Usina Itajobi aparece no centro de nova ofensiva derivada da Carbono Oculto; investigação apura ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro por meio de fundos, fintechs e holdings e rastreia operações de centenas de milhões de reais que conectam o interior paulista ao mercado de combustíveis
Por Gabrielle Tricanico | POLÍCIA E JUSTIÇA | INTERIOR DE SÃO PAULO
Uma usina sucroalcooleira instalada em Marapoama, na região de Catanduva, tornou-se uma das peças centrais da Operação Crédito Oculto, novo desdobramento das investigações da Carbono Oculto sobre uma complexa estrutura financeira que teria sido utilizada para ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro.
A Usina Itajobi aparece na investigação que busca identificar quem efetivamente controlava empresas e recursos movimentados por uma rede formada por fundos de investimento, fintechs, holdings e outras pessoas jurídicas.
O caso ganha dimensão ainda maior porque alcança investigados associados pelas autoridades a uma estrutura sob suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis.
A apuração, no entanto, exige uma distinção importante: a existência de conexões investigadas com pessoas apontadas como ligadas ao PCC não significa que a usina seja propriedade da facção ou que todos os envolvidos nas operações tenham ligação com a organização criminosa. É justamente a identificação dos controladores e beneficiários finais do dinheiro que está entre os objetivos da investigação.
OPERAÇÃO TENTA DESCOBRIR QUEM ESTAVA POR TRÁS DA USINA
Uma das principais questões investigadas é a diferença entre os proprietários que aparecem formalmente nas estruturas empresariais e aqueles que, segundo as suspeitas das autoridades, exerceriam o controle econômico dos ativos.
A Receita Federal aponta indícios de que a titularidade de uma empresa sucroalcooleira do interior paulista teria sido distribuída entre fundos e empresas aparentemente independentes.
A suspeita é de que sucessivas estruturas societárias e financeiras tenham criado diferentes camadas entre os ativos e seus verdadeiros beneficiários.
Em termos práticos, a investigação tenta responder a três perguntas: quem realmente controlava a usina, de onde vinha o dinheiro utilizado nas operações e quem terminava beneficiado pelos recursos.
“PRIMO” APARECE NO CENTRO DA INVESTIGAÇÃO
Entre os personagens investigados está Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, apontado em investigações relacionadas à Carbono Oculto como um dos nomes associados ao esquema investigado no setor de combustíveis.
Mourad está foragido.
Funcionários da Usina Itajobi teriam relatado aos investigadores que ele frequentava a unidade e seria tratado no ambiente empresarial como proprietário, embora a estrutura formal de participação societária fosse mais complexa.
Esse ponto é relevante justamente porque reforça uma das linhas centrais da Crédito Oculto: verificar se pessoas que não apareciam diretamente como proprietárias nos documentos eram, na prática, os controladores econômicos dos negócios.
Outro nome que aparece nas investigações relacionadas à Carbono Oculto é Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, também foragido.
As autoridades apuram suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e utilização de empresas e instrumentos financeiros no setor de combustíveis. As responsabilidades individuais ainda precisam ser estabelecidas no decorrer das investigações e dos processos judiciais.
R$ 370 MILHÕES EM DIREITOS CREDITÓRIOS
Uma das operações financeiras que chamaram a atenção dos investigadores envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios relacionados à usina.
Uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses créditos mediante a transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, o FIDC.
A investigação avançou sobre a origem dos recursos utilizados nessa operação.
A análise financeira indicou que parte relevante do dinheiro empregado para adquirir as cotas teria origem em fundos relacionados ao próprio grupo investigado.
É neste ponto que surge a suspeita de um fluxo financeiro circular.
Na prática, o dinheiro passaria por diferentes fundos, empresas e instrumentos financeiros antes de retornar ao mesmo universo econômico.
A criação dessas sucessivas etapas pode dificultar a identificação da origem dos recursos e dos beneficiários finais das operações.
R$ 100 MILHÕES PASSAM PELA USINA
Outro ponto considerado relevante pelos investigadores envolve R$ 100 milhões que chegaram à Usina Itajobi.
Segundo as apurações, antes de alcançar a empresa, o dinheiro teria passado rapidamente por contas de diferentes companhias e por estruturas mantidas em fintechs.
A suspeita é de utilização das chamadas contas de passagem: contas que recebem grandes valores e os transferem em curto intervalo de tempo, funcionando como uma etapa intermediária na movimentação financeira.
A velocidade dessas transações passou a ser analisada pelos investigadores.
Entre 24 e 26 de julho de 2024, quatro aportes teriam totalizado R$ 100 milhões. Os investigadores identificaram movimentações anteriores aos depósitos que passaram a ser analisadas para reconstruir a origem e o destino final dos recursos.
DA USINA PARA UM FUNDO DE INVESTIMENTO
A investigação não termina quando o dinheiro chega à usina.
Depois dessa etapa, os recursos teriam seguido para outra estrutura financeira.
