Caraguatatuba e Ubatuba concentram cerca de 65% do eleitorado regional. Em São Sebastião, o forte recall de Felipe Augusto será testado em um cenário de isolamento político e pulverização do voto federal, enquanto Maurício Neves busca o segundo mandato apoiado na atuação parlamentar e em uma estrutura política consolidada.
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | LITORAL NORTE
O Litoral Norte de São Paulo chega às urnas neste domingo (4) com 283.177 eleitores aptos a votar em Caraguatatuba, Ubatuba, São Sebastião e Ilhabela.
São 105.586 eleitores em Caraguatatuba, 78.184 em Ubatuba, 68.215 em São Sebastião e 31.192 em Ilhabela.
Mais do que definir presidente, governador, senadores e deputados, a eleição de 2026 será uma radiografia das forças políticas da região. O resultado mostrará quem conseguiu transformar influência em votos, quais candidatos ultrapassaram as fronteiras de suas cidades e quais grupos começam a ocupar posições estratégicas para 2028.
No Litoral Norte, essa leitura é especialmente importante porque a região possui uma agenda essencialmente regional — Tamoios, Rio-Santos, saneamento, saúde, turismo, preservação ambiental, segurança, habitação, prevenção de desastres e Porto de São Sebastião —, mas ainda enfrenta o desafio de transformar seu eleitorado em representação política proporcional ao seu peso.
Caraguatatuba e Ubatuba concentram cerca de 65% do eleitorado
Caraguatatuba é o maior colégio eleitoral do Litoral Norte, com 105.586 eleitores, aproximadamente 37% do total.
Ubatuba aparece em seguida, com 78.184 eleitores, cerca de 28%.
Juntas, as duas cidades concentram aproximadamente 65% de todo o eleitorado regional.
São Sebastião responde por cerca de 24%, enquanto Ilhabela representa aproximadamente 11%.
Essa distribuição estabelece uma régua importante para a apuração: uma coisa é ser forte dentro da própria cidade; outra é conseguir construir voto regional.
Quem apresentar desempenho consistente fora de sua base municipal poderá sair deste domingo com um patrimônio político que ultrapassa a eleição de 2026.
O desafio é transformar 283 mil eleitores em representação
O Litoral Norte possui força eleitoral, mas enfrenta um problema recorrente: a pulverização.
São várias candidaturas disputando um universo de 283 mil eleitores, ao mesmo tempo em que deputados de outras regiões também buscam votos nas quatro cidades.
Por isso, uma das contas mais importantes da apuração será verificar quanto do voto do Litoral Norte permaneceu com candidatos efetivamente ligados à região.
Não basta lançar candidatos. É preciso eleger representantes.
E, para uma região que depende de grandes investimentos estaduais e federais em infraestrutura, mobilidade, saneamento, saúde e prevenção de desastres, representação política significa capacidade de disputar orçamento e decisões.
São Sebastião exige uma leitura política mais profunda
Em São Sebastião, considero um erro reduzir a eleição federal a uma disputa direta entre Maurício Neves e Felipe Augusto.
Não acredito que os dois partam do mesmo ponto eleitoral.
Felipe possui um recall que Maurício não tem dentro da cidade. Foram oito anos como prefeito, dois mandatos consecutivos e uma exposição permanente diante do eleitorado.
É natural, portanto, que Felipe tenha potencial para receber uma votação significativamente superior à de Maurício em São Sebastião.
A pergunta que faço é outra:
quanto desse recall Felipe Augusto ainda conseguirá transformar em voto?
É aí que esta eleição fica politicamente interessante.
Felipe tem recall; Maurício chega com mandato, entregas e estrutura política
Maurício Neves chega às urnas como deputado federal em exercício e candidato ao segundo mandato.
Sua força não está no mesmo lugar da força de Felipe.
Maurício não administrou São Sebastião durante oito anos. Não possui, portanto, o mesmo nível de conhecimento espontâneo de um ex-prefeito.
Por outro lado, chega depois de um mandato em que São Sebastião esteve entre os municípios beneficiados por sua atuação parlamentar, com recursos, interlocução política e presença junto às demandas da cidade.
Na minha avaliação, Maurício foi um dos deputados federais que mais ajudaram São Sebastião durante este ciclo político.
Além disso, chega à eleição com uma estrutura local importante: cinco vereadores apoiam seu projeto somente em São Sebastião.
Felipe apresenta o desenho inverso.
Possui um recall eleitoral muito maior, mas não chega acompanhado hoje pela mesma estrutura política que construiu durante os oito anos em que comandou a Prefeitura.
É por isso que não considero adequado estabelecer como régua se Maurício alcançará Felipe.
Maurício não precisa ter metade dos votos de Felipe para sair politicamente fortalecido.
Sua conta é outra: transformar mandato, entregas, vereadores e articulação partidária em uma base eleitoral consistente, não apenas em São Sebastião, mas no conjunto do Litoral Norte e do estado.
