Empreendimento de luxo em Cala Finanza perde autorização concedida em fevereiro. Decisão ocorre após mobilização popular, mudança de posição da prefeitura e disputa entre o governo italiano e a Região Autônoma da Sardenha.
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Por Gabrielle Tricanico | Internacional | Sardenha, Itália
O governo da Itália revogou a autorização que permitia o avanço do projeto turístico da empresa Tavolara Bay Srl, ligada ao grupo brasileiro JHSF, controlador da rede de hotéis Fasano, em Cala Finanza, no município de Loiri Porto San Paolo, na costa nordeste da Sardenha. A decisão representa uma reviravolta em um dos empreendimentos mais polêmicos do país e reforça a prioridade das autoridades italianas na proteção de áreas ambientalmente sensíveis.
O projeto previa a implantação de um empreendimento de hospedagem de luxo no modelo glamping — uma modalidade que combina camping com infraestrutura de alto padrão — em uma área de frente para a Ilha de Tavolara, cartão-postal da Sardenha e localizada ao lado da Área Marinha Protegida de Tavolara-Punta Coda Cavallo, considerada uma das regiões de maior biodiversidade do Mediterrâneo. Entre as intervenções previstas estavam a recuperação da histórica Villa Joy e a instalação de bangalôs de luxo removíveis, voltados ao turismo de alto padrão.
A autorização havia sido concedida em 6 de fevereiro deste ano por meio do regime especial da Zona Econômica Especial (ZES). No entanto, após a Prefeitura de Loiri Porto San Paolo revogar a resolução urbanística que sustentava juridicamente o projeto, o Departamento para o Sul da Presidência do Conselho de Ministros anulou automaticamente a licença, entendendo que deixou de existir o fundamento legal para sua manutenção.
A revogação ocorre poucos dias depois de manifestações que reuniram centenas de moradores, ambientalistas e representantes de organizações civis contrários ao empreendimento. Os protestos defendiam que o projeto colocaria em risco um dos trechos mais preservados do litoral da Sardenha, conhecido pelas águas cristalinas, ecossistemas marinhos e paisagens protegidas, além de abrir precedente para novas ocupações em áreas ambientalmente frágeis.
A presidente da Região Autônoma da Sardenha, Alessandra Todde, classificou a decisão como uma vitória institucional e ambiental. Segundo ela, a revogação confirma que o Plano Paisagístico Regional e o Estatuto Especial da Sardenha devem prevalecer na gestão do território. A governadora ressaltou que a região não é contrária a investimentos privados, mas defende que qualquer empreendimento respeite integralmente a legislação urbanística e ambiental vigente.
Em nota oficial, a Tavolara Bay Srl afirmou estar “profundamente perplexa” com a decisão. A empresa sustenta que seguiu rigorosamente todos os procedimentos legais durante o processo de licenciamento e informou que, junto com sua equipe jurídica, estuda as medidas administrativas e judiciais cabíveis para tentar reverter a revogação. Também manifestou preocupação com a insegurança jurídica criada pela mudança de entendimento das autoridades italianas.
O caso ganhou repercussão nacional na Itália por envolver um dos maiores grupos brasileiros do setor imobiliário e de hotelaria de luxo e por evidenciar o crescente conflito entre desenvolvimento turístico, preservação ambiental e autonomia regional. Especialistas avaliam que a decisão poderá servir de referência para futuros empreendimentos previstos em áreas de proteção ambiental no país.
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