Resultado do primeiro turno revela um dos movimentos mais emblemáticos das urnas paulistas: na ampla maioria dos municípios onde Lula ficou à frente para presidente, Tarcísio de Freitas superou Fernando Haddad na disputa pelo Governo de São Paulo. Grande ABC, Alto Tietê, Região Metropolitana e Vale do Paraíba ajudam a explicar esse eleitor que separou as escolhas para os dois cargos.
Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO PAULO
O mapa das urnas de São Paulo deixou um recado político que vai além da tradicional divisão entre direita e esquerda. Os resultados do primeiro turno das Eleições 2026 revelam um eleitor disposto a fazer escolhas diferentes para presidente da República e governador do Estado.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou na primeira colocação para presidente em 39 dos 645 municípios paulistas. O dado mais significativo aparece quando esse resultado é cruzado com a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes: em 33 dessas cidades, quem terminou na frente para governador foi Tarcísio de Freitas (Republicanos), e não Fernando Haddad (PT).
Isso significa que em aproximadamente 85% das cidades paulistas vencidas por Lula, a liderança na eleição estadual ficou com Tarcísio.
O fenômeno ganha ainda mais importância quando observado pelo recorte regional. São Bernardo do Campo, Mauá, Rio Grande da Serra, Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos estão entre os municípios onde a preferência presidencial por Lula não se repetiu na disputa estadual.
É necessário, entretanto, fazer uma distinção importante: os resultados municipais não permitem afirmar que exatamente os mesmos eleitores votaram em Lula e Tarcísio. O que os números demonstram é que Lula foi o candidato presidencial mais votado e Tarcísio o candidato a governador mais votado nesses municípios.
Tarcísio conquista reeleição com mais de 62% dos votos
A dimensão da vitória de Tarcísio aparece no resultado estadual.
O governador foi reeleito no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos, contra 36,42% de Fernando Haddad.
Na eleição presidencial, entretanto, São Paulo apresentou uma disputa diferente. Lula recebeu 44,16% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) alcançou 47,03%, levando a eleição presidencial para o segundo turno.
A comparação ajuda a explicar o tamanho da diferença entre as duas disputas. Tarcísio conseguiu construir uma votação própria que, em diversas cidades, ultrapassou o desempenho do campo político da direita na corrida presidencial.
Grande ABC mostra eleitor dividido entre Presidência e Governo
O Grande ABC oferece alguns dos exemplos mais simbólicos desse comportamento eleitoral.
Em São Bernardo do Campo, cidade profundamente ligada à história política e sindical de Lula, o presidente terminou na frente na eleição presidencial. Ao mesmo tempo, Tarcísio venceu a disputa para governador no município.
Lula recebeu aproximadamente 46,77% dos votos válidos para presidente em São Bernardo. Tarcísio, por sua vez, alcançou cerca de 53,28% na disputa estadual.
O resultado é politicamente relevante porque São Bernardo é um dos principais símbolos nacionais do lulismo. Mesmo preservando força eleitoral suficiente para vencer a disputa presidencial dentro da cidade, Lula não conseguiu produzir uma transferência equivalente de votos para Haddad.
Em Mauá, o cenário também se repetiu. Lula obteve aproximadamente 45,84% para presidente, enquanto Tarcísio chegou a cerca de 53,63% para governador.
Rio Grande da Serra também entrou nesse mapa. Lula ficou na frente para presidente com aproximadamente 48,89%, enquanto Tarcísio venceu a eleição estadual no município com cerca de 52,39%.
O ABC, portanto, deixou de produzir um comportamento eleitoral uniforme. O eleitor pode manter uma identificação nacional com Lula e, simultaneamente, avaliar de maneira diferente a administração estadual.
Diadema resiste e escolhe PT nas duas disputas
Dentro do próprio Grande ABC aparece uma exceção importante: Diadema.
O município foi um dos poucos do Estado onde Lula venceu para presidente e Fernando Haddad também terminou na primeira colocação para governador.
Lula recebeu aproximadamente 52,43% dos votos válidos no município.
Na disputa estadual, a diferença foi muito menor. Haddad venceu com cerca de 50,15%, contra aproximadamente 48,83% de Tarcísio.
Diadema, portanto, permaneceu como um dos principais pontos de resistência eleitoral do PT na Região Metropolitana.
Alto Tietê também registra o fenômeno Lula-Tarcísio
No Alto Tietê, dois municípios merecem atenção especial: Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos.
Em Itaquaquecetuba, Lula alcançou aproximadamente 46,05% dos votos válidos para presidente. Na eleição para governador, porém, Tarcísio avançou para cerca de 56,64%.
A diferença revela que parte expressiva do eleitorado de Itaquaquecetuba não reproduziu, na eleição estadual, a mesma configuração registrada na disputa presidencial.
Em Ferraz de Vasconcelos, Lula também terminou na frente para presidente, com aproximadamente 48,55%. Para governador, Tarcísio venceu com cerca de 49,91%.
Esse comportamento eleitoral é especialmente importante para a análise política do Alto Tietê porque mostra que o eleitorado da região não pode ser enquadrado automaticamente em um único campo ideológico.
