GAECO aponta organização voltada à subtração de smartphones, acesso a contas bancárias e comercialização ilegal de aparelhos e peças; Ministério Público pede quase R$ 90 milhões por danos morais coletivos
Por Gabrielle Tricanico | SEGURANÇA PÚBLICA | SÃO PAULO
A Justiça recebeu a primeira denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) no âmbito da Operação Frankmobile e tornou réus sete investigados apontados pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) como integrantes de uma estrutura criminosa relacionada à subtração de celulares, desvio de recursos financeiros das vítimas e posterior comercialização dos aparelhos e de suas peças.
A denúncia representa uma nova etapa da investigação sobre uma cadeia criminosa que, segundo o Ministério Público, não terminava no roubo ou furto do aparelho. A apuração busca atingir diferentes etapas do esquema, desde a obtenção ilegal dos smartphones até a receptação e a exploração das informações e recursos financeiros armazenados ou acessíveis pelos dispositivos.
Os sete réus tiveram prisões preventivas decretadas e responderão, segundo as informações divulgadas pelo MPSP, por organização criminosa. Três também são processados por falsidade ideológica e dois por receptação, conforme as imputações apresentadas na denúncia protocolada em 17 de setembro.
GAECO pede quase R$ 90 milhões em indenização
Além da responsabilização criminal, os promotores do GAECO requereram que os acusados sejam condenados ao pagamento de um valor total próximo de R$ 90 milhões por danos morais coletivos.
O pedido amplia a dimensão da ação penal ao sustentar que os efeitos desse tipo de criminalidade ultrapassam os prejuízos individuais provocados às vítimas.
Na argumentação apresentada pelo Ministério Público, o celular passou a concentrar uma parcela significativa da vida financeira e pessoal dos brasileiros. Aplicativos bancários, documentos, fotografias, dados pessoais, contas de e-mail, redes sociais e sistemas de autenticação transformaram os smartphones em instrumentos capazes de dar acesso a informações sensíveis.
Por isso, o roubo ou furto de um aparelho pode representar não apenas a perda de um bem material, mas também a abertura de uma porta para fraudes bancárias, transferências indevidas, invasão de contas, utilização de dados pessoais e outros crimes patrimoniais.
Brasil registrou mais de 830 mil celulares roubados ou furtados em 2025
O MPSP também destacou a dimensão nacional do problema. Segundo os dados apresentados pelo órgão, o Brasil registrou 830.890 roubos e furtos de celulares em 2025.
O volume corresponde, em média, a aproximadamente 95 aparelhos subtraídos por hora, ou cerca de um celular a cada 38 segundos.
Os números ajudam a dimensionar um crime que possui impacto particularmente relevante nos grandes centros urbanos e nas regiões metropolitanas, onde a circulação intensa de pessoas, o transporte coletivo e os corredores comerciais ampliam a exposição da população.
Em São Paulo e nas cidades da Região Metropolitana, o enfrentamento aos roubos e furtos de celulares também está diretamente relacionado ao combate aos mercados de receptação. A lógica das investigações é atingir não apenas quem pratica a subtração do aparelho nas ruas, mas também estruturas responsáveis por receber, desmontar, revender ou utilizar os dispositivos para outros crimes.
Operação mobilizou 1,7 mil agentes
A Operação Frankmobile foi deflagrada em 10 de setembro e teve uma das maiores mobilizações recentes direcionadas ao enfrentamento dessa cadeia criminosa.
Segundo o Ministério Público, aproximadamente 1.700 agentes participaram da força-tarefa, envolvendo o MPSP, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal e Secretaria da Fazenda e Planejamento.
O objetivo foi atingir uma estrutura associada a furtos, roubos, receptação e posterior comercialização ilegal de celulares e componentes.
A participação de diferentes órgãos públicos evidencia a complexidade desse mercado ilegal. Depois de roubado ou furtado, um celular pode seguir diferentes caminhos: revenda irregular, desmontagem para aproveitamento de componentes ou utilização dos dados existentes no aparelho para a prática de outros delitos.
Investigação mira cadeia que vai das ruas ao mercado ilegal
A Operação Frankmobile coloca em evidência uma mudança importante na estratégia de combate ao roubo de celulares em São Paulo: a tentativa de desarticular a cadeia econômica que sustenta o crime, e não apenas prender os autores responsáveis pela abordagem direta às vítimas.
Sem estruturas de receptação e comercialização, o aparelho roubado perde parte de seu valor dentro do mercado criminoso. Por isso, investigações sobre estabelecimentos, intermediários, compradores e possíveis mecanismos utilizados para dar aparência de legalidade aos dispositivos passaram a ter papel estratégico.
A transformação dos sete investigados em réus significa que a Justiça considerou presentes os requisitos para o recebimento da denúncia. Isso, porém, não representa condenação. Os acusados terão direito à defesa e ao contraditório durante o andamento do processo, e a responsabilidade criminal de cada um deverá ser definida pela Justiça.

