Josmail Rodrigues divulga nota de repúdio contra Geraldo Resende, defende a legalidade da cobrança ambiental e transforma debate administrativo em confronto político às vésperas do período eleitoral.
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Por Gabrielle Tricanico | Política | Bonito (MS)
A disputa política em Bonito, um dos principais destinos de ecoturismo do Brasil, ganhou novos capítulos após o prefeito Josmail Rodrigues divulgar uma nota de repúdio contra o deputado federal Geraldo Resende. A manifestação foi publicada nas redes sociais do chefe do Executivo municipal em resposta às críticas feitas pelo parlamentar sobre a criação e a cobrança da Taxa Ambiental no município.
No documento, Josmail afirma ter recebido com indignação as declarações do deputado e acusa Geraldo Resende de atacar a administração municipal sem conhecer, segundo ele, a realidade dos fatos. O prefeito sustenta que as críticas foram feitas de maneira leviana e desafia o parlamentar a prestar contas dos recursos, investimentos e emendas destinados por seu mandato à cidade de Bonito.
Em um dos trechos mais contundentes, Josmail questiona se a única obra apresentada pelo deputado à população seria uma emenda destinada à Rua Pilad Rebuá há quase duas décadas. A declaração procura atingir diretamente a atuação política e parlamentar de Geraldo Resende no município, deslocando a discussão da Taxa Ambiental para uma cobrança mais ampla sobre a presença e os resultados do deputado na cidade.
O prefeito também defendeu a legalidade da cobrança. Segundo Josmail, a proposta foi aprovada pela Câmara Municipal, cumpriu os trâmites legais e teria sido discutida com transparência. Ele afirma que a administração municipal apresentou informações à população e esclareceu os objetivos da medida desde o início de sua implantação.
Na nota, o chefe do Executivo argumenta que Bonito não é o primeiro destino turístico brasileiro a adotar mecanismos de cobrança voltados à conservação ambiental e ao turismo sustentável. Josmail cita Fernando de Noronha, em Pernambuco, Bombinhas, em Santa Catarina, e Jericoacoara, no Ceará, como exemplos de localidades que utilizam instrumentos semelhantes para financiar ações de preservação e manutenção da estrutura turística.
O prefeito ainda afirma que a gestão realiza um trabalho sério, responsável e transparente para preservar as belezas naturais que transformaram Bonito em referência nacional e internacional no ecoturismo. Para ele, a cobrança deve ser entendida como parte de uma política de proteção do patrimônio ambiental e de planejamento do futuro da cidade.
Entretanto, a resposta deixa o campo administrativo e assume um tom abertamente eleitoral nos trechos finais. Josmail chama Geraldo Resende de “defunto político”, afirma que o deputado estaria em seus últimos meses de mandato e o classifica como uma vergonha para Mato Grosso do Sul. O prefeito também acusa o parlamentar de aparecer no período pré-eleitoral para fazer política baseada em ataques e desinformação.
A linguagem utilizada chama atenção por ultrapassar o padrão normalmente adotado em manifestações institucionais. Embora o texto tenha sido apresentado como nota de repúdio, a publicação se aproxima de um ataque político direto e pessoal, ampliando a tensão entre duas lideranças com atuação no mesmo campo regional.
Análise da Guardiã
Mais do que uma resposta administrativa, a nota divulgada por Josmail Rodrigues possui forte conteúdo político e demonstra que o debate sobre a Taxa Ambiental já ultrapassou a esfera técnica. O prefeito não se limita a defender a legalidade da cobrança ou a explicar sua finalidade. Ele aproveita o episódio para confrontar a trajetória parlamentar de Geraldo Resende, cobrar investimentos e questionar a força política do deputado.
O embate também revela como temas ligados à gestão pública começam a ser incorporados à disputa eleitoral. A Taxa Ambiental, que deveria ser debatida a partir de critérios como legalidade, impacto econômico, preservação, transparência e aplicação dos recursos, passa a funcionar como instrumento de enfrentamento entre grupos políticos.
Bonito não está isolada na adoção de mecanismos de cobrança relacionados ao turismo e à preservação. No Estado de São Paulo, cidades turísticas como Ilhabela, Ubatuba, São Sebastião e Campos do Jordão também adotam cobranças, taxas ou sistemas voltados à compensação dos impactos provocados pelo aumento da circulação de visitantes, veículos e atividades turísticas.
Esses municípios possuem realidades e modelos próprios, mas enfrentam um desafio em comum: demonstrar à população quanto foi arrecadado, onde o dinheiro foi aplicado e quais resultados foram efetivamente alcançados. A prestação de contas aos munícipes é fundamental para garantir legitimidade à cobrança e impedir que a taxa seja vista apenas como mais um peso financeiro para moradores, comerciantes e turistas.
Portanto, o principal debate não deve ser apenas se Bonito pode ou não cobrar uma Taxa Ambiental. A questão central está na governança desses recursos. É necessário apresentar critérios objetivos, fiscalização, relatórios periódicos, investimentos executados e benefícios mensuráveis para a cidade.
A preservação ambiental exige financiamento, especialmente em municípios que recebem um número de visitantes muito superior à população residente. O turismo provoca impactos sobre o trânsito, a limpeza urbana, o saneamento, a coleta de resíduos, a conservação de áreas naturais e a infraestrutura pública. Por isso, a criação de mecanismos de compensação pode ser legítima, desde que acompanhada por transparência, controle social e aplicação responsável.
Ao mesmo tempo, o tom adotado pelo prefeito enfraquece o debate técnico. Expressões como “defunto político” e “vergonha para Mato Grosso do Sul” podem mobilizar apoiadores, mas reduzem o espaço para uma discussão institucional sobre a política ambiental e a destinação dos recursos. A resposta política ganha mais destaque do que os números, os documentos e os resultados que poderiam sustentar a defesa da administração.
O episódio antecipa o ambiente de tensão que deverá marcar a política de Mato Grosso do Sul nos próximos meses. De um lado, Josmail Rodrigues busca defender sua gestão, consolidar sua liderança regional e apresentar a Taxa Ambiental como instrumento de preservação. De outro, Geraldo Resende tenta questionar a condução da medida e ocupar espaço no debate público de Bonito.
Para a população, contudo, a disputa entre prefeito e deputado não pode substituir as respostas necessárias. Os moradores têm o direito de saber quanto a taxa arrecada, quais despesas são financiadas, quais projetos ambientais foram realizados e de que forma o mecanismo melhora a vida de quem mora na cidade.
Bonito carrega a responsabilidade de preservar um patrimônio natural de valor internacional. Essa missão exige recursos, planejamento e coragem administrativa, mas também exige transparência. A Taxa Ambiental poderá ser defendida como política pública eficiente somente se a população conseguir acompanhar, fiscalizar e comprovar os resultados da arrecadação.
A discussão, portanto, precisa sair do campo dos ataques pessoais e voltar ao interesse público. O futuro da Taxa Ambiental será definido não apenas pela força política de seus defensores ou críticos, mas pela capacidade da Prefeitura de demonstrar que o dinheiro arrecadado está sendo transformado em preservação, infraestrutura, sustentabilidade e qualidade de vida.
