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Kassab leva Caiado à elite empresarial de São Paulo e tenta criar o voto “Carcísio” no maior colégio eleitoral do país

Encontro com empresários e nomes ligados ao agronegócio revela uma operação política mais ampla do PSD: fortalecer Ronaldo Caiado para o Planalto sem romper a aliança paulista que sustenta a reeleição de Tarcísio de Freitas. Movimento pressiona a estratégia de Flávio Bolsonaro e transforma São Paulo em território decisivo da disputa presidencial.

Por Gabrielle Tricanico | ELEIÇÕES 2026 | SÃO PAULO

A eleição presidencial começa a ganhar uma disputa própria dentro da direita brasileira — e São Paulo está no centro dessa batalha.

Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, promove nesta quinta-feira (13) um encontro com empresários, industriais, fazendeiros e representantes ligados ao agronegócio paulista no Iate Clube de Santos, em Higienópolis, região central da capital.

Mais do que um coquetel, o encontro representa uma ofensiva para inserir Caiado em um eleitorado estratégico: o empresariado paulista que apoia majoritariamente a continuidade do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas que não necessariamente está fechado com um único candidato à Presidência.

É justamente nesse espaço que Kassab tenta construir uma combinação eleitoral que já ganhou apelido nos bastidores: o voto “Carcísio”, numa referência à possibilidade de o eleitor paulista escolher Caiado para presidente e Tarcísio para governador.

O movimento ocorre em um momento particularmente sensível da campanha. O PSD trabalha para ampliar nacionalmente a candidatura de Ronaldo Caiado e, ao mesmo tempo, em São Paulo mantém interlocução com o arco político que sustenta Tarcísio.

Kassab tenta transformar uma aparente contradição em estratégia eleitoral

O desenho mostra uma das características mais importantes da atuação política de Kassab: a capacidade de trabalhar simultaneamente com projetos nacionais e estaduais distintos.

No plano nacional, ele precisa fazer Caiado crescer.

Em São Paulo, precisa preservar a aliança com Tarcísio.

A aposta é que as duas coisas não sejam incompatíveis.

O PSD procura convencer uma parcela do eleitorado de centro-direita de que é possível manter Tarcísio no comando do maior estado brasileiro e, ao mesmo tempo, apostar em uma candidatura presidencial conservadora fora da polarização direta entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Essa estratégia também ajuda a explicar por que o empresariado paulista se tornou tão importante para Caiado.

A campanha tenta apresentar o candidato como uma alternativa de direita com experiência administrativa, discurso de responsabilidade fiscal, segurança pública e capacidade de interlocução com o setor produtivo.

Agro vira campo de batalha entre Caiado e Flávio Bolsonaro

O ponto mais delicado da operação está no agronegócio.

Historicamente identificado com pautas conservadoras e fortemente conectado ao bolsonarismo nos últimos ciclos eleitorais, o setor representa um território eleitoral que Caiado conhece profundamente.

A tentativa de Kassab é abrir espaço nesse eleitorado.

Entre os nomes mencionados no convite estão empresários e produtores de peso, como Roque Quagliato, um dos nomes tradicionais da pecuária brasileira; Shiro Nishimura, acionista do Grupo Jacto, fabricante de máquinas agrícolas; o pecuarista Jovelino Mineiro; além dos empresários ligados ao setor sucroenergético Jacyr Costa e Ubiratan Garms.

Também aparecem representantes de outros segmentos, como Berardino Fanganiello, Regina Esteves, CEO da Comunitas, e Andrea Matarazzo, ex-ministro e ex-vereador de São Paulo.

A presença desses nomes no convite não significa, por si só, apoio eleitoral a Caiado. Politicamente, porém, o encontro oferece ao candidato algo fundamental: acesso e interlocução com setores econômicos capazes de ampliar sua candidatura para além de Goiás e do Centro-Oeste.

E é justamente aí que surge o conflito com Flávio Bolsonaro.

Parte dos convidados teria demonstrado desconforto com a movimentação, interpretada nos bastidores como uma possível tentativa de enfraquecer a candidatura do senador do PL entre setores tradicionalmente próximos ao bolsonarismo.

