Projeto estimado em R$ 338 milhões prevê conectar quatro viadutos, implantar praças, áreas verdes, equipamentos culturais e um polo de convivência com acesso público 24 horas no coração do bairro da Liberdade.
Por Gabrielle Tricanico | São Paulo | Liberdade
A Prefeitura de São Paulo assinou o contrato da Parceria Público-Privada que dará origem à Esplanada da Liberdade, um amplo projeto de requalificação urbana, cultural e turística previsto para ser implantado sobre um trecho da Radial Leste, na região central da capital.
O nome traduz a dimensão da proposta: criar uma verdadeira esplanada pública no coração da Liberdade, conectando áreas atualmente separadas pelo sistema viário e transformando um espaço fragmentado em um novo território de convivência, cultura, gastronomia, lazer e memória.
A PPP será executada pelo Consórcio Parque Liberdade, formado pelas empresas Construbase Engenharia, F.M. Rodrigues & Cia. e Hersa Engenharia e Serviços. O contrato terá duração de 30 anos e inclui não apenas a implantação da estrutura, mas também sua manutenção, zeladoria, segurança, manejo das áreas verdes e ativação sociocultural.
Esplanada vai superar barreira criada pela Radial Leste
A Esplanada da Liberdade será construída na conexão entre os viadutos Guilherme de Almeida, na Avenida Liberdade; Cidade de Osaka, na Rua Galvão Bueno; Mie Ken, na Rua da Glória; e Shuhei Uetsuka, na Rua Conselheiro Furtado.
O projeto pretende eliminar ou reduzir a fragmentação urbana causada pela Radial Leste, uma das principais barreiras físicas da região. A intervenção permitirá que moradores, comerciantes e turistas circulem com mais segurança entre os diferentes pontos do bairro, sem depender exclusivamente das atuais travessias estreitas e pouco integradas.
A área diretamente concedida soma aproximadamente 19,2 mil metros quadrados, embora os estudos apresentados ao Tribunal de Contas tenham mencionado cerca de 30 mil metros quadrados de área construída, considerando o conjunto das intervenções e estruturas projetadas.
Praças, cultura, gastronomia e acesso gratuito
A Esplanada da Liberdade deverá reunir praças públicas, áreas verdes, espaços de lazer e convivência, quiosques, serviços, equipamentos culturais e locais para eventos.
Um dos principais elementos previstos é o Espaço de Cultura da Liberdade, destinado à valorização da história multicultural do bairro e à preservação de seu patrimônio material e imaterial.
As áreas públicas terão acesso livre e funcionamento previsto durante 24 horas. Caberá ao parceiro privado cuidar da limpeza, segurança, manutenção, iluminação, manejo da vegetação e organização das atividades socioculturais. O contrato também prevê a realização de ações e eventos gratuitos para a população.
A proposta procura fortalecer a presença da cultura oriental, que consolidou a Liberdade como um dos principais destinos turísticos de São Paulo, mas também ampliar a valorização de outras comunidades historicamente ligadas ao território, especialmente a população negra e os diferentes fluxos migratórios que formaram o bairro.
Investimento estimado em R$ 338 milhões
O investimento necessário para a implantação da Esplanada da Liberdade foi estimado pela Prefeitura em aproximadamente R$ 338 milhões. Em apresentações anteriores, o Tribunal de Contas do Município trabalhou com uma estimativa arredondada de R$ 340 milhões.
A concessão administrativa terá prazo de 30 anos. Nesse modelo, a Prefeitura fará pagamentos ao consórcio responsável pela implantação e operação do projeto.
A contraprestação máxima prevista no edital era de aproximadamente R$ 2,78 milhões por mês, equivalente a R$ 33,4 milhões por ano. O Consórcio Parque Liberdade apresentou uma proposta mensal de cerca de R$ 2,36 milhões, representando desconto de 15,3% sobre o teto estabelecido pelo município.
O valor total do contrato ao longo de 30 anos não deve ser confundido com o investimento inicial destinado às obras. A PPP também engloba décadas de manutenção, limpeza, segurança, conservação e operação sociocultural do espaço.
Licitação teve apenas um consórcio credenciado
A sessão pública da licitação ocorreu em 20 de março de 2026. O Consórcio Parque Liberdade foi o único grupo credenciado e apresentou a melhor proposta financeira.
