Por Gabrielle Tricanico | A Guardiã da Notícia
O discurso do deputado federal Fausto Pinato (Progressistas-SP), proferido nesta quarta-feira no plenário da Câmara dos Deputados, vai além da polêmica. Ele escancara, de forma crua e sem filtros, o retrato de um Brasil politicamente exausto, moralmente tensionado e institucionalmente fragilizado.
Não foi apenas uma fala exaltada. Foi um desabafo político que misturou crítica à esquerda, ataques à direita radical, denúncias de hipocrisia religiosa e uma defesa quase angustiada de um centro político que, hoje, mais se apresenta como abrigo retórico do que como projeto de poder.
Vivemos um momento em que a política deixou de ser debate de ideias para se transformar em disputa moral. A fé virou palanque. O púlpito virou comitê eleitoral. A indignação passou a ser método. E o diálogo, exceção.
O deputado toca em pontos sensíveis e reais. A instrumentalização da religião na política existe. O uso do discurso religioso como ferramenta eleitoral tem produzido intolerância, radicalização e ruptura social. A hipocrisia de parte das lideranças religiosas também não é novidade, tampouco exclusividade de um credo específico.
O problema não está em denunciar essas contradições. Está na forma como se faz isso.
Quando a crítica abandona o campo institucional e escorrega para generalizações, exageros e ataques morais amplos, ela perde força política. Verdade mal dita vira ruído. O argumento se enfraquece e a discussão se desloca do estrutural para o sensacional.
Outro eixo central do discurso é a tentativa de reafirmação do chamado “centro”. Mas o centro apresentado ali não surge como projeto político estruturado. Surge como reação ao caos. Como refúgio diante dos extremos. E isso é sintomático do Congresso atual: muitos parlamentares não querem ser esquerda nem direita, mas poucos estão dispostos a liderar uma alternativa real, com agenda clara, custo político assumido e compromisso programático.
O centro não pode ser apenas o lugar de quem critica todos. Precisa ser o espaço de quem constrói consensos e apresenta caminhos.
Ao atacar o bolsonarismo, Pinato acerta ao reafirmar que golpismo não é opinião, é ruptura democrática. No entanto, ao declarar esse movimento “enterrado”, ignora-se um dado essencial da realidade política: ele segue vivo socialmente, alimentado pelo ressentimento, pela desinformação e pelo vazio deixado pela ausência de uma direita democrática organizada.
Enterrar sem substituir cria vácuo. E vácuos políticos nunca permanecem vazios por muito tempo.
O discurso também revela uma leitura perigosa quando associa pobreza, criminalidade e natalidade sob um viés mais moral do que estrutural. O problema do Brasil não é o número de filhos nas periferias. É a ausência do Estado, a desigualdade histórica, a falha educacional e a falta de políticas públicas contínuas. Simplificar esse cenário é deslocar a responsabilidade institucional para o indivíduo.
Há, sim, reconhecimento de avanços da esquerda, especialmente em educação e acesso ao ensino superior. Mas o discurso escorrega ao repetir narrativas moralistas típicas da direita, mesmo enquanto critica seus excessos. O resultado é um paradoxo: rejeita os extremos, mas absorve os vícios dos dois.
A nostalgia do embate PSDB versus PT não é saudosismo partidário. É saudade de um tempo em que havia confronto de ideias, modelos de Estado em disputa e previsibilidade institucional. Hoje, esse espaço foi tomado por gritos, lacração, culto à personalidade e militância de rede social. A democracia perdeu densidade.
No fim, o discurso traduz um sentimento coletivo: a percepção de que algo está profundamente errado. Mas política não se sustenta apenas em diagnóstico e indignação. Liderança exige proposta, responsabilidade, gesto e capacidade de pactuação.
O Brasil não precisa de discursos mais agressivos. Precisa de menos hipocrisia, menos uso da fé como arma política, menos demonização das instituições e mais coragem para reconstruir pontes.
Enquanto liberdade for confundida com afronta, fé com poder, centro com omissão e franqueza com brutalidade, o país seguirá refém do barulho, não do diálogo.
E democracia não se sustenta no grito.
Se sustenta na responsabilidade.
