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O BRASIL COMEÇOU 2026 MATANDO MULHERES — E ISSO NÃO É COINCIDÊNCIA

Por Camila Cabral

O ano virou.
Os fogos estouraram.
As promessas foram feitas.

E, enquanto o Brasil celebrava, mulheres morriam.

A primeira semana de 2026 não começou apenas com números alarmantes. Começou com nomes, histórias interrompidas e crianças traumatizadas. Bruna, Eva Sophia, Carla, Gislaine. Mulheres assassinadas por homens que já haviam ameaçado, descumprido medidas protetivas ou simplesmente ignorado qualquer limite moral ou legal.

Isso não é uma sequência de tragédias isoladas.
É um padrão.

Quando a violência já havia sido anunciada

Bruna Aline foi morta a facadas pelo ex-marido, na frente de sete crianças. Eva Sophia, uma adolescente de 16 anos, foi assassinada pelo ex-namorado. Carla Carolina tinha medida protetiva ativa, ignorada pelo agressor. Gislaine Beatriz, bombeira civil, deixou um filho de 10 anos.

Em comum, todas tinham algo que o sistema insiste em desconsiderar: histórico de risco.

Essas mulheres avisaram. Denunciaram. Pediram ajuda. E mesmo assim morreram.

Como empresária, vejo mulheres todos os dias sentarem na cadeira do meu salão em busca de beleza, mas carregando nos olhos o medo, a tensão e a exaustão de quem vive em alerta constante. Como presidente de uma associação de acolhimento, escuto histórias que raramente viram manchete. E como comunicadora, afirmo com responsabilidade: o feminicídio é previsível.

Ele quase nunca acontece “do nada”.

Medida protetiva não pode ser peça decorativa

Quando uma mulher consegue uma medida protetiva, ela acredita — ou quer acreditar — que está segura. Mas os dados e os corpos enterrados mostram outra realidade: o papel não impede o agressor de puxar o gatilho ou desferir a faca.

Se a lei não chega antes da violência, ela chega tarde demais.

O caso de Carla Carolina escancara isso. Ter uma medida protetiva ignorada é a prova de que não basta legislar. É preciso executar, fiscalizar e agir rapidamente. Cada descumprimento deveria ser tratado como emergência máxima, não como burocracia.

Crianças que assistem a feminicídios também são vítimas

Talvez uma das faces mais cruéis desses crimes seja o fato de muitos acontecerem na frente dos filhos. Crianças que veem suas mães serem assassinadas carregam marcas que não aparecem em estatísticas, mas moldam toda uma vida.

Que sociedade estamos construindo quando normalizamos que uma criança assista à morte da própria mãe?

O feminicídio não termina no corpo da mulher. Ele se espalha pela família, pela comunidade e pelas próximas gerações.

A violência começa antes do último golpe

Há um avanço importante no Congresso que precisa ser dito com clareza: o projeto que extingue as chamadas escusas absolutórias em crimes patrimoniais cometidos no contexto de violência doméstica.

Traduzindo: destruir o celular da mulher, controlar seu dinheiro, quebrar seus bens, impedir que trabalhe também é violência — e também mata.

Muitas mulheres não conseguem sair porque estão financeiramente aprisionadas. E aqui falo com propriedade: independência financeira salva vidas. Empreender, trabalhar, gerar renda não é apenas realização profissional. Para muitas, é a única saída possível.

Autoestima não é vaidade. É sobrevivência.

Existe um discurso perigoso que desvaloriza temas como autoestima, autocuidado e beleza. Mas quem trabalha diretamente com mulheres sabe: quando uma mulher se fortalece internamente, ela começa a romper externamente.

Autoestima não impede um agressor, mas fortalece uma mulher para buscar ajuda, romper ciclos e reconstruir a própria vida.

Beleza, quando tratada com consciência, é ferramenta de dignidade. É resgate de identidade. É reconexão com o próprio valor.

Quatro mulheres mortas por dia não é fatalidade. É negligência.

Os dados consolidados de 2025 mostram que o Brasil segue com uma média de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Durante feriados e períodos de isolamento, as denúncias aumentam. O risco cresce dentro de casa.

Isso exige políticas públicas eficazes, rede de apoio fortalecida, educação emocional e responsabilização real dos agressores.

Mas exige também algo que não podemos terceirizar: posicionamento social.

Se uma mulher cai, todas nós perdemos

Como mulher, empreendedora, líder social e comunicadora, afirmo: não dá mais para aceitar isso como rotina. Não dá para ler essas notícias e seguir a vida normalmente.

Cada mulher assassinada é uma falha coletiva. Do Estado, sim. Mas também de uma sociedade que ainda relativiza, silencia e normaliza.

O Brasil não começou 2026 em festa.
Começou em luto.

E enquanto não tratarmos o feminicídio como prioridade absoluta, continuaremos virando o calendário e enterrando mulheres.

Nenhuma a menos.
Nenhuma invisível.
Nenhuma esquecida.


Camila Cabral
Empreendedora | Líder social | Comunicadora
Colunista

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