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QUANDO O ENTRETENIMENTO ESCANCARA A VIOLÊNCIA: O CASO PEDRO HENRIQUE E JORDANA NO BBB 26

Por Camila Cabral

O Big Brother Brasil sempre funcionou como um espelho da sociedade. Um espelho que amplia comportamentos, expõe conflitos e, muitas vezes, revela feridas que insistimos em ignorar fora das câmeras. O episódio envolvendo Pedro Henrique e Jordana, no BBB 26, é um desses momentos em que o entretenimento deixa de ser apenas jogo e se transforma em alerta social.

No domingo, 18 de janeiro de 2026, Jordana procurava um babyliss para se arrumar para o programa ao vivo. Pedro Henrique se ofereceu para ajudá-la. O que deveria ser uma ação trivial se transformou em uma cena grave: dentro da despensa, ele a encurralou contra a parede, segurou-a pelo pescoço e tentou beijá-la à força.

A reação de Jordana foi imediata e firme. Ao questioná-lo — “Você está louco? Você não tem esposa?” — recebeu como resposta uma frase que resume um problema estrutural:
“Tô fazendo o que me deu vontade.”

Não foi um mal-entendido. Não foi excesso. Foi violação de limite. Foi ausência de consentimento.

Desistir não apaga a violência

Após a repercussão interna, Pedro apertou o botão de desistência. Ainda assim, a produção do programa deixou claro: a decisão editorial já havia sido tomada — ele seria expulso por conduta inadequada gravíssima. A TV Globo optou por rescindir o contrato, tratando juridicamente o caso como expulsão.

A postura foi correta e necessária. Violência não se resolve com fuga. Se responsabiliza com consequência.

Em vídeo gravado no confessionário, Pedro admitiu o ato e tentou justificá-lo afirmando que “cobiçou” Jordana por ela lembrar sua esposa. A fala, além de não amenizar, agravou ainda mais a situação, por reforçar a objetificação feminina e a ideia de posse sobre o corpo da mulher.

Do reality para a delegacia

O caso ultrapassou o entretenimento e entrou no campo da justiça. A Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM) de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, abriu inquérito para investigar o crime de importunação sexual, previsto no artigo 215-A do Código Penal.

É fundamental reforçar: não é necessário haver agressão física extrema para que exista crime. O simples ato de tocar alguém sem consentimento, com intenção sexual, já configura violência.

Fora da casa, os impactos também foram reais. A esposa de Pedro, grávida de sete meses, apagou fotos do casal e rompeu publicamente o relacionamento. Mais uma mulher atravessada por um ato que muitos ainda insistem em minimizar.

Quando a falta de sororidade também machuca

O episódio ganhou um novo capítulo com a polêmica do Queridômetro. No dia seguinte ao ocorrido, uma participante atribuiu a Jordana o emoji de “mala”, gerando revolta nas redes sociais.

Sororidade não é discurso bonito.
É posicionamento diante da violência.
Neutralidade, nesses casos, também fere.

Os números mostram que o problema é estrutural

O que aconteceu no BBB 26 não é exceção. É reflexo de uma realidade alarmante vivida por milhões de mulheres brasileiras.

Segundo dados do Ministério das Mulheres, somente em 2025, o canal Ligue 180 registrou mais de 86 mil denúncias de violência contra mulheres, sendo quase metade dos casos praticados por parceiros ou ex-parceiros.

Levantamento do DataSenado aponta que cerca de 3,7 milhões de brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar no mesmo período.

Esses números não representam estatísticas frias. Representam histórias interrompidas, corpos violados, vidas marcadas.

Quando um episódio como o de Jordana ganha visibilidade nacional, ele não cria o problema — ele revela o que já acontece diariamente longe das câmeras.

Consentimento não é detalhe. É regra.

Como mulher, mãe de um menino de 5 anos, empreendedora, comunicadora e presidente de uma associação que acolhe mulheres em situação de vulnerabilidade, afirmo com responsabilidade: precisamos parar de relativizar comportamentos violentos.

A violência sexual nem sempre começa com agressão explícita. Muitas vezes começa com invasão de espaço, com imposição, com a ideia de que o desejo masculino se sobrepõe à vontade feminina.

Consentimento não é interpretação.
Consentimento é claro.
E sem consentimento, é violência.

Que esse caso não seja apenas mais um

O episódio envolvendo Pedro Henrique e Jordana precisa servir como ponto de reflexão coletiva. Não para alimentar o cancelamento vazio, mas para fortalecer a educação, a responsabilização e a proteção às mulheres.

Violência contra a mulher não é entretenimento.
Não é pauta secundária.
É um problema social urgente.

📌 Se você ou alguém que você conhece sofreu violência ou importunação, procure ajuda. Ligue 180.
Silêncio não protege. Informação e denúncia salvam vidas.

Camila Cabral
Empreendedora | Líder social | Comunicadora | Colunista

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