A tragédia de Itumbiara expõe como o discurso do “bom pai” e do “cidadão exemplar” ainda serve de escudo social para violências extremas contra mulheres e crianças no Brasil.
Por Camila Cabral
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A tragédia que paralisou Itumbiara nesta semana — em que o secretário de governo Thales Naves Machado assassinou o filho Miguel, de 12 anos, tentou tirar a vida do caçula e, em seguida, se suicidou — não pode, em hipótese alguma, ser tratada como um “drama familiar”.
Classificar o ocorrido dessa forma é mais do que um erro semântico: é uma violência simbólica que protege o agressor e silencia as vítimas.
A farsa do amor exibido
Horas antes dos disparos, o agressor publicou vídeos de afeto nas redes sociais. O “pai amoroso” cuidadosamente encenado tornou-se seu último álibi público. Na lógica da violência vicária, amplamente estudada por Sonia Vaccaro, os filhos não são vítimas colaterais — são instrumentos. Instrumentos usados para punir a mulher que ousou romper, dizer não ou sair do controle.
Não foi amor.
Foi castigo.
Foi vingança.
O mito do “bom pai” e a blindagem social
A criminologia e a psicologia forense são claras: o filicídio por vingança contra a mãe é o ponto máximo do controle narcisista. Um homem que mata crianças enquanto dormem nunca foi um “bom pai”. Foi apenas um agressor socialmente bem-vestido.
O cargo público, a reputação e as conexões políticas funcionam, muitas vezes, como anestesia coletiva. A sociedade prefere acreditar no personagem do “homem de bem” do que ouvir mulheres, crianças e sinais desconfortáveis.
Como alerta Debora Diniz, quando há planejamento — escolha do momento, ausência da mãe, construção prévia de narrativa — não existe surto. Existe intenção.
O suicídio como último ato de violência
Ao tirar a própria vida, o agressor cometeu seu derradeiro gesto de poder: negou à mãe qualquer possibilidade de justiça, julgamento ou responsabilização. O suicídio, nesses casos, não é arrependimento. É controle até o fim.
O que fica depois do gatilho
Enquanto a cidade decreta luto oficial, uma mulher precisa aprender a respirar em meio ao irreparável. E nós, enquanto sociedade, precisamos parar de romantizar monstros e começar a proteger vítimas.
Não é aceitável que o “direito de convivência” de um pai violento seja colocado acima da vida de uma criança. Não é aceitável que a palavra “separação” ainda seja vista como gatilho justificável para a barbárie masculina.
Falo também como mãe. Vigilância não é exagero — é sobrevivência. Mudanças bruscas de comportamento, silêncios prolongados, medo de ficar sozinho com determinados adultos nunca são “fase”. São alertas.
O caso de Itumbiara não é isolado. Ele é sintoma de um país que ainda relativiza a violência quando ela vem vestida de status, poder e aparência de normalidade.
Justiça por Miguel.
Proteção pelas que ficam.
O silêncio mata.
A informação salva.
