Justiça Eleitoral registra 149 processos entre janeiro e agosto de 2026, contra 31 no mesmo período de 2024; avanço das denúncias amplia o alerta sobre a participação feminina na política às vésperas das eleições gerais
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | BRASIL
A violência política contra mulheres atingiu um patamar recorde no Brasil em 2026. Entre janeiro e agosto, 149 processos relacionados à violência política de gênero foram autuados na Justiça Eleitoral. No mesmo período de 2024, último ano eleitoral, haviam sido registrados 31. A comparação representa crescimento de aproximadamente 380%.
O número ganha ainda mais relevância porque 2026 é ano de eleições gerais, quando o país escolhe presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. O aumento dos registros ocorre justamente em um período de maior exposição de candidatas, parlamentares e outras mulheres que participam diretamente da disputa política.
A evolução dos dados indica que o crescimento não está restrito a uma única eleição. Nos oito primeiros meses de 2022 foram seis registros; em 2023, 13; em 2024, 31; em 2025, 68; e, em 2026, o número chegou a 149 entre janeiro e agosto.
Os dados, no entanto, precisam ser interpretados corretamente. Os números representam processos registrados na Justiça Eleitoral, e não necessariamente 149 vítimas diferentes ou 149 episódios já julgados e comprovados.
Da mesma forma, o crescimento de 380% nos processos não significa, isoladamente, que a ocorrência real da violência política tenha aumentado exatamente na mesma proporção. Maior conhecimento da legislação, ampliação dos mecanismos de denúncia e identificação dessas condutas também podem contribuir para o crescimento dos registros.
O que é violência política de gênero
A legislação brasileira estabelece mecanismos para combater condutas direcionadas contra mulheres no exercício de seus direitos políticos.
Entre as práticas que podem caracterizar violência política de gênero estão situações de assédio, constrangimento, humilhação, perseguição e ameaça quando relacionadas à condição de mulher e destinadas a impedir ou dificultar uma candidatura ou o desempenho de um mandato.
A violência pode ocorrer durante uma campanha eleitoral, dentro dos partidos, nos parlamentos ou durante o exercício de funções públicas.
O problema também ultrapassa os plenários das câmaras municipais, assembleias legislativas e do Congresso Nacional. Redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas digitais ganharam papel central nas campanhas eleitorais e também se tornaram ambientes em que ataques contra mulheres que participam da política podem alcançar grande repercussão.
Eleições 2026 ampliam exposição
Com a campanha eleitoral de 2026 em andamento, candidatas a deputada estadual, deputada federal, Senado, governos estaduais e Presidência estão submetidas a um período de intensa exposição pública.
Além das candidatas, mulheres que já ocupam cargos eletivos, dirigentes partidárias, assessoras e lideranças políticas também podem ser atingidas por situações de intimidação e violência relacionadas à participação no ambiente político.
O crescimento dos processos registrados coloca o enfrentamento à violência política de gênero entre os temas que acompanham o atual processo eleitoral.
A Justiça Eleitoral tem ampliado mecanismos de prevenção, orientação, recebimento de denúncias e acompanhamento de episódios envolvendo mulheres na política. As medidas buscam fortalecer a identificação das condutas e facilitar o acesso das vítimas aos canais institucionais.
O impacto começa nas cidades
O debate também possui forte dimensão regional. É nos municípios que muitas mulheres iniciam sua trajetória política e estabelecem contato direto com a população.
Vereadoras, candidatas, dirigentes partidárias e lideranças comunitárias estão na linha de frente da política local e, consequentemente, submetidas a elevada exposição pública.
Câmaras municipais e disputas eleitorais locais são importantes portas de entrada para mulheres que posteriormente podem disputar vagas nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. A violência nesse ambiente, portanto, pode produzir consequências que ultrapassam uma única eleição.
O crescimento dos registros em 2026 reforça a necessidade de observar o problema também fora de Brasília. Nas cidades, ataques pessoais, intimidações, ameaças e tentativas de desqualificação podem interferir diretamente no exercício do mandato e na decisão de mulheres de permanecer ou ingressar na vida pública.
Em um ano no qual o eleitor brasileiro volta às urnas para definir a composição dos principais cargos políticos do país, os 149 processos registrados em apenas oito meses colocam a violência política contra mulheres como um dos desafios institucionais do processo eleitoral de 2026.
