Por Gabrielle Tricanico | São Paulo
O feriado estadual de 9 de Julho, celebrado anualmente em São Paulo, vai muito além de um dia de descanso. A data marca a Revolução Constitucionalista de 1932, considerada o maior movimento cívico-militar da história do Estado e um dos acontecimentos mais importantes da história do Brasil. O episódio simboliza a luta dos paulistas pela restauração da ordem constitucional, pela democracia e pela convocação de eleições, tornando-se um dos maiores patrimônios históricos e cívicos da população paulista.
A revolução teve início em 9 de julho de 1932, quando milhares de voluntários, estudantes, trabalhadores, profissionais liberais, agricultores e integrantes das forças de segurança pegaram em armas para enfrentar o governo provisório de Getúlio Vargas. Naquele momento, o país vivia um período de instabilidade política após a Revolução de 1930, e São Paulo reivindicava a elaboração de uma nova Constituição que garantisse direitos, organização institucional e eleições livres.
Antes mesmo do início do conflito armado, um episódio marcaria para sempre a história paulista. Em 23 de maio de 1932, durante uma manifestação na capital, quatro estudantes foram mortos durante confrontos. As iniciais de seus sobrenomes — Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo — deram origem ao movimento MMDC, que se transformou no principal símbolo da Revolução Constitucionalista e da mobilização popular em defesa dos ideais democráticos.
Os confrontos se estenderam por aproximadamente 87 dias, principalmente no Vale do Paraíba, na região de Campinas, Sul de Minas e divisas com outros estados. Mesmo com inferioridade em efetivo, armamentos e apoio militar, os paulistas mantiveram intensa resistência até outubro de 1932. Estima-se que cerca de 35 mil combatentes participaram diretamente da revolução e que aproximadamente 900 pessoas perderam a vida durante os combates.
Embora São Paulo tenha sido derrotado militarmente, historiadores consideram que houve uma importante vitória política. A pressão exercida pelo movimento acelerou o processo de reorganização institucional do país. Em 1933 foi convocada uma Assembleia Nacional Constituinte e, no ano seguinte, o Brasil promulgou uma nova Constituição, considerada um avanço para a época ao estabelecer direitos políticos, sociais e trabalhistas.
O 9 de Julho também possui um significado especial para a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP). A corporação preserva a memória dos policiais e militares que participaram da Revolução Constitucionalista e considera o movimento um dos capítulos mais importantes de sua história. Anualmente, a data é marcada por solenidades militares, homenagens aos combatentes, cerimônias no Obelisco do Ibirapuera e atos cívicos que reforçam valores como patriotismo, disciplina, coragem e compromisso com a defesa da sociedade.
O Obelisco Mausoléu aos Heróis de 1932, localizado no Parque Ibirapuera, é um dos principais símbolos da revolução. O monumento abriga os restos mortais de diversos combatentes e recebe cerimônias oficiais todos os anos, reunindo autoridades civis, militares e representantes da sociedade para homenagear aqueles que participaram do movimento constitucionalista.
Mais de nove décadas depois, o feriado de 9 de Julho continua sendo um marco da identidade paulista. A data preserva a memória de uma geração que lutou por princípios democráticos e pela construção de um Estado baseado na Constituição, reforçando valores que seguem atuais para toda a sociedade brasileira.
