COMPARTILHE COM:
Search

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Início » Notícias da Guardiã » ARTIGO DE OPINIÃO: GROENLÂNDIA E TAIWAN: O RETORNO DO MUNDO “NU E CRU”
Anuncie Conosco

ARTIGO DE OPINIÃO: GROENLÂNDIA E TAIWAN: O RETORNO DO MUNDO “NU E CRU”

POR GABRIEL ALBANÊS, ESPECIALISTA EM GEOPOLÍTICA

O mundo está mudando, e rápido. A arquitetura que, por décadas, conteve impulsos de força e ajudou a transformar crises em negociação agora parece menos capaz de impor limites. Não porque o Direito Internacional tenha “sumido”, mas porque ele tende a funcionar mais como balizador mínimo do que como regulador último. Ele ainda oferece linguagem e previsibilidade. Só que, quando os grandes decidem que um interesse é vital, a realidade do poder volta a falar mais alto.

Na semana passada, ao escrever sobre a Venezuela e a prisão de Maduro pelos EUA, eu já apontava esse deslocamento. De lá para cá, o mundo não ficou mais estável: ficou apenas mais explícito.

A Groenlândia apareceu como peça central do tabuleiro do Ártico. Não é uma discussão romântica sobre mapas. É geografia militar, presença, acesso, rota, projeção. Quando se ventila a possibilidade de “resolver” a questão por meios de coerção, o sinal não é apenas sobre a ilha; é sobre a época. Quebra-se um tabu, e outros atores recalculam.

A Europa reage com protestos e reafirmações de soberania, como era de se esperar. Mas a pergunta decisiva é: até onde o Velho Continente irá quando o assunto envolve o pilar central de sua segurança? A Dinamarca, nessa lógica, tem razão jurídica e legitimidade, mas não tem massa crítica para impor custos equivalentes a uma potência. O mais provável, portanto, não é ruptura, uma tomada à força, mas sim a acomodação. Preserva-se a forma, altera-se a substância: mais prerrogativas, mais infraestrutura, mais exclusividade para os EUA e, no fim, um fato consumado.

Taiwan é ainda mais perigoso, porque ali não se discute só um território. Discute-se credibilidade, dissuasão, tecnologia, cadeias produtivas, liderança regional e, sobretudo, esfera de influência. A China considera Taiwan parte de “uma só China” e, por muito tempo, tolerou a ambiguidade porque certos movimentos custavam caro demais. Mas o que acontece quando esse ambiente muda? Quando a linguagem da força se normaliza, quando testes de limite viram rotina, quando o custo passa a parecer administrável? O sonho chinês de reunificação não é mero detalhe: é núcleo de legitimidade e projeto histórico. Se a ordem se torna mais permissiva com fatos consumados, a tentação de agir cresce.

É aí que as esferas de influência voltam sem pudor algum. E voltam como zonas de garantia, linhas vermelhas informais, contratos de segurança. O multilateralismo como teoria e plano de governo continuará a existir, mas, em muitos casos, vira mais rito do que freio, útil para administrar o que sobrou, menos eficaz para impedir o que está vindo.

A Europa, pressionada, buscará coesão. França e Alemanha tendem a ocupar o centro do palco por necessidade e por história. Mas a unidade real exige voz única, prioridade clara e capacidade de ação. E aqui a velha pergunta reaparece, como cobrança histórica: “Quando eu quero falar com a Europa, ligo para quem?”, como disse Kissinger.

E o Brasil? O Brasil orientou sua vocação diplomática para o multilateralismo, embora pessoalmente tenhas críticas ao modo como o fez. Mas o fato é que foi no sistema de regras que abraçamos que transformamos legitimidade, tamanho e tradição diplomática em influência prática. Mas num mundo de esferas, a pergunta se torna cruel: como sustentar princípios sem instrumentos? Como defender regras quando as regras viram apenas conveniência? Como falar em autonomia se a autonomia não vier acompanhada de relevância material?

Não se trata de abandonar valores. Trata-se de amadurecê-los para o mundo que, a cada dia, torna-se mais real e menos teórico e voltado a princípios. Até porque princípios sem capacidade de impor relevância viram repetição vazia. A transição exige lucidez estratégica, escolhas menos confortáveis, proteção de interesses nacionais sem retórica panfletária, e um entendimento simples: quem não se adapta perde espaço e paga o preço.

E quando o Brasil quiser falar com o mundo que está nascendo? Ele ligará para quem?

Anuncie Conosco