Prefeito não lançou nome exclusivo para deputado federal, manteve diálogo com diferentes forças e termina a eleição fortalecido; votação pulverizada e desempenho de Felipe Augusto redesenham o tabuleiro político da cidade
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO SEBASTIÃO
As urnas de São Sebastião produziram muito mais do que um ranking de candidatos a deputado federal. Elas revelaram uma nova correlação de forças no município e, na minha análise, apontaram um vencedor que sequer estava na cédula: o prefeito Reinaldo Moreira (Republicanos), o Reinaldinho.
E justamente porque ele não lançou um candidato próprio.
Reinaldinho não transformou a Prefeitura em instrumento para concentrar votos em um único nome. Diferentes candidaturas encontraram espaço político na cidade, enquanto o eleitor teve liberdade para escolher.
O resultado foi uma pulverização importante dos votos e uma demonstração de que nenhum grupo controla sozinho o eleitorado sebastianense.
Felipe liderou, mas ficou abaixo de 20%
Felipe Augusto (PSDB), prefeito de São Sebastião por oito anos, terminou como o candidato a deputado federal mais votado no município, com 9.534 votos, ou 19,50% dos votos válidos para o cargo.
O primeiro lugar precisa ser reconhecido. Mas ele não conta sozinho toda a história.
Felipe foi eleito prefeito em 2016 com 19.924 votos e reeleito em 2020 com 23.501. Agora, concorrendo a deputado federal em seu principal reduto eleitoral, recebeu 9.534 votos.
Embora eleições majoritárias e proporcionais sejam diferentes e não permitam uma comparação direta, o dado tem peso político: Felipe recebeu agora o equivalente a cerca de 40,6% da votação que conquistou na eleição municipal de 2020.
Foram 13.967 votos a menos.
Depois de oito anos administrando São Sebastião, com alto grau de conhecimento entre os eleitores e duas eleições majoritárias no currículo, Felipe não conseguiu converter esse recall em força suficiente para chegar à Câmara dos Deputados.
Pavanato mostra o tamanho da dispersão
Lucas Pavanato (PL) terminou em segundo lugar na votação para deputado federal em São Sebastião, com 5.587 votos, ou 11,43%.
O número chama atenção porque Pavanato, sem ter administrado o município, alcançou sozinho quase 59% da votação obtida pelo ex-prefeito.
Maurício Neves (PP) aparece na sequência, com 3.758 votos, ou 7,69%, enquanto Erika Hilton (PSOL) recebeu 3.154 votos, equivalentes a 6,45%.
Somente Pavanato, Maurício e Erika somaram 12.499 votos, superando em quase 3 mil votos a votação individual de Felipe Augusto.
É uma demonstração objetiva de como o eleitorado se espalhou.
Reinaldinho abriu várias portas em vez de apostar em apenas uma
É neste ponto que está, para mim, a principal vitória política de Reinaldinho.
O prefeito não precisava ter “o seu deputado”. Sua estratégia permitiu a construção de pontes com diferentes forças políticas.
Renata Abreu (Podemos) recebeu 1.349 votos em São Sebastião. Rodrigo Gambale (Podemos), 932. Marcos Pereira (Republicanos), 814. Paulo Alexandre Barbosa (PSD), 635.
Os quatro somaram 3.730 votos no município.
Roberto de Lucena (Republicanos) também recebeu 680 votos; Fernando Aguiar (PSD), 565; e Renato Bolsonaro (PL), 594.
Mais importante do que os números isolados é o que essa distribuição representa depois da eleição.
Renata Abreu, Marcos Pereira, Paulo Alexandre e Rodrigo Gambale conquistaram mandato. São diferentes portas de interlocução política que podem aproximar São Sebastião de Brasília.
Reinaldinho termina, portanto, sem carregar o desgaste de uma derrota individual e com canais abertos em diferentes partidos.
A eleição de 2024 ajuda a dimensionar a liderança atual
O resultado municipal de 2024 também precisa entrar nessa análise.
Reinaldinho chegou à Prefeitura com 29.083 votos.
Felipe Augusto, dois anos depois, alcançou 9.534 votos para deputado federal.
São eleições distintas, mas os números ajudam a dimensionar quem possui atualmente a maior capacidade recente de mobilização eleitoral no município.
A votação de Reinaldinho para prefeito foi superior a três vezes a votação obtida por Felipe para federal.
Felipe continua sendo uma liderança política e liderou a votação para deputado federal dentro da cidade. Ignorar isso seria distorcer o resultado.
Mas também seria equivocado olhar apenas para sua primeira colocação e ignorar que mais de 80% dos votos válidos para deputado federal foram destinados a outros candidatos.
O eleitor de São Sebastião mostrou independência
A eleição deixou uma mensagem clara: o voto sebastianense não tem dono.
Foi para Felipe, mas também para Pavanato, Maurício Neves, Erika Hilton, Renata Abreu, Gambale, Marcos Pereira, Paulo Alexandre e dezenas de outros candidatos.
Para um ex-prefeito de dois mandatos, que carregava oito anos de exposição administrativa e duas campanhas municipais vitoriosas, ficar abaixo de 20% dos votos válidos para deputado federal dentro do próprio município é um dado político que precisa ser observado.
E é justamente nesse cenário que Reinaldinho cresce.
Ele não precisou transformar 2026 em uma disputa particular contra Felipe Augusto. Não colocou seu capital político inteiro sobre uma candidatura e não amarrou o futuro da administração municipal ao resultado de apenas um deputado.
A urna fez essa separação naturalmente.
Reinaldinho amplia seu espaço no Litoral Norte
A leitura vai além de São Sebastião.
O Litoral Norte, formado por São Sebastião, Caraguatatuba, Ilhabela e Ubatuba, continua dependendo fortemente da capacidade de articulação dos prefeitos com deputados estaduais, federais e com os governos estadual e federal.
Nesse ambiente, Reinaldinho passa a ocupar uma posição diferenciada.
É prefeito de uma das principais cidades da região, venceu a eleição municipal de 2024 com 29.083 votos e chega ao pós-eleição de 2026 mantendo interlocução com diferentes forças partidárias.
Enquanto alguns grupos precisavam da eleição de um nome específico para comprovar força, Reinaldinho não precisava vencer dessa maneira.
Sua força está justamente na amplitude.
Na minha análise, Felipe Augusto venceu numericamente a votação para deputado federal em São Sebastião, mas Reinaldinho venceu politicamente a eleição.
Felipe terminou com 9.534 votos e sem mandato federal. Reinaldinho termina com diferentes deputados eleitos ao seu redor, canais de interlocução abertos e sem carregar nas costas a derrota de um candidato exclusivo da Prefeitura.
Esse resultado consolida uma mudança iniciada em 2024: o centro de gravidade político de São Sebastião está hoje na Prefeitura comandada por Reinaldinho.
E o resultado de 2026 projeta essa liderança para além dos limites municipais.
Entre São Sebastião, Caraguatatuba, Ilhabela e Ubatuba, Reinaldinho emerge como uma das principais forças políticas do novo ciclo e, na minha avaliação, como a principal liderança jovem em ascensão no Litoral Norte paulista.
