Investigação da Polícia Civil aponta pagamentos via Pix, cobrança de até R$ 10 mil por aparelho e possível participação de servidores públicos em esquema dentro do sistema prisional de Mato Grosso
Por Gabrielle Tricanico | SEGURANÇA PÚBLICA | MATO GROSSO
A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou nesta quarta-feira (9) a Operação Insídia, que investiga um suposto esquema de corrupção envolvendo a entrada clandestina de aparelhos celulares e outros objetos proibidos no sistema penitenciário do estado. Entre os alvos estão um policial penal e uma professora que atuava dentro de unidade prisional.
A ofensiva teve como centro Cuiabá, onde foram cumpridas oito ordens judiciais. As medidas incluem dois mandados de prisão preventiva, dois mandados de busca e apreensão, dois bloqueios de valores e duas suspensões cautelares do exercício das funções públicas.
As ordens foram expedidas pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juízo das Garantias da capital mato-grossense.
investigação começou após análise de materiais apreendidos
Segundo a Polícia Civil, as apurações começaram em junho de 2025 e foram conduzidas pela Gerência de Combate ao Crime Organizado e pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (GCCO/Draco).
A investigação avançou após a análise de materiais apreendidos em procedimentos anteriores. A partir daí, os investigadores identificaram movimentações financeiras consideradas suspeitas, entre elas transferências realizadas por Pix para a professora investigada.
Ela era contratada pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso e trabalhava em salas anexas de uma escola estadual instalada no Centro de Ressocialização de Várzea Grande, município da Região Metropolitana de Cuiabá.
De acordo com a apuração policial, parte das transferências teria sido realizada por reeducandos ou por pessoas relacionadas a eles, como familiares e visitantes cadastrados.
celulares poderiam custar até R$ 10 mil dentro do esquema
Um dos pontos que chama atenção na investigação é o valor supostamente cobrado para que os aparelhos chegassem ao interior da unidade prisional.
Conforme a Polícia Civil, o policial penal investigado teria recebido entre R$ 7 mil e R$ 10 mil por cada celular introduzido clandestinamente no presídio para integrantes de uma organização criminosa.
Os investigadores apuram ainda a utilização da conta bancária da companheira do policial para o recebimento de parte dos valores. A suspeita é de que a estratégia pudesse dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro.
As movimentações financeiras passaram, portanto, a ocupar posição central na investigação, especialmente para a reconstrução do possível fluxo de pagamentos entre detentos, pessoas externas ao sistema prisional e os agentes investigados.
esquema expõe vulnerabilidade dentro do sistema prisional
O caso ganha dimensão regional porque envolve duas áreas consideradas estratégicas para o poder público em Mato Grosso: segurança penitenciária e educação dentro das unidades de ressocialização.
A presença de celulares em presídios representa um dos principais desafios no enfrentamento ao crime organizado. Mesmo dentro das unidades, aparelhos clandestinos podem permitir que integrantes de organizações criminosas mantenham comunicação com pessoas em liberdade, repassem determinações e articulem atividades externas.
A suspeita de participação de profissionais que possuem acesso autorizado ao ambiente penitenciário aumenta a gravidade institucional da investigação. No caso apurado em Mato Grosso, a Polícia Civil tenta identificar não apenas quem teria transportado os equipamentos, mas também como funcionava a cadeia financeira e logística que permitia a entrada dos materiais.
Outro ponto relevante é a participação de uma profissional vinculada à educação. As salas de aula mantidas dentro dos presídios integram as políticas de ressocialização e permitem que pessoas privadas de liberdade continuem os estudos. A investigação agora busca esclarecer se a atividade profissional teria sido utilizada para facilitar acessos ou movimentações dentro da unidade.
Cuiabá e Várzea Grande no centro da investigação
Embora as ordens judiciais tenham sido cumpridas em Cuiabá, parte dos fatos investigados está relacionada diretamente a Várzea Grande, segunda maior cidade da Região Metropolitana da capital e onde está localizado o centro de ressocialização citado na investigação.
O avanço da Operação Insídia deverá permitir à Polícia Civil verificar se o episódio envolvia apenas os investigados identificados até agora ou se existia uma estrutura mais ampla de fornecedores, intermediários e responsáveis pelas movimentações financeiras.
A apuração também deverá aprofundar a origem dos aparelhos, a quantidade de celulares que teriam entrado na unidade e o período durante o qual o suposto esquema funcionou.
Por se tratar de investigação em andamento, as responsabilidades individuais ainda deverão ser analisadas no curso do processo, com garantia do direito de defesa dos investigados.