Ação do Gaeco e das polícias Civil e Militar investiga uso de empresas, imóveis e veículos para ocultar recursos de origem ilícita; Justiça determinou bloqueio de aproximadamente R$ 5 milhões em bens
Por Gabrielle Tricanico | VALE DO PARAÍBA | SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
Uma investigação sobre a movimentação de dinheiro do crime organizado por meio de negócios aparentemente legais colocou São José dos Campos no centro de uma nova ofensiva contra lavagem de capitais e agiotagem no Vale do Paraíba.
A Operação Strozzino foi deflagrada na manhã desta terça-feira (18) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em conjunto com a Polícia Civil e a Polícia Militar. A Justiça de São José dos Campos expediu cinco mandados de busca e apreensão. Também foram determinadas medidas cautelares, entre elas a indisponibilidade de bens dos investigados até o limite aproximado de R$ 5 milhões.
Dinheiro do crime teria migrado para negócios legais
O ponto central da investigação é a suspeita de que recursos obtidos ilegalmente tenham sido direcionados para setores formais da economia.
Segundo as apurações, integrantes de organizações criminosas atuantes em São José dos Campos teriam buscado atividades lícitas para movimentar e dar aparência de legalidade ao patrimônio. Entre os segmentos sob investigação estão a comercialização de veículos e de imóveis.
A suspeita é da utilização de empresas de fachada e negócios registrados em nome de terceiros, os chamados “laranjas”, mecanismo que pode dificultar a identificação dos verdadeiros beneficiários e o rastreamento da origem do dinheiro.
A investigação é conduzida conjuntamente pelo Gaeco e pelo Núcleo Especializado de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro (NECCOLD), da Polícia Civil. A operação contou ainda com participação da Polícia Militar.
Suspeita de ligação com integrantes do PCC amplia dimensão da investigação
Outro ponto relevante revelado pelas autoridades é o histórico atribuído ao homem apontado como líder da organização investigada.
Segundo as apurações, ele possui relação com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e já havia sido alvo da Operação Gênesis, deflagrada em setembro de 2021.
A informação amplia a dimensão da apuração porque a investigação não se limita a operações financeiras isoladas. O que as autoridades procuram identificar é uma possível estrutura organizada capaz de conectar atividades criminosas à economia formal.
A existência da investigação e das medidas judiciais, entretanto, não representa condenação dos envolvidos. As responsabilidades individuais ainda dependem do avanço das apurações e, eventualmente, do devido processo judicial.
Agiotagem também está na mira
Enquanto uma parte dos recursos teria sido direcionada para negócios envolvendo veículos e imóveis, investigadores apontam que integrantes do grupo teriam permanecido diretamente ligados a atividades ilícitas.
Entre os crimes investigados está a usura, prática relacionada à cobrança ilegal ou abusiva de juros e popularmente associada à agiotagem, além da lavagem de dinheiro e de possíveis delitos relacionados à atuação de organização criminosa.
A combinação entre agiotagem, circulação de patrimônio e utilização de empresas em nome de terceiros é justamente um dos eixos que a Operação Strozzino tenta aprofundar.
Bloqueio de R$ 5 milhões mira patrimônio
Além das buscas, a Justiça autorizou medidas para atingir o patrimônio relacionado aos investigados. A indisponibilidade alcança aproximadamente R$ 5 milhões em bens, numa tentativa de impedir movimentações patrimoniais enquanto as investigações avançam.
A apreensão de documentos, registros financeiros, equipamentos eletrônicos e outros materiais durante as buscas poderá ajudar os investigadores a reconstruir a movimentação dos recursos e identificar eventuais participantes e beneficiários do esquema.
A Operação Strozzino abre agora uma nova etapa da investigação. O material recolhido deverá ser analisado para dimensionar a estrutura financeira do grupo, identificar a origem e o destino dos recursos e verificar a eventual participação de outras pessoas ou empresas.
Para São José dos Campos e o Vale do Paraíba, a investigação chama atenção para um dos desafios mais complexos no enfrentamento ao crime organizado: seguir o caminho do dinheiro e identificar quando recursos de origem criminosa atravessam a fronteira entre atividades clandestinas e negócios inseridos na economia formal.
