Mudança de estratégia coloca o escritor no centro da eleição de 2026: impulsionado por uma comunicação digital agressiva e pelo apoio declarado de Pablo Marçal, Cury chega a 22% entre eleitores de 16 a 24 anos, ultrapassa Renan Santos nesse segmento e tenta transformar audiência das redes em uma terceira força eleitoral.
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO PAULO
A disputa presidencial de 2026 acaba de ganhar um personagem capaz de bagunçar uma parte do tabuleiro que parecia encaminhada. Augusto Cury saltou de 2% para 11% das intenções de voto em apenas uma semana, segundo os números da pesquisa BTG/Nexus apresentados na publicação analisada.
Mas o dado que mais chama atenção não está apenas no crescimento nacional. Está na mudança de estratégia da campanha e na batalha pelo eleitor jovem.
Com Pablo Marçal como apoiador declarado e uma espécie de “coach” político e digital dessa nova fase, Cury passou a ocupar as redes com uma comunicação muito mais intensa, baseada em vídeos curtos, cortes, mensagens de forte apelo emocional e conteúdos desenhados para disputar atenção.
E o resultado apareceu rapidamente nas pesquisas.
Cury toma de Renan Santos a dianteira entre os jovens
Entre os eleitores de 16 a 24 anos, Augusto Cury chega a 22%, enquanto Renan Santos caiu de 10% para 7%, segundo os dados apresentados.
É uma inversão politicamente relevante.
Renan vinha ocupando justamente o espaço de novidade entre parte do eleitorado jovem e conectado às redes. Agora, Cury entra nessa mesma arena e, ao menos nesta fotografia eleitoral, não apenas cresce: ultrapassa Renan e passa a disputar diretamente a atenção de uma geração que pode ser decisiva na reta final da campanha.
Cury também alcança 19% entre os chamados eleitores não polarizados e registra o mesmo percentual entre aqueles identificados como simultaneamente anti-Lula e anti-Bolsonaro.
Isso ajuda a explicar por que seu crescimento começa a preocupar campanhas que, até então, enxergavam a eleição praticamente concentrada entre dois grandes campos políticos.
O “método Marçal” entra na eleição de 2026
A virada ocorre justamente quando a comunicação de Cury passa por uma transformação.
O escritor, conhecido nacionalmente pelos livros de psicologia e desenvolvimento pessoal, ganha agora uma presença eleitoral muito mais agressiva no ambiente digital. Pablo Marçal, que declarou apoio a Cury, tornou-se uma referência evidente dessa estratégia de ocupação das redes.
O fenômeno merece atenção porque Marçal demonstrou nas eleições municipais de 2024 como volume de conteúdo, cortes, declarações de impacto e mobilização digital podem alterar rapidamente o nível de conhecimento e engajamento em torno de uma candidatura.
Agora, elementos semelhantes aparecem na campanha presidencial de Cury.
Isso não significa, entretanto, que eventuais acusações de impulsionamento irregular ou não orgânico estejam comprovadas. Adversários levantam questionamentos sobre a velocidade e o volume dessa expansão digital, mas qualquer afirmação de ilegalidade depende de provas e eventual apuração da Justiça Eleitoral.
Jornalisticamente, portanto, há dois fatos diferentes: o crescimento eleitoral de Cury está registrado na pesquisa; a existência de irregularidades na estratégia digital, não.
De 2% para 11%: o que mudou?
A dimensão da arrancada ajuda a entender a preocupação dos adversários.
No cenário citado, Lula passou de 41% para 39%, enquanto Flávio Bolsonaro caiu de 37% para 33%. Cury, no sentido contrário, saiu de apenas 2% para 11%.
Na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados ao eleitor, o movimento também aparece: Cury teria passado de menos de 1% para 8%.
Esse segundo número é particularmente importante porque pode indicar crescimento de lembrança espontânea do candidato — justamente um dos principais efeitos esperados de uma campanha de forte exposição nas redes.
A eleição agora tem uma guerra pela atenção
A ascensão de Cury também provoca uma discussão mais profunda sobre como serão decididas as eleições de 2026.
O crescimento acelerado de uma candidatura apoiada por uma estratégia fortemente digital mostra que televisão, estrutura partidária e palanques tradicionais dividem cada vez mais espaço com algoritmos, vídeos curtos e capacidade de viralização.
E isso chega diretamente às cidades.
Em São Paulo, Grande ABC, Alto Tietê, Guarulhos, Vale do Paraíba, Litoral Norte e interior paulista, candidatos a deputado estadual e federal precisarão observar para onde esse eleitorado começa a migrar.
Se Cury consolidar uma terceira faixa relevante de votos, lideranças regionais poderão encontrar um eleitor que não deseja necessariamente escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro — e que começa a buscar uma alternativa presidencial pelo celular antes mesmo de encontrá-la nos palanques.
Marçal pode ter encontrado uma nova forma de entrar no jogo
Existe ainda outra pergunta que começa a circular nos bastidores políticos: qual é o objetivo de Pablo Marçal ao apostar em Augusto Cury?
Se a estratégia for construir Cury como uma alternativa competitiva no primeiro turno, Marçal passa a ocupar uma posição privilegiada dentro de um novo campo político.
Mas transferência de voto não funciona automaticamente.
O eleitor que hoje escolhe Cury não pertence a Marçal, assim como não existe garantia de que esses votos migrem posteriormente para Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.
É justamente aí que está o risco — e também a força — dessa estratégia.
Augusto Cury pode ter entrado na eleição como candidato alternativo, mas os números começam a colocá-lo em outra categoria: a de candidato capaz de retirar de Renan Santos o protagonismo entre os jovens e obrigar as duas grandes campanhas presidenciais a olhar para uma terceira força crescendo pelas redes.
A próxima rodada de pesquisas mostrará se houve apenas uma explosão momentânea de audiência ou se Marçal ajudou Cury a encontrar o caminho para transformar seguidores, visualizações e cortes virais em votos reais nas urnas.
