Áudios divulgados pela imprensa colocam no centro da investigação uma transferência atribuída à empresa responsável pelo Nór Hotel & Spa. Marina Issa confirmou ao Ministério Público a autenticidade das gravações, segundo reportagem, enquanto o caso amplia a pressão por esclarecimentos sobre a relação entre o empreendimento privado e a família do prefeito Guto Issa.
Por Gabrielle Tricanico | INTERIOR DE SÃO PAULO | SÃO ROQUE
Um depósito de R$ 400 mil na conta da filha do prefeito de São Roque, Guto Issa, colocou a administração de uma das principais cidades turísticas do interior paulista no centro de um caso que agora está sob investigação do Ministério Público de São Paulo.
Segundo informações divulgadas pelo jornalista Paulo Cappelli, do Correio da Manhã, Marina Issa afirmou ter recebido o dinheiro para a aquisição de um imóvel. O ponto que aumenta a relevância pública do episódio é a origem apontada para os recursos: a KRBM Nór, empresa responsável pelo empreendimento Nór Hotel & Spa, instalado em São Roque.
De acordo com a reportagem, novos áudios atribuídos a Marina indicam que o pai não queria que o dinheiro transitasse pela própria conta bancária e, por essa razão, teria orientado que o depósito fosse realizado diretamente na conta da filha.
A afirmação é especialmente sensível porque envolve, de um lado, um agente público no exercício do comando da Prefeitura e, de outro, uma empresa privada responsável por um empreendimento instalado no município durante sua gestão. Isso não significa, por si só, a existência de irregularidade. É justamente a origem do dinheiro, a finalidade da transferência e a natureza da relação financeira que precisam ser esclarecidas pela investigação.
Áudios entram no centro da apuração
O episódio ganhou uma nova dimensão após a discussão sobre a autenticidade das gravações.
Inicialmente, Guto Issa teria sustentado que os áudios poderiam ser fruto de deepfake. Posteriormente, segundo a publicação, Marina Issa reconheceu a autenticidade das gravações durante depoimento prestado ao Ministério Público paulista.
A confirmação, caso consolidada nos autos, muda o eixo da apuração: além de saber se as falas são verdadeiras, passa a ser fundamental compreender por que os R$ 400 mil foram transferidos, qual documentação amparou a operação e por que a conta da filha do prefeito teria sido utilizada.
Outro dado que chama atenção é a proximidade temporal relatada entre a constituição da empresa e a movimentação financeira. Conforme as informações divulgadas, a KRBM Nór foi aberta em agosto de 2022 e o repasse para Marina teria ocorrido no mês seguinte.
Caso tem peso especial em uma estância turística
Em São Roque, a investigação ultrapassa a esfera familiar justamente pela importância do setor turístico para a economia municipal.
Conhecida nacionalmente pela Rota do Vinho, a cidade vem ampliando sua rede de hospedagem, gastronomia e empreendimentos voltados ao turismo. Grandes projetos privados têm impacto direto sobre geração de empregos, valorização imobiliária e desenvolvimento econômico.
Por isso, qualquer investigação envolvendo a família do chefe do Executivo e uma empresa com empreendimento turístico na cidade exige transparência sobre eventuais relações administrativas, urbanísticas ou econômicas mantidas entre o grupo empresarial e o poder público.
Entre os pontos de interesse público estão a tramitação de licenças, alvarás, aprovações urbanísticas e demais procedimentos administrativos relacionados ao empreendimento. A existência desses procedimentos é normal e não representa irregularidade; sua análise, porém, pode ajudar a esclarecer se houve ou não qualquer tratamento incompatível com as regras aplicáveis aos demais investidores.
Investigação deve separar suspeitas de fatos comprovados
Até que o Ministério Público conclua a apuração, é necessário distinguir os elementos já tornados públicos das responsabilidades que ainda precisam ser demonstradas.
O recebimento do valor e a existência dos áudios, conforme relatados pela imprensa, são elementos relevantes para a investigação, mas não equivalem a uma condenação nem comprovam, isoladamente, a prática de crime ou irregularidade administrativa.
O ponto central agora é estabelecer documentalmente a origem dos R$ 400 mil, a justificativa econômica para o pagamento, quem eram os beneficiários efetivos da operação e se existiu alguma relação entre a movimentação financeira e atos praticados pelo poder público municipal.
Para São Roque, município cuja imagem e economia estão fortemente associadas ao turismo, o avanço das investigações coloca transparência, relação entre poder público e iniciativa privada e prestação de contas no centro do debate regional.
A Guardiã da Notícia acompanha o caso e considera essencial que todos os envolvidos tenham espaço para apresentar suas versões e documentos sobre os fatos investigados.
