 votos, equivalentes a 25,87% dos votos válidos computados para o cargo.

Na sequência apareceram Simone Tebet (PSB), com 182.237 votos (24,04%); André do Prado (PL), com 180.398 (23,80%); e Marina Silva (Rede), com 171.647 (22,64%). (UOL Notícias⁠)

É uma distribuição particularmente interessante.

Derrite e André do Prado integraram o campo político de Tarcísio e acabaram eleitos senadores por São Paulo. (Folha de S.Paulo⁠)

Mas São Bernardo também entregou votações muito expressivas a Simone Tebet e Marina Silva.

Mais uma vez, não existe uma leitura simplesmente binária do eleitor são-bernardense.

PARA DEPUTADO, SÃO BERNARDO OLHOU PARA CASA — MAS TAMBÉM PARA FORA

A disputa proporcional traz outro recado.

Para deputado estadual, os nomes ligados diretamente à cidade ocuparam posições importantes. Carla Morando (PSD) foi a candidata a deputada estadual mais votada em São Bernardo, seguida por Luiz Fernando Teixeira (PT) e Julinho Fuzari (Republicanos).

Fran Silva (Podemos), Ivan Silva (Podemos) e Barba (PT) também aparecem entre os nomes mais votados no município. (Portal ABC do ABC⁠)

Esse resultado revela uma característica que São Bernardo ainda preserva: o peso da política municipal na escolha para a Assembleia Legislativa.

Mas existe um segundo movimento.

Na eleição federal, Orlando Morando (MDB) liderou a votação municipal, seguido por Lucas Pavanato (PL). Depois aparecem Erika Hilton (PSOL), Alex Manente (Cidadania), Moisés Selerges (PT), Renata Abreu (Podemos) e Vicentinho (PT), entre outros. (Portal ABC do ABC⁠)

É uma lista que mistura ex-prefeito, lideranças regionais, candidatos de projeção estadual e personagens fortemente impulsionados pelas redes sociais.

E aqui está outra mudança importante.

PAVANATO É UM SINAL DE ALERTA PARA AS ESTRUTURAS REGIONAIS

Lucas Pavanato talvez seja um dos melhores exemplos dessa transformação.

O candidato do PL ultrapassou a barreira dos 3 milhões de votos no estado e liderou a eleição paulista para deputado federal. No Grande ABC, também registrou votação expressiva em São Bernardo e Santo André. (Aguardia da Notícia⁠)

Esse fenômeno merece atenção das lideranças regionais.

Durante décadas, candidatos construíram bases eleitorais a partir de vereadores, prefeitos, associações, bairros e estruturas partidárias municipais.

Esse modelo continua funcionando — basta observar o desempenho dos candidatos locais.

Mas agora ele convive com outro sistema de construção eleitoral: o voto formado pela internet.

Um candidato pode não possuir a mesma estrutura territorial de uma liderança tradicional do ABC e, ainda assim, entrar em São Bernardo com dezenas de milhares de votos.

Isso muda a disputa por espaço político na região.

ANÁLISE | GABRIELLE TRICANICO

A eleição de 2026 deixa, para mim, uma mensagem muito clara sobre São Bernardo: a cidade continua carregando sua história, mas o eleitor não está preso a ela.

Lula permanece forte. Isso está demonstrado nas urnas.

Mas o eleitor que votou em Lula não necessariamente votou em Haddad. E o eleitor que escolheu Tarcísio não necessariamente entregou seus dois votos ao Senado para candidatos do mesmo campo político.

Quando chegamos aos deputados, essa independência fica ainda mais evidente.

São Bernardo escolheu nomes da própria cidade, preservou lideranças tradicionais, deu espaço a candidatos de esquerda e, ao mesmo tempo, abriu uma avenida para candidaturas conservadoras e nomes construídos nacionalmente pelas redes sociais.

Para mim, esse é o principal recado das urnas.

Não estamos diante do fim da força de Lula em São Bernardo.

Estamos diante do fim da transferência automática dessa força.

E essa diferença é enorme.

Para o PT, significa que carregar Lula no palanque já não garante sozinho a vitória dos demais candidatos.

Para a direita, significa que São Bernardo deixou de ser um território eleitoral inacessível.

E, para as lideranças locais, existe outro aviso: o eleitor quer representação regional, mas já não depende exclusivamente das estruturas políticas tradicionais para decidir seu voto.

São Bernardo saiu das urnas mais plural, mais fragmentada e eleitoralmente mais imprevisível.

A cidade que ajudou a projetar Lula para o Brasil continua sendo fundamental para entender a política nacional.

Só que, em 2026, São Bernardo mandou um recado diferente:

o eleitor pode continuar com Lula sem necessariamente continuar com o PT — e pode escolher Tarcísio sem entregar toda a urna à direita.

Esse voto cruzado será uma das peças mais importantes para compreender a reorganização política do Grande ABC daqui para frente.

Eu colocaria essa matéria como uma das principais análises pós-eleição da Guardiã, porque ela permite depois desdobrar bairro a bairro/zonas eleitorais de São Bernardo e comparar com Santo André, Diadema e Mauá.

Centro Santo Andre
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