Decisão do torneio britânico de não criar credenciamento específico para criadores de conteúdo reforça discussão sobre critérios profissionais, responsabilidade editorial e o papel do jornalismo na cobertura de grandes eventos
Por Gabrielle Tricanico | ESPORTES | INTERNACIONAL
Wimbledon decidiu colocar limites na relação entre grandes eventos esportivos e a chamada economia dos influenciadores. O tradicional torneio britânico de tênis não pretende criar uma categoria específica de credenciamento para influenciadores ou criadores de conteúdo e sinaliza que equipamentos capazes de interferir na concentração dos atletas poderão sofrer restrições.
Mais do que uma discussão sobre redes sociais, a medida abre espaço para um debate necessário dentro da comunicação: qual é o valor da mídia profissional na cobertura de acontecimentos de interesse público e até onde eventos esportivos devem flexibilizar seus critérios para atender à lógica da produção de conteúdo digital?
A discussão ganhou força depois da experiência do US Open. Segundo as informações divulgadas, aproximadamente 100 criadores de conteúdo receberam credenciais na edição de 2026, quase o dobro dos 54 registrados no ano anterior. Episódios envolvendo gravações, iluminação e barulho durante partidas provocaram críticas e colocaram em discussão os limites entre produzir conteúdo e interferir no próprio acontecimento que está sendo coberto.
Credencial de imprensa não pode ser tratada apenas como acesso
A posição de Wimbledon toca em um problema que ultrapassa o tênis. O credenciamento jornalístico existe para permitir que profissionais acompanhem, apurem e transmitam informações ao público. Ele pressupõe responsabilidade, conhecimento das regras do ambiente, critérios editoriais e compromisso com a informação.
Isso não significa negar a relevância dos influenciadores. Criadores digitais conquistaram audiência, desenvolveram novas linguagens e têm capacidade indiscutível de aproximar eventos de públicos que muitas vezes não são alcançados pelos veículos tradicionais.
O problema surge quando alcance nas redes sociais passa a ser tratado como equivalente automático à atividade jornalística.
Jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, produtores e veículos de comunicação mantêm estruturas profissionais para realizar coberturas. Há preparação de pauta, apuração, checagem, edição, contextualização e responsabilidade sobre aquilo que é publicado. Em grandes eventos, existe ainda uma série de protocolos destinados a preservar a competição e o trabalho dos próprios atletas.
Wimbledon sinaliza uma mudança de prioridade
Ao não estabelecer uma credencial especial para influenciadores, o All England Club sinaliza que popularidade digital, isoladamente, não será suficiente para modificar as regras tradicionais de acesso e comportamento dentro do torneio.
Influenciadores continuam podendo acompanhar Wimbledon como espectadores, mas sujeitos às normas aplicadas ao público. O ponto central está justamente na diferenciação entre estar em um evento para produzir conteúdo pessoal e estar profissionalmente credenciado para realizar uma cobertura jornalística.
Essa separação precisa ser observada também no Brasil.
Nos últimos anos, assessorias, eventos públicos e privados, clubes, campanhas e grandes produções passaram a disputar audiência nas redes sociais. A transformação é legítima e irreversível. Entretanto, modernizar a comunicação não deveria significar diminuir o espaço destinado ao jornalismo profissional.
Valorizar a mídia tradicional não significa rejeitar as redes sociais
A discussão também não pode cair na falsa oposição entre jornalistas e influenciadores.
Há espaço para os dois modelos. O que precisa existir são critérios.
Um influenciador pode alcançar milhões de pessoas e produzir conteúdo relevante. Um veículo regional pode possuir audiência numericamente menor em determinada plataforma, mas realizar diariamente uma cobertura essencial de política, economia, segurança, saúde, serviços públicos e da realidade de uma comunidade.
É justamente por isso que número de seguidores não pode se transformar no único indicador de relevância para concessão de acesso, entrevistas ou credenciais.
A mídia tradicional também mudou. Rádios estão nas redes sociais, jornais produzem vídeos verticais, emissoras transmitem pela internet e portais trabalham em múltiplas plataformas. O jornalismo profissional não está fora do ambiente digital; ele faz parte dele.
A diferença fundamental continua sendo a finalidade: jornalismo não existe apenas para gerar engajamento. Existe para informar, fiscalizar, contextualizar e registrar os acontecimentos.
A decisão de Wimbledon, portanto, representa mais do que uma regra de etiqueta dentro das quadras. Ela coloca novamente no centro da discussão internacional a necessidade de estabelecer fronteiras claras entre audiência, influência e jornalismo profissional.
Em uma época na qual praticamente qualquer pessoa pode transmitir um acontecimento em segundos, valorizar a imprensa não é defender o passado. É reconhecer que acesso à informação, responsabilidade editorial e independência jornalística continuam sendo pilares indispensáveis para a sociedade.
