Sucesso profissional, prestígio social e dinheiro não são garantias de caráter — e, em muitos casos, tornam-se instrumentos de silenciamento, impunidade e perpetuação do abuso sexual infantil.
Por Camila Cabral
Coluna de Opinião | A Guardiã da Notícia
Há crimes que não chocam apenas pelo ato em si, mas pelo retrato cruel que escancaram da nossa sociedade. O abuso sexual infantil cometido por homens socialmente bem-sucedidos é um deles. Não porque seja raro — mas porque ainda insistimos em tratá-lo como exceção.
O recente caso do piloto preso em Congonhas, acusado de estuprar crianças, reacende uma ferida antiga e mal cicatrizada no Brasil: o mito de que poder, dinheiro e status são sinônimos de moral, ética ou confiabilidade. Não são. Nunca foram.
O agressor, na maioria das vezes, não se parece com o monstro que o imaginário coletivo constrói. Ele é o profissional exemplar, o pai dedicado nas redes sociais, o vizinho educado, o homem respeitado. Essa “máscara de normalidade” não é acidental — ela é estratégica. Serve para afastar suspeitas, intimidar denúncias e gerar descrédito automático quando a vítima finalmente tenta falar.
O sucesso não cria abusadores, mas potencializa o dano quando o abuso já existe. O poder gera sensação de impunidade. O dinheiro compra silêncio. O prestígio constrange famílias, desestimula denúncias e faz com que a palavra de uma criança seja constantemente colocada em dúvida.
E aqui falo também como mãe.
Ser mãe é viver em estado permanente de atenção. Não por medo irracional, mas por responsabilidade. Mudanças bruscas de comportamento, regressões, medos específicos, silêncios prolongados ou reações desproporcionais nunca são “frescura”. O corpo e o comportamento infantil comunicam aquilo que a boca ainda não consegue traduzir.
Nenhuma criança inventa dor. Nenhuma demonstra medo sem motivo.
Quando o abuso acontece dentro de casa — ou sob o manto da confiança familiar — o cenário se torna ainda mais perverso. Mães e avós que “aceitam” ou silenciam não são, em regra, vilãs simplistas. Muitas são reféns de dependência econômica, manipulação emocional, medo da miséria, da exposição pública ou da destruição da estrutura familiar.
Isso não justifica o silêncio, mas ajuda a entender por que ele persiste.
A estrutura patriarcal ainda pesa. A palavra do homem continua valendo mais que a da criança. O provedor ainda é visto como intocável. E a vítima, frequentemente, carrega o fardo de “não destruir a família”.
Mas é preciso dizer com clareza:
proteger o nome da família, o salário do agressor ou sua reputação nunca pode ser mais importante que a vida de uma criança.
O silêncio não é neutro. Ele protege o agressor.
A omissão não é apenas moralmente condenável — em muitos casos, é crime.
Enquanto a sociedade seguir perguntando “por que a denúncia demorou?” em vez de questionar “por que o sistema falhou?”, continuaremos contabilizando vítimas invisíveis. Enquanto sucesso profissional for tratado como atenuante, e não como agravante moral, o ciclo do abuso seguirá intacto.
O enfrentamento real do abuso sexual infantil exige mais do que indignação momentânea. Exige educação sexual preventiva, escuta protegida, fortalecimento das redes de apoio às mulheres, independência econômica e coragem institucional para enfrentar o poder quando ele deixa de ser influência e passa a ser ameaça.
Como mãe, como mulher e como comunicadora, deixo um posicionamento claro:
todo sinal importa. Toda suspeita deve ser levada a sério. Nenhuma criança deve ser desacreditada.
Se você suspeita de qualquer situação de abuso ou precisa de orientação, a denúncia pode ser feita de forma gratuita e anônima pelo Disque 100.
Informar também é proteger.
E proteger crianças não é opção — é dever coletivo.
