Entidade presidida pela cardiologista Ludhmila Hajjar aparece em primeiro lugar no resultado preliminar de chamamento do Ministério da Saúde. Projeto será instalado no complexo do Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo, e envolve uma das maiores apostas do SUS em inteligência artificial, automação e medicina de alta precisão.
Por Gabrielle Tricanico | São Paulo
Uma entidade criada em março de 2026 aparece na primeira colocação do resultado preliminar de um chamamento público do Ministério da Saúde que pode resultar em um contrato bilionário ligado ao primeiro Hospital Inteligente do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo informações publicadas pelo Metrópoles nesta terça-feira (11), o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente do Brasil (ITMI), presidido pela cardiologista Ludhmila Hajjar, professora da Faculdade de Medicina da USP e uma das principais idealizadoras do projeto, ficou em primeiro lugar na seleção preliminar. O edital prevê contrato de R$ 1,9 bilhão, com desembolso concentrado nos quatro primeiros anos de uma parceria prevista para durar dez anos.
O resultado é preliminar e, portanto, não significa ainda a contratação definitiva da entidade.
A dimensão financeira e institucional do projeto coloca o processo sob atenção. Além do valor envolvido, a organização apontada como primeira colocada foi constituída poucos meses antes da publicação do chamamento, segundo a reportagem. A proximidade de sua presidente com a concepção técnica do Hospital Inteligente também amplia o interesse público sobre as próximas fases da seleção, os critérios utilizados e os mecanismos de governança e fiscalização do futuro contrato.
Hospital será instalado no HC da USP
O chamado Hospital Inteligente corresponde ao Instituto Tecnológico de Emergência (ITE), previsto para funcionar junto ao complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, na capital paulista.
Documentos oficiais do Ministério da Saúde descrevem o ITE como um hospital especializado principalmente em emergência e neurologia, estruturado em parceria entre o governo federal, o Governo do Estado de São Paulo e o HC-FMUSP.
A proposta vai muito além da construção de um novo prédio hospitalar. O objetivo é criar uma unidade altamente digitalizada, baseada em inteligência artificial, big data, telemedicina, integração de sistemas, automação e conectividade, transformando o hospital em uma espécie de laboratório para um novo modelo de atendimento de alta complexidade no SUS.
O Ministério da Saúde estima capacidade para atender aproximadamente 20 mil pacientes por ano. O planejamento divulgado anteriormente prevê 800 leitos, sendo 250 de emergência, 350 de terapia intensiva e 200 de enfermaria, além de 25 salas cirúrgicas. A previsão oficial divulgada pela pasta é de início das operações em 2029.
Projeto envolve bilhões e financiamento internacional
Há duas frentes financeiras que precisam ser diferenciadas.
A construção e implantação tecnológica do Hospital Inteligente recebeu estruturação de financiamento internacional de aproximadamente US$ 320 milhões, equivalentes a cerca de R$ 1,7 bilhão, junto ao Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics. O Senado autorizou a contratação da operação de crédito no fim de 2025.
Já o R$ 1,9 bilhão mencionado no chamamento atual está relacionado à futura execução e gestão das atividades previstas no edital, conforme a reportagem publicada nesta terça-feira.
Essa distinção é fundamental: o projeto reúne recursos destinados à implantação da infraestrutura e, paralelamente, um modelo de gestão e operação que poderá movimentar valores bilionários durante a próxima década.
Tecnologia pretende mudar atendimento de emergência
A aposta do governo federal é transformar São Paulo no centro de uma rede nacional de medicina de alta precisão.
O hospital deverá utilizar dados clínicos em tempo real e ferramentas de inteligência artificial para apoiar decisões médicas, acelerar diagnósticos e organizar fluxos de pacientes. O Ministério da Saúde já afirmou que o modelo pode reduzir em aproximadamente 25% o tempo médio de espera na emergência, de 120 para cerca de 90 minutos em determinados fluxos.
O ITE também será conectado a uma rede de 14 UTIs inteligentes distribuídas pelo Brasil, incluindo uma unidade no próprio HC da USP e estruturas em hospitais de cidades como Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza, Manaus e Dourados.
A estratégia busca fazer do complexo paulista não apenas um hospital, mas um centro nacional de pesquisa, desenvolvimento, treinamento profissional e avaliação de novas tecnologias médicas.
Resultado preliminar coloca governança do projeto no centro do debate
O avanço do chamamento abre uma nova etapa para um dos projetos mais ambiciosos da saúde pública brasileira.
Por envolver R$ 1,9 bilhão em recursos públicos, uma organização constituída recentemente e uma iniciativa concebida por profissional que também preside a entidade atualmente mais bem classificada, o processo deverá exigir transparência sobre critérios técnicos, governança, eventuais conflitos de interesse, qualificação econômico-financeira e mecanismos de controle.
A primeira colocação preliminar, isoladamente, não comprova irregularidade. A análise jornalística precisa separar a existência dessas circunstâncias de qualquer conclusão sobre ilegalidade. O ponto de interesse público está justamente em acompanhar as próximas etapas do chamamento e verificar como o Ministério da Saúde fundamentará a escolha definitiva da organização responsável por uma estrutura estratégica do SUS.
O projeto pode colocar São Paulo na vanguarda da medicina pública digital brasileira. Ao mesmo tempo, o tamanho do investimento transforma sua implantação e gestão em assunto que deverá permanecer sob acompanhamento dos órgãos de controle e da sociedade.
