Em entrevista, o ativista e coordenador Heitor Werneck revela o abandono estatal ao evento que movimenta bilhões e faz um duro desabafo sobre a falsa inclusão no mercado corporativo e o preconceito contra o espectro autista.
A maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, sediada na capital paulista, celebra três décadas de existência marcadas por resistência política e forte impacto social. O alerta e o desabafo foram feitos pelo produtor cultural e coordenador artístico do evento, Heitor Werneck. Segundo o ativista, o evento movimenta bilhões em impostos para a cidade em apenas uma semana, mas ainda enfrenta dificuldades históricas para captar patrocínios. Grandes marcas e instituições financeiras, que frequentemente utilizam o discurso da diversidade em campanhas e festivais, muitas vezes deixam de apoiar a Parada, seja por justificativas burocráticas ou pelo receio de associação política ao movimento.
A relação com o poder público também foi apontada como um desafio constante. Werneck reconheceu o apoio e a abertura ao diálogo por parte das secretarias municipais de Cultura e Turismo, mas destacou que ainda existem dificuldades, especialmente na articulação com setores do Legislativo. Segundo ele, a Parada continua dependendo majoritariamente de emendas parlamentares e de esforços independentes para garantir sua realização e ampliar suas ações sociais.
Mesmo diante desses obstáculos, a organização mantém um trabalho contínuo de acolhimento e assistência. O movimento atua no mapeamento e resgate de pessoas marginalizadas, oferece suporte alimentar para centenas de famílias em situação de vulnerabilidade, promove campanhas de conscientização sobre o avanço do vírus HIV e cobra políticas públicas voltadas ao combate da violência contra a população trans. Para a organização, ocupar a Avenida Paulista no próximo dia 7 de junho vai além da celebração festiva: trata-se de um ato de resistência, sobrevivência e afirmação política em defesa da vida.
O ativista também relatou episódios graves de preconceito e falta de amparo em espaços públicos durante crises relacionadas às suas comorbidades neurológicas. Para Werneck, essas experiências evidenciam que a inclusão frequentemente defendida em campanhas publicitárias e no discurso corporativo ainda está distante da realidade cotidiana, sobretudo quando se trata de acolhimento humano, acessibilidade e respeito efetivo à diversidade.