Após a análise dos documentos técnicos e jurídicos, o contrato foi adjudicado ao consórcio. A assinatura, inicialmente prevista para ocorrer antes, foi prorrogada por causa de procedimentos administrativos internos da Prefeitura e finalmente marcada para 24 de julho de 2026.
O histórico do processo mostra que o projeto passou por consulta pública, audiência pública, pedidos de esclarecimentos, impugnações, republicações e até suspensão temporária da sessão de licitação antes da versão final do edital.
Tribunal de Contas acompanhou a modelagem
O projeto foi acompanhado pelo Tribunal de Contas do Município de São Paulo, que realizou uma mesa técnica com representantes da Prefeitura, da Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias e da São Paulo Parcerias.
Na ocasião, os auditores analisaram aspectos técnicos, jurídicos, tributários e econômicos da concessão. Entre os pontos apresentados estavam os custos anuais, as responsabilidades do concessionário e os impactos da intervenção no bairro.
O Tribunal também destacou problemas atualmente existentes na região, como calçadas estreitas ou degradadas, mobiliário urbano deteriorado, deficiências de limpeza e pouca integração entre os equipamentos públicos e culturais.
Prazo para obras e operação
De acordo com o cronograma apresentado durante a análise do projeto, os primeiros dois anos serão destinados ao licenciamento, desenvolvimento dos estudos e planejamento das intervenções.
Outros dois anos deverão ser utilizados para execução das obras. A operação integral da Esplanada está prevista para começar no quinto ano após a assinatura do contrato. Ao fim da concessão, toda a estrutura deverá retornar ao patrimônio da Prefeitura de São Paulo.
Esse prazo ainda poderá sofrer ajustes conforme o licenciamento ambiental, as autorizações de patrimônio histórico, a complexidade da construção sobre a Radial Leste e eventuais interferências em redes de infraestrutura.
Sustentabilidade integra o projeto
A Esplanada da Liberdade também prevê soluções ambientais e de eficiência energética, como reaproveitamento de água, iluminação por energia solar, áreas verdes e estruturas com tetos-jardim.
As medidas deverão contribuir para reduzir ilhas de calor, ampliar as áreas permeáveis e melhorar o conforto térmico e ambiental em uma região densamente ocupada e marcada pelo tráfego intenso de veículos.
Impacto no turismo e no comércio
A implantação da Esplanada deverá aumentar o fluxo de visitantes e ampliar o tempo de permanência de turistas no bairro.
A Liberdade já é um dos principais polos turísticos e gastronômicos da capital, principalmente aos fins de semana, quando milhares de pessoas ocupam a Praça da Liberdade, a Rua Galvão Bueno e as vias próximas.
Com novas praças, eventos, equipamentos culturais e espaços gastronômicos, o projeto tende a beneficiar restaurantes, mercados, lojas, hotéis, comerciantes ambulantes e empreendedores da economia criativa.
Por outro lado, a intervenção exigirá planejamento para evitar impactos negativos durante as obras, como bloqueios viários, redução de circulação em determinadas ruas e prejuízos temporários ao comércio.
Análise da jornalista Gabrielle Tricanico
A força política e urbana do projeto está no próprio nome: Esplanada da Liberdade.
A proposta não apresenta apenas uma praça ou um parque isolado. Ela tenta criar um novo eixo público no centro de São Paulo, dando unidade a uma região hoje dividida pela Radial Leste.
O projeto também reposiciona a Liberdade dentro da estratégia de revitalização do centro. A região deixa de ser vista apenas como um bairro turístico temático e passa a integrar um plano maior de desenvolvimento urbano, cultural e econômico.
Mas uma PPP de 30 anos exige fiscalização permanente. Será necessário acompanhar o cumprimento dos investimentos, a qualidade da manutenção, a gratuidade dos espaços públicos e a preservação da identidade histórica do bairro.
Outro ponto fundamental será impedir que a valorização imobiliária provoque a expulsão de comerciantes tradicionais, moradores antigos ou pequenos empreendedores. A Esplanada precisa gerar desenvolvimento sem descaracterizar a Liberdade.
Se for implantada de acordo com o projeto, a Esplanada da Liberdade poderá se tornar um dos principais novos cartões-postais de São Paulo, reconectando o bairro, ampliando áreas de convivência e transformando uma barreira viária em espaço público.