Vale do Paraíba apresenta diferenças ainda maiores
No Vale do Paraíba e Vale Histórico, o fenômeno também apareceu.
Em Areias, Lula obteve aproximadamente 53,07% na disputa presidencial, enquanto Tarcísio chegou a cerca de 54,49% para governador.
Em Bananal, Lula registrou aproximadamente 47,50%, enquanto Tarcísio alcançou cerca de 58,92%.
Mas um dos resultados mais expressivos aparece em São José do Barreiro.
Lula venceu a corrida presidencial no município com aproximadamente 47,71%, enquanto Tarcísio chegou a 65,44% para governador.
São mais de 17 pontos percentuais de diferença entre a votação proporcional dos dois vencedores em suas respectivas disputas dentro da mesma cidade.
O dado reforça a tese de que Tarcísio conseguiu construir uma votação estadual que ultrapassou as fronteiras tradicionais do eleitorado presidencial associado à direita.
Capital também escolheu Lula e Tarcísio
A maior cidade do país também entrou nesse mapa político.
Na cidade de São Paulo, Lula terminou na primeira colocação para presidente com aproximadamente 46,58% dos votos válidos.
Para governador, entretanto, Tarcísio venceu na capital com cerca de 52,76%.
O fenômeno, portanto, não ficou restrito às pequenas cidades do interior.
Ele aparece justamente no maior colégio eleitoral paulista e também se espalha por municípios populosos da Região Metropolitana.
Carapicuíba, Embu das Artes, Itapevi, Itapecerica da Serra, Taboão da Serra e Franco da Rocha também apresentaram a combinação de Lula na liderança presidencial e Tarcísio na liderança estadual.
Em Carapicuíba, por exemplo, Lula ficou com aproximadamente 46,30%, enquanto Tarcísio alcançou cerca de 54,64%.
As cidades onde Lula e Tarcísio dividiram a liderança das urnas
Entre os municípios apontados no levantamento estão:
Américo Brasiliense, Areias, Bananal, Caiuá, Carapicuíba, Castilho, Cubatão, Dolcinópolis, Embu das Artes, Ferraz de Vasconcelos, Franco da Rocha, Gastão Vidigal, Gavião Peixoto, Guapiara, Iporanga, Itaoca, Itapecerica da Serra, Itapevi, Itaquaquecetuba, Marabá Paulista, Mauá, Mirante do Paranapanema, Populina, Ribeira, Rio Grande da Serra, Rosana, Santa Lúcia, São Bernardo do Campo, São João de Iracema, São José do Barreiro, São Paulo, Taboão da Serra, Teodoro Sampaio e Trabiju.
Atenção editorial: a relação nominal reproduzida nos levantamentos disponíveis apresenta uma inconsistência: embora o dado divulgado seja de 33 municípios, a lista acima reúne 34 nomes. Por isso, antes da publicação definitiva, é recomendável conferir a relação município a município na base oficial do TSE, evitando transformar uma inconsistência de levantamento em dado da Guardiã.
Apenas seis cidades mantiveram Lula e Haddad na liderança
O outro lado desse levantamento talvez seja ainda mais revelador.
Das 39 cidades paulistas onde Lula venceu para presidente, somente seis também deram a vitória a Fernando Haddad para governador.
São elas:
Coronel Macedo, Diadema, Euclides da Cunha Paulista, Francisco Morato, Itapura e Sandovalina.
Ou seja: em aproximadamente 15% das cidades vencidas por Lula, o PT conseguiu repetir a liderança também na eleição estadual.
Nos demais municípios, o voto presidencial em Lula conviveu com uma preferência majoritária por Tarcísio para o comando do Estado.
O recado das urnas para 2026 e para o futuro político de São Paulo
O resultado desmonta uma leitura simplificada do eleitorado paulista.
Não existe necessariamente uma transferência automática entre a escolha para presidente e a escolha para governador. O eleitor demonstrou capacidade de separar os cargos, avaliar administrações e construir combinações políticas que, à primeira vista, poderiam parecer contraditórias.
Para Tarcísio de Freitas, o resultado é particularmente significativo. A vitória em cidades onde Lula ainda conserva força mostra que sua votação ultrapassou o eleitorado estritamente identificado com o bolsonarismo.
Para o PT, o sinal é diferente. Lula continua competitivo em áreas importantes da Região Metropolitana, do ABC e em determinados municípios do interior, mas a força pessoal do presidente não foi suficiente para garantir desempenho semelhante a Fernando Haddad na disputa estadual.
E é justamente no regional que essa transformação fica mais evidente.
São Bernardo escolheu Lula e Tarcísio. Mauá escolheu Lula e Tarcísio. Rio Grande da Serra escolheu Lula e Tarcísio. Itaquaquecetuba escolheu Lula e Tarcísio. Ferraz de Vasconcelos escolheu Lula e Tarcísio.
Enquanto isso, Diadema manteve Lula e Haddad na liderança.
O mapa eleitoral de 2026 mostra, portanto, que compreender São Paulo exige olhar além das cores partidárias. O eleitor paulista separou as urnas, dividiu suas escolhas e produziu um resultado que redesenha a leitura política do Grande ABC, Alto Tietê, Região Metropolitana, Vale do Paraíba e do próprio Estado de São Paulo.