O maior problema para Felipe pode estar na pulverização do próprio campo eleitoral
Existe ainda uma variável que considero central para entender São Sebastião.
O prefeito Reinaldo Moreira (Republicanos) rompeu politicamente com Felipe Augusto e, nesta eleição, não concentrou sua movimentação em apenas um candidato a deputado federal.
Renata Abreu (Podemos), Marcos Pereira (Republicanos) e Paulo Alexandre Barbosa (PSD) estiveram na cidade e entram nessa disputa por diferentes parcelas do eleitorado.
Na prática, isso cria uma pulverização importante.
Esses candidatos não precisam individualmente superar Felipe para produzir efeito sobre sua votação.
Basta que cada um retire uma parcela de um eleitorado que, em outro desenho político, poderia estar disponível para o ex-prefeito.
Esse é, para mim, um dos movimentos mais importantes da eleição em São Sebastião.
Felipe poderá continuar sendo individualmente muito forte e, ao mesmo tempo, assistir a diferentes candidaturas ocuparem espaços que anteriormente orbitavam seu grupo político.
O rompimento com Reinaldo também estará nas urnas
Existe ainda o desgaste entre Felipe Augusto e antigos aliados.
Reinaldo chegou à Prefeitura dentro do mesmo campo político do ex-prefeito. Essa relação se rompeu e, nesta última semana, o atual prefeito participou de podcasts e entrevistas relatando sua versão sobre as dificuldades de convivência política com Felipe e os motivos do afastamento.
Essas críticas pertencem a Reinaldo e precisam ser tratadas como a versão do atual prefeito sobre o rompimento.
Mas existe um fato político que considero impossível ignorar: Felipe chega a 2026 muito mais distante de parte da classe política municipal do que estava quando deixou a Prefeitura.
Discussões públicas e rompimentos com antigos aliados também ganharam espaço nas redes sociais ao longo desse processo.
Independentemente de quem tenha razão em cada episódio, a consequência eleitoral será mensurável neste domingo.
Felipe possui recall popular.
Mas recall e estrutura política não são a mesma coisa.
Análise | Gabrielle Tricanico
Minha leitura para São Sebastião parte justamente dessa diferença.
Não espero uma disputa equilibrada de votos entre Felipe Augusto e Maurício Neves dentro da cidade.
Felipe carrega oito anos de Prefeitura. Seria equivocado ignorar o peso desse patrimônio eleitoral.
O que quero observar na apuração é quanto desse patrimônio continua intacto.
Maurício parte de outro lugar. Vai para a eleição buscando o segundo mandato, chega respaldado pela atuação parlamentar, possui estrutura partidária e conta com cinco vereadores em São Sebastião.
Não tem o mesmo recall de Felipe, mas deverá alcançar uma parcela importante desse eleitorado e, principalmente, disputar segmentos que hoje não estão mais automaticamente alinhados ao ex-prefeito.
E Maurício não está sozinho nesse processo.
Quando Reinaldo abre a cidade para Renata Abreu, Marcos Pereira, Paulo Alexandre Barbosa e outros nomes, o que vejo é um eleitorado federal sendo repartido em várias frentes.
Esse movimento pode ser muito mais prejudicial a Felipe do que uma suposta disputa individual com Maurício.
Porque a política nem sempre funciona pela lógica de um adversário tirar 20 mil votos de outro.
Às vezes, cinco forças diferentes retirando três, quatro ou cinco mil votos cada uma são suficientes para modificar completamente uma eleição.
É essa conta que precisa ser feita em São Sebastião.
Felipe será testado pelo voto pessoal
Existe, portanto, um cenário muito interessante.
Se Felipe conseguir uma votação extremamente expressiva mesmo sem vereadores alinhados ao seu projeto e enfrentando vários candidatos federais entrando na cidade, teremos uma demonstração inequívoca de que seu capital eleitoral é fortemente pessoal.
Isso terá enorme peso para 2028.
Por outro lado, se o recall de oito anos de Prefeitura não se converter no volume de votos esperado, teremos um sinal de que a reorganização política ocorrida depois de sua saída do governo conseguiu atingir parte dessa base.
Nesse caso, não será necessariamente Maurício quem terá retirado esses votos.
Será o conjunto do novo desenho político.
Essa distinção é fundamental.
Maurício será testado pela capacidade de transformar entrega em voto
Maurício enfrenta uma prova diferente.
Depois de quatro anos de mandato, a urna mostrará se os recursos, a interlocução e a presença política construída junto ao município foram percebidos pelo eleitor.
Essa talvez seja a conta mais importante para um parlamentar.
Deputado não administra diretamente a cidade. Seu trabalho passa por Brasília, emendas, articulação, votação de projetos e interlocução com governos e municípios.
Portanto, neste domingo será possível medir se a entrega parlamentar conseguiu chegar à ponta e se transformar em reconhecimento eleitoral.
No caso de Maurício, também será importante observar seu desempenho fora de São Sebastião.
Um deputado federal precisa construir votação estadual.
