Funcionário de 33 anos trabalhava em uma vala na Rua Águas da Prata quando foi atingido pela pá da máquina. Depoimentos registrados no boletim de ocorrência apresentam versões sobre protocolos de segurança, ponto cego e circunstâncias que antecederam a morte. Caso foi registrado como homicídio culposo.
Por Gabrielle Tricanico | CIDADES | ITAQUAQUECETUBA
Um trabalhador de 33 anos morreu na manhã deste sábado (29), após ser atingido por uma retroescavadeira durante uma obra realizada por uma empresa contratada pela Sabesp, em Itaquaquecetuba, no Alto Tietê. A ocorrência abre uma investigação que deverá esclarecer não apenas a dinâmica do acidente, mas também as condições de segurança adotadas no canteiro e o cumprimento dos procedimentos para trabalhos envolvendo máquinas pesadas e escavações.
A vítima foi identificada como Carlos Henrique Rocha de Oliveira. Segundo as informações registradas no boletim de ocorrência, o acidente aconteceu por volta das 9h30, na Rua Águas da Prata, enquanto trabalhadores atuavam em uma vala relacionada ao atendimento de um vazamento.
De acordo com o relato do encarregado da obra à polícia, Carlos estava na vala quando a retroescavadeira começou a ser movimentada e acabou sendo atingido pela pá do equipamento.
Equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do resgate foram acionadas, mas a vítima não resistiu. A morte foi constatada ainda no local.
Depoimentos levantam questões sobre os procedimentos de segurança
Um dos pontos que deverá ser aprofundado pela investigação está relacionado à movimentação da máquina enquanto havia trabalhadores próximos à área de operação.
Conforme o boletim de ocorrência reproduzido nas informações disponíveis, o encarregado declarou que teria sido solicitado ao operador que interrompesse o trabalho, mas a paralisação não teria ocorrido imediatamente.
O operador da retroescavadeira, identificado como Amauri Ribeiro de Deus, apresentou sua versão à polícia. Ele afirmou trabalhar para a empresa AMZS e relatou que haveria um protocolo interno determinando distância de aproximadamente quatro metros entre trabalhadores e máquinas, justamente para reduzir o risco de acidentes.
Segundo seu depoimento, inicialmente foi aberta uma vala e, durante a abertura de uma segunda, uma mangueira teria sido atingida e rompida. A partir daí, ele teria começado a retirar terra para permitir o acesso da equipe responsável pela manutenção.
Ainda conforme essa versão, Carlos teria entrado na área antes da realização do escoramento e estaria em um ponto cego da retroescavadeira quando foi atingido.
Essas declarações integram os elementos iniciais da ocorrência e ainda precisam ser confrontadas com perícias, eventuais testemunhos, documentos de segurança do trabalho e demais evidências. Portanto, não é possível, neste momento, atribuir responsabilidade definitiva pelo acidente.
Saída do operador do local também consta no BO
Outro aspecto registrado no boletim deverá ser analisado pela Polícia Civil. Segundo o relato do encarregado, o operador teria deixado o local depois de tomar conhecimento da morte do colega.
Em depoimento, porém, Amauri declarou que participou inicialmente do socorro, descendo à vala acompanhado de outros trabalhadores, e afirmou ter saído posteriormente porque entrou em estado de choque. Ele também disse que era amigo da vítima.
A divergência sobre as circunstâncias e o momento da saída poderá ser esclarecida ao longo da apuração policial.
Tragédia coloca segurança em obras no centro da investigação
Além da responsabilidade individual, o episódio coloca em discussão os protocolos adotados em obras de saneamento realizadas por empresas terceirizadas.
A investigação poderá verificar, entre outros aspectos, se a área de movimentação da retroescavadeira estava devidamente isolada, se havia comunicação adequada entre operador e trabalhadores em solo, quais procedimentos estavam previstos para atuação dentro da vala e se as normas de segurança foram efetivamente cumpridas.
Também deverá ser apurado se os trabalhadores receberam treinamento adequado e se havia supervisão suficiente para impedir a permanência de pessoas dentro do raio de movimentação da máquina.
Por se tratar de uma obra executada por empresa contratada pela Sabesp, o caso também pode gerar questionamentos sobre a fiscalização das condições de segurança e das obrigações contratuais aplicáveis às prestadoras de serviço.
Caso é investigado em Itaquaquecetuba
A ocorrência foi registrada como homicídio culposo, modalidade em que não há intenção de matar, no 1º Distrito Policial de Itaquaquecetuba.
A classificação inicial do boletim não representa conclusão sobre eventual responsabilidade criminal. Caberá à investigação determinar a dinâmica exata do acidente e verificar se houve imprudência, negligência, imperícia ou descumprimento de normas de segurança.
A morte de Carlos Henrique Rocha de Oliveira transforma uma ocorrência de trabalho em uma questão que ultrapassa os limites do canteiro de obras. Em uma cidade que recebe intervenções de infraestrutura e saneamento, o episódio reforça a necessidade de fiscalização permanente para que obras destinadas a melhorar os serviços públicos não exponham trabalhadores a riscos evitáveis.
A Guardiã da Notícia acompanha o caso e buscará posicionamentos da Sabesp e da empresa responsável pela execução dos serviços.
