Operação Peça-Chave chega ao Grande ABC e investiga suspeitas de descaminho, lavagem de dinheiro e uso de empresas de fachada em esquema ligado à entrada irregular de autopeças estrangeiras
Por Gabrielle Tricanico | GRANDE ABC | SANTO ANDRÉ E SÃO BERNARDO DO CAMPO
O Grande ABC entrou no mapa de uma investigação da Polícia Federal sobre um esquema que teria movimentado aproximadamente R$ 145 milhões por meio da aquisição e comercialização irregular de autopeças de origem estrangeira. Nesta quinta-feira (27), a PF deflagrou a Operação Peça-Chave, com apoio da Receita Federal, e cumpriu mandados de busca e apreensão em Santo André e São Bernardo do Campo, além da capital paulista e de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul.
Ao todo, foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão. A investigação apura a atuação de pessoas físicas e jurídicas supostamente ligadas a uma estrutura utilizada para colocar no mercado brasileiro peças estrangeiras em situação irregular e, posteriormente, movimentar e ocultar os recursos obtidos com a atividade.
A presença da operação em duas das principais cidades do Grande ABC amplia a dimensão regional do caso. Santo André e São Bernardo estão inseridas em um dos maiores polos industriais, automotivos, logísticos e comerciais do Estado de São Paulo, o que torna especialmente relevante a apuração de uma investigação envolvendo justamente a cadeia de comercialização de autopeças.
R$ 145 milhões sob investigação
Segundo as informações divulgadas sobre a operação, as apurações identificaram indícios de movimentação financeira próxima de R$ 145 milhões envolvendo pessoas físicas e empresas vinculadas aos investigados.
A Polícia Federal também aponta a possível utilização de empresas de fachada e documentos fiscais com indícios de fraude, mecanismos que teriam sido empregados para dificultar a identificação da verdadeira origem dos recursos.
Esse ponto é central para a investigação porque o caso não está limitado à suspeita de entrada irregular de mercadorias no país. A apuração procura reconstruir também o caminho financeiro do dinheiro, identificando empresas, pessoas, operações comerciais e transações que eventualmente tenham servido para dar aparência de legalidade aos valores.
Fronteira seria porta de entrada das autopeças
De acordo com a PF, o grupo investigado utilizaria a região de fronteira para adquirir autopeças estrangeiras, posteriormente encaminhadas a empresas instaladas em outros estados.
São Paulo aparece como um dos principais destinos apontados pela investigação.
Ponta Porã, cidade sul-mato-grossense localizada na fronteira com o Paraguai, também foi alvo dos mandados. A conexão entre a região fronteiriça e municípios paulistas passa agora pelo aprofundamento das investigações, que deverão verificar a extensão da cadeia de fornecedores, compradores, intermediários e empresas eventualmente relacionadas às operações.
A suspeita é de que parte dessas mercadorias circulasse acompanhada de documentação fiscal irregular.
Santo André e São Bernardo entram no centro da apuração
No Grande ABC, o cumprimento das ordens judiciais em Santo André e São Bernardo do Campo chama atenção pela importância econômica dos dois municípios e pela histórica relação da região com a indústria automobilística e sua extensa cadeia de fornecedores, distribuidores, oficinas e comércio de peças.
A realização das buscas nas cidades, entretanto, não significa que empresas ou pessoas de todo o setor regional estejam envolvidas. Os mandados são direcionados aos alvos específicos definidos no âmbito da investigação.
O material apreendido nesta quinta-feira deverá ser analisado pela Polícia Federal e pela Receita Federal. Documentos, registros financeiros e outros elementos eventualmente recolhidos poderão ajudar os investigadores a identificar como funcionava a operação, quem participava dela e qual foi a efetiva dimensão dos valores movimentados.
Investigados podem responder por diferentes crimes
Conforme divulgado pela Polícia Federal, os investigados poderão responder, de acordo com a participação individual eventualmente comprovada, por crimes como descaminho, lavagem de capitais e associação ou organização criminosa.
A Operação Peça-Chave entra agora em uma nova fase, com a análise dos elementos obtidos durante as buscas. A investigação deverá esclarecer principalmente como as autopeças chegavam ao mercado paulista, quais empresas participavam das transações e qual era a conexão financeira entre os alvos localizados na fronteira e no Estado de São Paulo.
Até a conclusão das investigações e eventual julgamento, prevalece a presunção de inocência dos investigados.
