Segundo Vincenzo Pasquino, reunião na capital paulista em 2018 teria consolidado parceria para dividir o financiamento de carregamentos e abastecer o mercado italiano.
Por Gabrielle Tricanico | SEGURANÇA PÚBLICA | SÃO PAULO
Uma reunião em São Paulo teria aproximado o Primeiro Comando da Capital (PCC) de grupos da ’Ndrangheta, a máfia originária da Calábria, no sul da Itália, para financiar conjuntamente carregamentos de cocaína destinados ao mercado italiano. O relato é do italiano Vincenzo Pasquino, que se tornou colaborador da Justiça e descreveu uma divisão de investimentos entre os parceiros brasileiros e europeus.
Segundo os depoimentos reproduzidos pela imprensa italiana, o encontro ocorreu em 2018 e estabeleceu que cada lado bancaria 50% das remessas abrangidas pelo acordo. A informação coloca a capital paulista como local de articulação de uma parceria que, conforme o colaborador, conectava financiamento no Brasil, transporte internacional e distribuição de drogas na Itália.
O papel de São Paulo na conexão entre PCC e máfia italiana
O ponto central do relato é a participação atribuída ao PCC no financiamento das operações. Pela versão de Pasquino, os integrantes da facção e os parceiros italianos compartilhavam o capital necessário para viabilizar os carregamentos.
Nesse modelo, as organizações dividiam a exposição financeira de cada remessa e participavam de diferentes etapas do negócio criminoso. Pasquino afirmou que sua função era garantir a transferência dos recursos envolvidos nas negociações.
A descrição indica uma relação mais estruturada do que uma compra pontual de entorpecentes: um acordo recorrente de financiamento e comercialização, conforme a narrativa apresentada pelo colaborador.
Porto italiano seria a porta de entrada dos carregamentos
De acordo com Pasquino, a cocaína chegava à Itália pelo porto de Gioia Tauro, na Calábria. Grupos ligados a San Luca, Guardavalle e Turim participariam da rede responsável pela recepção e comercialização dos carregamentos em território italiano.
O relato conecta, assim, a reunião atribuída a São Paulo a uma estrutura de distribuição do outro lado do Atlântico. Enquanto o acordo seria articulado no Brasil, os parceiros europeus utilizariam seus contatos e sua presença territorial para encaminhar a droga aos compradores.
As declarações foram divulgadas em reportagens sobre os desdobramentos do caso Eureka, investigação internacional de combate à ’Ndrangheta.
Valores relatados revelam a dimensão financeira do esquema
Pasquino declarou que o PCC negociava cocaína com os parceiros italianos por valores entre 5 mil e 5,5 mil euros por quilo. Para a parcela da droga pertencente à facção e comercializada na Itália, o preço mínimo combinado ficaria entre 23 mil e 25 mil euros por quilo.
Os números ajudam a dimensionar o interesse econômico na conexão entre o tráfico brasileiro e o mercado europeu. Entretanto, a diferença entre os preços não representa lucro líquido: transporte, intermediação, perdas e outros custos interferem no resultado de cada operação.
Também é necessário delimitar o alcance da denúncia: a divisão de 50% mencionada pelo colaborador diz respeito aos carregamentos incluídos no suposto acordo. Ela não permite afirmar que o PCC financiava metade de toda a cocaína consumida na Itália ou na Europa.
Depoimentos tratam de um acordo de 2018
Embora o conteúdo tenha voltado a circular nas redes sociais, a reunião narrada por Pasquino teria ocorrido em 2018. As informações devem ser compreendidas como parte da reconstrução de operações anteriores, sem indicar, por si só, que o mesmo modelo permanece em funcionamento atualmente.
Para São Paulo, o destaque regional está no papel atribuído à capital como espaço de negociação entre criminosos brasileiros e representantes de grupos italianos. O material apresentado não identifica o endereço do encontro nem permite estender a denúncia a municípios do Grande ABC, Alto Tietê ou Litoral Norte.
O relato de Pasquino expõe uma dimensão internacional do crime organizado com ponto de articulação em território paulista. As acusações específicas, contudo, precisam ser distinguidas dos fatos comprovados judicialmente e analisadas à luz das demais provas reunidas pelas autoridades.