O episódio mostra que a disputa pela hegemonia da direita não acontece apenas entre partidos. Ela passa por empresários, produtores rurais, lideranças regionais, prefeitos, parlamentares e formadores de opinião.

O desafio de Caiado é transformar articulação em voto

A movimentação política não elimina o principal desafio de Ronaldo Caiado: transformar articulação partidária e relacionamento empresarial em intenção de voto.

A polarização nacional ainda concentra enorme parte da atenção eleitoral, enquanto Caiado precisa ampliar seu conhecimento fora de suas bases tradicionais e convencer o eleitor de que possui condições reais de chegar ao segundo turno.

Isso ajuda a explicar a ofensiva paulista.

Caiado não precisa apenas conquistar votos. Precisa convencer setores políticos e econômicos de que sua candidatura possui viabilidade para romper a polarização.

E São Paulo é fundamental para essa construção.

Maior colégio eleitoral do Brasil e principal centro econômico do país, o estado também abriga uma parcela expressiva do eleitorado conservador e de centro-direita que será disputada intensamente até outubro.

Tarcísio vira peça central no tabuleiro presidencial

A disputa paulista ganhou dimensão nacional porque Tarcísio se tornou um dos principais ativos eleitorais da direita.

Enquanto busca a reeleição ao Governo de São Paulo, o governador ocupa uma posição estratégica na corrida presidencial.

Flávio Bolsonaro precisa de uma votação expressiva no estado para sustentar uma candidatura competitiva nacionalmente. Ao mesmo tempo, outros candidatos do campo conservador enxergam entre os eleitores de Tarcísio uma possibilidade de crescimento.

O problema para o PL é justamente este: votar em Tarcísio para governador não significa necessariamente votar em Flávio Bolsonaro para presidente.

É exatamente esse eleitor que Kassab parece tentar alcançar.

Se o “Carcísio” ganhar dimensão eleitoral, Caiado poderá se beneficiar da força política de Tarcísio sem precisar construir uma aliança presidencial formal com o governador.

Para o PSD, seria um cenário altamente favorável.

Para o PL, significaria uma dispersão de votos dentro de uma base considerada estratégica.

ANÁLISE | Kassab joga duas eleições ao mesmo tempo

Análise da jornalista Gabrielle Tricanico

O movimento desta quinta-feira deve ser observado para além da fotografia de Ronaldo Caiado ao lado de empresários.

Kassab está jogando duas eleições simultaneamente.

Em São Paulo, preserva sua posição dentro do campo político que sustenta Tarcísio. Nacionalmente, precisa transformar Caiado em candidato competitivo.

Essa arquitetura permite ao PSD permanecer no centro das negociações independentemente da direção tomada pela eleição.

Há, porém, uma dificuldade objetiva: voto não se transfere automaticamente.

Um empresário pode apoiar Tarcísio e Flávio. Outro pode preferir Tarcísio e Caiado. Um terceiro pode apoiar o governador no estado e manter distância da eleição presidencial até a reta final da campanha.

Por isso, o coquetel desta quinta-feira é menos importante pelo número imediato de votos que pode produzir e mais pelo ambiente político que pretende criar.

Caiado precisa primeiro ser reconhecido como uma alternativa possível para depois tentar se consolidar como uma alternativa eleitoralmente viável.

E Kassab sabe que essa construção passa necessariamente por São Paulo.

O encontro também revela uma batalha silenciosa que tende a crescer durante a campanha: quem conseguirá concentrar o eleitorado de direita e centro-direita caso a disputa presidencial caminhe para um segundo turno?

Caiado tenta ocupar esse espaço. Flávio Bolsonaro trabalha para impedir que ele seja aberto.

No meio dessa disputa está Tarcísio, candidato à reeleição em São Paulo e dono de um capital político nacional que interessa aos diferentes projetos presidenciais da direita.

É por isso que o chamado voto “Carcísio” merece atenção.

Mais do que um apelido de bastidor, ele traduz uma tentativa de separar a eleição paulista da presidencial e mostra que, em 2026, a disputa pelo Palácio do Planalto passa também pela batalha para conquistar o eleitor de Tarcísio de Freitas em São Paulo.

Rádio - Clínica Santa Marcia
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