Enquanto a cidade vive o auge do turismo e recebe milhares de visitantes durante a Flip, comunidades tradicionais denunciam perda de áreas de pesca, insegurança fundiária e ameaça à preservação de um patrimônio cultural construído ao longo de gerações.
Por Gabrielle Tricanico | Litoral Sul do Rio de Janeiro | Paraty
Paraty é reconhecida internacionalmente por seu patrimônio histórico, belezas naturais e pela realização da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Mas, longe do circuito turístico, comunidades caiçaras enfrentam uma realidade marcada por conflitos fundiários, expansão imobiliária e restrições ao acesso a territórios tradicionalmente ocupados por famílias que vivem da pesca artesanal e da mariscagem.
Relatos de moradores apontam que a ampliação de marinas, a valorização acelerada do mercado imobiliário e o avanço de empreendimentos privados têm alterado a dinâmica de ocupação da região. Segundo as comunidades, essas mudanças dificultam o acesso ao mar, reduzem áreas destinadas à pesca e colocam em risco atividades que representam não apenas fonte de renda, mas também um modo de vida preservado por gerações.
O cenário evidencia um dos principais desafios enfrentados por cidades turísticas brasileiras: conciliar crescimento econômico, desenvolvimento urbano e preservação das populações tradicionais. Especialistas alertam que a ausência de regularização fundiária amplia a insegurança jurídica das famílias, favorecendo disputas territoriais e dificultando políticas públicas voltadas à proteção dessas comunidades.
A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro acompanha ações judiciais e extrajudiciais relacionadas à garantia dos direitos territoriais de comunidades caiçaras e indígenas. O trabalho busca assegurar não apenas o direito à moradia, mas também a manutenção das atividades tradicionais, da cultura local e da sustentabilidade ambiental.
O debate também envolve impactos ambientais. A ocupação desordenada da faixa costeira, a pressão sobre manguezais e áreas de preservação e a intensificação da atividade náutica podem comprometer ecossistemas essenciais para a reprodução de espécies marinhas e para a própria sobrevivência da pesca artesanal.
A realidade expõe um contraste cada vez mais evidente em Paraty: de um lado, uma cidade que se fortalece como destino turístico internacional; de outro, comunidades que lutam para permanecer em seus territórios e preservar um patrimônio cultural, histórico e ambiental que faz parte da identidade da Costa Verde fluminense.
A discussão reforça a necessidade de políticas públicas que promovam desenvolvimento econômico sem comprometer os direitos das populações tradicionais, garantindo equilíbrio entre turismo, preservação ambiental e justiça social. Afinal, proteger as comunidades caiçaras também significa preservar parte da história e da identidade cultural do litoral brasileiro.
