Moradores começam a ver redes de água e esgoto chegarem ao bairro após uma espera que atravessou gerações; avanço expõe desigualdade histórica no acesso à infraestrutura básica no Grande ABC
Por Gabrielle Tricanico | GRANDE ABC | RIO GRANDE DA SERRA
Em uma das regiões mais urbanizadas e economicamente importantes do país, ainda existem famílias que atravessaram décadas esperando por algo elementar: água tratada chegando regularmente às casas e uma rede adequada para coleta de esgoto.
É essa realidade que começa a mudar no Jardim Nakamura, em Rio Grande da Serra.
Depois de cerca de 30 anos de espera, as obras de saneamento avançam no bairro e entram na etapa final para permitir a conexão dos imóveis. A intervenção envolve Prefeitura, Governo do Estado e Sabesp e deve resultar em 79 ligações de água e 117 ligações de esgoto.
Até agora, aproximadamente 600 metros de tubulação para abastecimento de água e outros 700 metros destinados ao esgotamento sanitário foram implantados. A colocação dos hidrômetros também já começou.
A previsão apresentada é de que o serviço possa chegar efetivamente aos moradores dentro de 15 a 20 dias. Antes disso, a nova rede de abastecimento deverá passar pelos procedimentos de lavagem e cloração para, posteriormente, serem realizadas as conexões com as residências.
Pressão por investimentos chega ao Estado
A execução das obras ocorre após articulações da administração do prefeito Akira Auriani com o Governo de São Paulo e a Sabesp para atender uma demanda antiga da comunidade.
Na sexta-feira (21), Auriani esteve no Jardim Nakamura acompanhado da secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, em uma visita técnica para verificar o andamento dos trabalhos.
O prefeito afirma que a estratégia da administração tem sido levar ao Estado demandas que Rio Grande da Serra não conseguiu solucionar ao longo dos anos e buscar investimentos para áreas historicamente carentes de infraestrutura.
No caso do Jardim Nakamura, entretanto, o significado da obra vai muito além dos metros de tubulação instalados.
O contraste dentro do Grande ABC
Rio Grande da Serra faz parte do Grande ABC, uma região marcada pela industrialização, pela geração de riqueza e por algumas das cidades de maior importância econômica do Estado de São Paulo.
A existência de um bairro esperando aproximadamente três décadas pela chegada de infraestrutura de água e esgoto revela o outro lado desse desenvolvimento regional.
Enquanto grandes projetos de mobilidade, desenvolvimento econômico e modernização urbana ocupam a agenda pública da Região Metropolitana, ainda há comunidades tentando conquistar serviços que deveriam estar na base de qualquer política pública.
Essa diferença precisa estar no centro do debate sobre saneamento.
ANÁLISE | Gabrielle Tricanico
Há anos acompanho as discussões sobre saneamento básico no Estado de São Paulo e existe uma pergunta que precisa ser feita diante de situações como a do Jardim Nakamura:
como uma comunidade da Região Metropolitana de São Paulo conseguiu permanecer aproximadamente 30 anos esperando por água e esgoto?
A obra que está sendo realizada merece ser registrada e a articulação que conseguiu destravar o investimento precisa ser reconhecida. Para as famílias beneficiadas, pouco importa quem deveria ter feito antes: elas querem abrir a torneira, ter água e saber que o esgoto de suas casas terá uma destinação adequada.
Mas é justamente aí que começa o papel crítico do jornalismo.
Quando uma administração anuncia que conseguiu levar saneamento a uma comunidade depois de três décadas, a notícia não pode ser somente a chegada da obra. Os 30 anos de ausência do poder público também são notícia.
Água tratada não deveria ser conquista extraordinária.
Esgoto não deveria depender de uma espera que atravessa gerações.
Saneamento significa prevenção de doenças, proteção dos mananciais, valorização dos bairros, preservação ambiental e, principalmente, dignidade.
Rio Grande da Serra possui características territoriais e ambientais que tornam determinadas intervenções mais complexas. Isso precisa ser considerado. Mas complexidade administrativa, ambiental ou operacional não pode transformar décadas de espera em algo aceitável.
Agora será necessário acompanhar a etapa mais importante: se os prazos serão cumpridos e se a infraestrutura instalada vai resultar, efetivamente, em água e coleta de esgoto dentro das casas.
A Guardiã da Notícia continuará acompanhando o saneamento básico em Rio Grande da Serra, no Grande ABC e no Estado de São Paulo, cobrando investimentos principalmente onde o básico ainda não chegou.
Porque, em 2026, água tratada e esgoto não podem ser tratados como privilégio.