A Usina Itajobi teria realizado aportes em um fundo de investimento chamado Radford, do qual aparecia como cotista.
O fundo teria aplicado recursos em instrumentos bancários. Posteriormente, operações de crédito teriam alcançado holdings que aparecem na investigação.
É justamente essa sucessão de movimentações que tornou o caso particularmente complexo.
A rota investigada passa por empresas, fintechs, usina, fundo de investimento, instituição financeira e holdings.
Cada nova etapa cria uma camada adicional entre a origem do dinheiro e sua utilização final.
DINHEIRO CHEGA AO SETOR DE COMBUSTÍVEIS
A investigação ganhou ainda mais importância quando os investigadores passaram a relacionar essas operações à aquisição de ativos no mercado de distribuição de combustíveis.
Holdings identificadas como Berna e Branson aparecem nessa etapa da apuração. Recursos obtidos em operações financeiras teriam sido empregados na aquisição de ativos relacionados à Terrana, empresa do segmento de combustíveis.
É aí que a investigação conecta diretamente uma usina instalada no interior de São Paulo a uma estrutura financeira com alcance nacional.
De forma simplificada, o caminho sob investigação pode ser compreendido assim:
empresas e estruturas financeiras → fintechs → Usina Itajobi → fundo de investimento → operações bancárias → holdings → ativos do setor de combustíveis.
Agora, Receita Federal, Ministério Público e demais órgãos envolvidos procuram identificar a função de cada empresa e de cada pessoa nessa cadeia.
MOVIMENTAÇÃO DE R$ 11,6 BILHÕES ENTRA NO RADAR
Outro número revela a dimensão financeira das estruturas analisadas.
Uma empresa financeira utilizada em operação relacionada à aquisição da companhia sucroalcooleira teria movimentado aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
O montante não deve ser interpretado automaticamente como R$ 11,6 bilhões em dinheiro ilícito.
Ele representa o volume de movimentação financeira identificado no período e integra o conjunto de informações analisado pelos investigadores para compreender a dimensão e o funcionamento da estrutura.
Essa diferença é fundamental porque uma investigação financeira precisa individualizar quais operações apresentam irregularidades e qual seria a origem dos valores.
OPERAÇÃO TEM FORTE CONCENTRAÇÃO EM SÃO PAULO
A dimensão paulista da Crédito Oculto também chama atenção.
A operação envolve mandados relacionados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas, com 26 endereços no Estado de São Paulo, além de alvos em outros estados.
Participam da ofensiva órgãos como Receita Federal, Ministério Público por meio do Gaeco, Secretaria da Fazenda paulista, Procuradoria-Geral do Estado e forças policiais.
A concentração de alvos em São Paulo reforça a importância da investigação para compreender a possível utilização de estruturas empresariais e financeiras instaladas no estado.
POR QUE CATANDUVA E MARAPOAMA ENTRAM NO CENTRO DO CASO
Para o interior paulista, a localização da Usina Itajobi muda a dimensão regional da investigação.
Marapoama integra a região de Catanduva, uma área inserida em uma das principais cadeias econômicas do interior: o agronegócio e, especialmente, o setor sucroenergético.
Uma usina não movimenta apenas seus proprietários.
Há uma cadeia formada por trabalhadores, fornecedores, produtores rurais, transportadoras, prestadores de serviços, instituições financeiras, credores e municípios que dependem da atividade econômica regional.
Por isso, a investigação de uma estrutura financeira envolvendo uma empresa desse porte ultrapassa o campo policial.
Ela também levanta questões sobre governança empresarial, origem dos investimentos, controle societário, fiscalização tributária e proteção da atividade econômica legítima no interior paulista.
DA CANA AO COMBUSTÍVEL: O ELO QUE A INVESTIGAÇÃO TENTA EXPLICAR
A Crédito Oculto busca justamente reconstruir uma engrenagem que teria começado muito antes de o dinheiro chegar ao mercado de combustíveis.
A suspeita investigada é de que estruturas societárias e financeiras tenham sido utilizadas inicialmente para dificultar a identificação dos verdadeiros controladores de uma empresa sucroalcooleira.
Depois, novas camadas teriam sido adicionadas.
Entram nesse caminho fundos de investimento, fintechs, holdings e operações bancárias.
No final dessa cadeia, parte dos recursos aparece associada a negócios no mercado de distribuição de combustíveis.
É essa trajetória que transforma uma investigação aparentemente concentrada no sistema financeiro em uma pauta diretamente relacionada ao interior de São Paulo.
A Usina Itajobi, instalada na região de Catanduva, passa a ser um ponto importante para entender como os investigadores acreditam que o dinheiro circulou e como ativos da economia formal podem ter sido utilizados dentro de uma estrutura muito mais ampla.
A Operação Crédito Oculto continua em andamento. Caberá às autoridades individualizar as responsabilidades, demonstrar a eventual origem ilícita dos recursos e comprovar judicialmente as acusações. Os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa.