Por isso, Caraguatatuba, Ubatuba e Ilhabela ajudarão a mostrar quanto de sua presença no Litoral Norte se transformou em uma base regional.
A eleição também mede Reinaldo Moreira
Há uma terceira conta em São Sebastião: Reinaldo.
Se o prefeito decidiu trabalhar politicamente com diferentes candidatos federais, sua força não poderá ser medida pelo resultado de apenas um nome.
Será necessário somar e analisar o comportamento desse conjunto.
Quanto Renata Abreu consegue?
Quanto Marcos Pereira consegue?
Quanto Paulo Alexandre consegue?
Quanto Maurício consegue dentro de sua própria estrutura?
E quanto sobra concentrado em Felipe?
Esse mapa permitirá compreender quem realmente controla segmentos do eleitorado sebastianense depois da ruptura do antigo grupo político.
Por isso, considero que São Sebastião terá uma das apurações politicamente mais sofisticadas do Litoral Norte.
Não teremos apenas uma disputa entre candidatos.
Teremos recall contra estrutura, voto pessoal contra articulação política e concentração contra pulverização.
Caraguatatuba será decisiva para medir força regional
Com 105.586 eleitores, Caraguatatuba é o maior colégio eleitoral do Litoral Norte.
Será ali que poderemos identificar quais candidatos conseguiram deixar de ser essencialmente municipais.
Para nomes de São Sebastião, Ubatuba ou Ilhabela, conquistar uma votação relevante em Caraguatatuba significa entrar em um território eleitoral com lideranças próprias e disputar o maior contingente de votos da região.
Também será importante observar quanto do eleitorado de Caraguatatuba ficará com candidatos ligados ao próprio Litoral Norte.
Ubatuba pode funcionar como fiel da balança
Ubatuba possui 78.184 eleitores e representa mais de um quarto de todo o eleitorado regional.
Somada a Caraguatatuba, concentra cerca de 65% dos votos disponíveis no Litoral Norte.
É impossível falar em construção de liderança regional sem observar essas duas cidades.
Ubatuba mostrará principalmente quais candidatos conseguiram atravessar as fronteiras municipais e construir reconhecimento em um eleitorado diferente de sua base original.
Ilhabela mede o peso de suas lideranças
Ilhabela possui 31.192 eleitores e o menor colégio eleitoral da região, mas apresenta outra disputa importante.
Nomes conhecidos da política municipal, como o ex-prefeito Manoel Marcos e João Colucci, tentam transformar trajetórias locais em representação estadual e federal.
A votação mostrará quanto do eleitorado permanecerá concentrado em nomes da ilha e quanto migrará para candidaturas de outros municípios.
Em uma eleição proporcional, alguns milhares de votos podem decidir uma cadeira.
A urna de 2026 começa a desenhar 2028
Depois das 17h, os partidos terão em mãos algo muito mais importante do que pesquisas: votos reais.
Saberemos quem tem voto próprio, quem depende de estrutura, quem consegue transferir apoio e quais lideranças conseguem ultrapassar os limites de seus municípios.
Em São Sebastião, quero observar especialmente quanto do eleitorado continua pessoalmente ligado a Felipe Augusto, quanto Maurício conseguiu construir a partir de seu mandato e quanto o campo político organizado em torno de Reinaldo conseguiu distribuir entre diferentes candidatos.
Essa fotografia terá impacto direto sobre 2028.
Não significa antecipar quem será candidato a prefeito daqui a dois anos.
Significa descobrir quem chegará à mesa de negociação com voto.
E, na política, esse é um dos ativos mais importantes.
2028 não será decidido neste domingo. Mas seu primeiro grande mapa será produzido pelas urnas de 2026.
A Guardiã acompanha a apuração ao vivo a partir das 17h
A partir das 17h, com o encerramento da votação, A Guardiã da Notícia inicia sua cobertura especial da apuração das Eleições 2026, com nosso time de jornalistas e comentaristas acompanhando os resultados em tempo real.
No Litoral Norte, vamos analisar Caraguatatuba, Ubatuba, São Sebastião e Ilhabela cidade por cidade, identificando quem concentrou votos, quem conseguiu avançar regionalmente e qual será o tamanho da representação da região na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Em São Sebastião, nossa análise irá além de simplesmente colocar Maurício Neves e Felipe Augusto frente a frente.
Vamos medir o tamanho do recall de Felipe, quanto Maurício transformou sua atuação parlamentar em votos, como Renata Abreu, Marcos Pereira, Paulo Alexandre e outros candidatos fragmentaram o eleitorado e qual foi a capacidade do grupo político de Reinaldo Moreira de transferir apoio.
Porque, para mim, a grande pergunta deste domingo não é apenas quem ganhou ou perdeu.
É quem continua tendo poder eleitoral, quem conquistou novos espaços e como essa nova distribuição de forças começa a desenhar São Sebastião e todo o Litoral Norte para 2028.
A eleição nacional começa na sua cidade. A Guardiã da Notícia — jornalismo regional com alcance global.
