Decisão atende pedido de Flávio Bolsonaro e aponta disseminação coordenada de conteúdos considerados falsos; disputa coloca mobilização digital e limites da propaganda eleitoral no centro do segundo turno.
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO PAULO / BRASÍLIA
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou neste domingo (11) a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede) e acompanhado por mais de 3 milhões de seguidores. A ordem foi expedida pelo presidente da Corte, ministro Nunes Marques, após pedido do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
A decisão estabelece prazo de três horas após a notificação para que o WhatsApp suspenda o funcionamento do canal, impedindo novas publicações e a entrada de seguidores até a homologação do resultado do segundo turno.
Janones reagiu em vídeo publicado nas redes sociais, criticou duramente a determinação e classificou a medida como censura. O deputado afirmou que pretende manter a mobilização dos apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por outras ferramentas digitais.
O que fundamentou a suspensão
Segundo os fundamentos da decisão reproduzidos pela imprensa, Nunes Marques considerou que o canal funcionava como uma estrutura centralizada de distribuição de mensagens, com orientações para que seguidores reproduzissem conteúdos já considerados falsos pela Justiça Eleitoral.
O ministro avaliou que a retirada individual de publicações seria insuficiente diante da velocidade de circulação das mensagens. A determinação atinge o canal no WhatsApp, sem representar uma suspensão geral dos perfis pessoais do parlamentar nas redes sociais.
A campanha de Flávio sustenta que a ferramenta era utilizada para coordenar a disseminação de desinformação contra o candidato. Entre os conteúdos questionados estão alegações sobre cortes em benefícios sociais, aposentadorias e a suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A acusação envolvendo a padroeira foi citada entre os exemplos de conteúdos considerados falsos pela Justiça Eleitoral. A referência ganha relevância regional no Vale do Paraíba, onde está o município de Aparecida, às vésperas do feriado nacional de 12 de outubro.
Janones contesta decisão nas redes sociais
Em sua reação, Janones afirmou que a suspensão interfere na organização digital dos apoiadores de Lula. “Nós não vamos nos calar, nós vamos continuar”, declarou em vídeo, segundo relato publicado pela Folha de S.Paulo.
O parlamentar anunciou a intenção de criar uma comunidade no Instagram para manter contato com os seguidores. Antes da determinação de suspensão, também havia mobilização de apoiadores para ingressar no Telegram.
A classificação da medida como censura expressa a posição de Janones. Na fundamentação atribuída a Nunes Marques, o objetivo da intervenção é interromper a circulação coordenada de desinformação eleitoral, preservando o direito à manifestação política e à defesa de candidaturas.
A coordenação da campanha de Lula também criticou a decisão e informou que analisava as medidas jurídicas cabíveis.
Outra ação exige provas e assegura direito de defesa
O episódio envolve ainda uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e Janones.
Nesse processo, o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, determinou no sábado (10) que Flávio apresentasse esclarecimentos em 72 horas. O candidato deve detalhar os pedidos e informar a existência de medidas semelhantes em outros processos, para permitir a análise de eventual sobreposição.
Cueva também estabeleceu prazo de cinco dias para a apresentação dos arquivos digitais originais citados na ação e determinou a notificação dos investigados para oferecerem defesa.
Em comunicado oficial, o TSE ressaltou que o recebimento dessa ação não significa reconhecer a veracidade das acusações ou a ocorrência de abuso. Essas conclusões dependem do exame das provas e das manifestações das partes.
A suspensão do canal, portanto, não deve ser apresentada como uma condenação definitiva dos investigados na ação que discute possíveis abusos eleitorais.
WhatsApp deverá preservar registros
Além da suspensão, a determinação de Nunes Marques exige que a plataforma preserve registros, mensagens e metadados do canal durante um ano. Também solicita informações sobre as providências adotadas e a existência de outros canais vinculados ao parlamentar.
A preservação desses dados permitirá que o material seja examinado em eventuais investigações e processos eleitorais.
Como o caso se relaciona com São Paulo e as regiões
Para eleitores da capital paulista, Grande ABC, Alto Tietê, Litoral Norte e Vale do Paraíba, o episódio coloca em discussão a circulação de propaganda política em canais e grupos de mensagens durante o segundo turno presidencial.
O alcance nacional da ferramenta permite que os conteúdos sejam reproduzidos em redes locais. Entretanto, não foram apresentados nesta reportagem dados que permitam medir quantos seguidores do canal estão nessas regiões ou qual foi o alcance das mensagens em cada município.
O ponto central da disputa é a distinção entre mobilização política legítima e distribuição coordenada de conteúdos considerados irregulares. A campanha de Flávio defende a intervenção judicial; Janones e a campanha de Lula contestam a medida. Cabe à Justiça Eleitoral examinar as provas, garantir o direito de defesa e definir as responsabilidades no curso dos processos.

