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Tecnologia transforma línguas indígenas em salas de aula digitais e ajuda a preservar patrimônio ameaçado no Brasil

Dicionários multimídia unem educação, ciência e participação de comunidades indígenas para registrar palavras, sons, imagens e conhecimentos tradicionais; Brasil tem 295 línguas indígenas identificadas pelo IBGE, enquanto parte desse patrimônio enfrenta redução no número de falantes.

Por Gabrielle Tricanico | EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA | BRASIL

A tecnologia está assumindo um papel estratégico na preservação de um dos patrimônios culturais mais importantes — e vulneráveis — do Brasil: as línguas dos povos indígenas. Ferramentas digitais desenvolvidas em parceria com as próprias comunidades estão transformando palavras, pronúncias, imagens e conhecimentos transmitidos entre gerações em material de consulta e, principalmente, em instrumento educacional.

Os Dicionários Multimídia para Línguas Indígenas, desenvolvidos pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), representam uma das experiências mais relevantes dessa aproximação entre ciência, educação e tecnologia. A plataforma reúne registros escritos e fonéticos, áudios com falantes, imagens e outros recursos que permitem não apenas consultar uma palavra, mas aprender como ela é pronunciada e utilizada.

O projeto ganhou ainda mais relevância nacional em 2026: foi um dos sete vencedores do 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, reconhecimento concedido a iniciativas com capacidade de produzir transformação social. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Brasil tem 295 línguas indígenas

A dimensão desse patrimônio é maior do que muitas vezes aparece nos currículos escolares.

Dados divulgados pelo IBGE a partir do Censo Demográfico 2022 identificaram 391 etnias, povos ou grupos indígenas e 295 línguas indígenas faladas ou utilizadas nos domicílios brasileiros. Entre as línguas com maior número de falantes estão Tikúna, Guarani Kaiowá, Guajajara e Kaingang. (Educa IBGE⁠)

A diversidade linguística também ultrapassa os territórios tradicionalmente associados às populações indígenas. Segundo o IBGE, São Paulo aparece com 77 línguas indígenas declaradas, atrás apenas de Manaus, que registrou 97 entre as capitais. Brasília contabilizou 60. (Educa IBGE⁠)

Isso reforça uma dimensão educacional importante: falar de línguas indígenas não significa tratar apenas de uma realidade distante dos grandes centros urbanos. Esse patrimônio também está presente nas metrópoles e faz parte da formação histórica, cultural e linguística brasileira.

Quando uma língua desaparece, conhecimentos também podem desaparecer

A preservação linguística ultrapassa a conservação de palavras.

Uma língua carrega maneiras próprias de compreender relações familiares, território, natureza, alimentação, espiritualidade, medicina tradicional, histórias e organização comunitária. Quando deixa de ser transmitida entre gerações, parte desse sistema de conhecimentos corre o risco de perder seu principal mecanismo de circulação.

O cenário é particularmente delicado na Amazônia. O Museu Goeldi aponta que aproximadamente dois terços das línguas originárias brasileiras estão concentradas na região e que algumas enfrentam situações críticas, com poucos falantes e dificuldades na transmissão para crianças e jovens. (Museu Goeldi⁠)

É exatamente nesse ponto que educação e tecnologia passam a trabalhar juntas.

Dicionário deixa de ser apenas livro e passa a “falar”

A inovação dos dicionários multimídia está na possibilidade de registrar características que um vocabulário tradicional impresso dificilmente consegue preservar sozinho.

Além da palavra escrita e da tradução para o português, a tecnologia pode apresentar a transcrição fonética, a imagem relacionada ao significado e, principalmente, o áudio da pronúncia feita por falantes da própria língua.

A plataforma do Museu Goeldi já disponibiliza dicionários relacionados às línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além de um dicionário de lugares sagrados do povo Medzeniakonai. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Os conteúdos podem ser acessados por computadores, celulares e tablets. Há ainda alternativas em HTML, PDF e aplicativos Android, permitindo utilização mesmo em locais onde o acesso à internet é limitado ou inexistente. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Essa característica é fundamental para a educação indígena em regiões onde a conectividade continua sendo um obstáculo.

Tecnologia chega à sala de aula

O impacto mais concreto aparece quando o banco de dados deixa o ambiente de pesquisa e passa a ser utilizado para ensinar.

Na escola Iwara Puruborá, na Aldeia Aperoi, em Rondônia, por exemplo, o dicionário da língua Puruborá é utilizado como material didático para estudantes de diferentes idades. A ferramenta também possibilita atividades remotas com integrantes da comunidade que vivem fora do território. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Nesse contexto, o celular deixa de representar apenas entretenimento ou comunicação e passa a funcionar como uma espécie de arquivo linguístico portátil.

Uma criança pode visualizar uma palavra, associá-la a uma imagem e ouvir sua pronúncia. Jovens podem recorrer ao sistema para recuperar vocabulários que deixaram de fazer parte de seu cotidiano. Professores ganham material para desenvolver atividades pedagógicas. E pesquisadores conseguem organizar registros que poderão permanecer disponíveis às próximas gerações.

Comunidades não são apenas objeto de pesquisa

Outro ponto central da iniciativa está na forma como o conhecimento é produzido.

A documentação linguística é realizada com participação de falantes e comunidades indígenas. A metodologia foi concebida para ser adaptável e reaplicável, permitindo que diferentes povos definam prioridades de acordo com suas próprias realidades linguísticas e culturais. (Museu Goeldi⁠)

Essa lógica muda a relação tradicional entre tecnologia e patrimônio cultural.

Em vez de simplesmente digitalizar informações sobre os povos indígenas, a proposta procura construir ferramentas com os povos indígenas, incorporando conhecimentos e vozes de quem utiliza essas línguas.

Educação digital também pode proteger memória

O avanço das ferramentas mostra que inovação tecnológica não precisa significar ruptura com conhecimentos ancestrais.

Neste caso, ocorre justamente o contrário.

Áudio, vídeo, aplicativos, bancos de dados e plataformas digitais estão sendo empregados para ampliar as possibilidades de transmissão de conhecimentos que durante séculos circularam principalmente pela oralidade.

A experiência brasileira mostra ainda que a tecnologia pode assumir uma função educacional que vai além da preservação documental: ajudar uma língua a continuar sendo ensinada, ouvida e utilizada.

Em um país com 295 línguas indígenas registradas, preservar essa diversidade significa proteger também diferentes formas de compreender a história e o território brasileiro.

E, diante do risco enfrentado por idiomas com poucos falantes, o desafio já não é somente guardar palavras em arquivos. É criar condições para que crianças e jovens possam voltar a ouvi-las, aprendê-las e transmiti-las.

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